Política e Resenha

A articulação de Ivan Cordeiro na construção da nova Mesa da Câmara

Política • Câmara Municipal • Opinião

A política do consenso

A formação de uma chapa plural para a eleição da Mesa Diretora evidencia um processo de articulação política que atravessa partidos e diferentes campos do Legislativo conquistense.

Há momentos em que a força de uma presidência legislativa não aparece apenas nas votações realizadas no plenário, mas sobretudo na capacidade de reunir, em torno de uma mesma mesa, parlamentares que pensam diferente, pertencem a partidos distintos e representam interesses políticos nem sempre coincidentes. É sob essa perspectiva que deve ser observada a movimentação em torno da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Vitória da Conquista para o biênio 2027-2028.

A eleição está oficialmente marcada para 2 de outubro de 2026, às 9 horas, durante sessão ordinária. O processo foi convocado pelo presidente Ivan Cordeiro por meio do Edital nº 005/2026.

O cenário atual tem uma particularidade importante: a nova Lei Orgânica de Vitória da Conquista passou a permitir uma única recondução para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente, inclusive dentro da mesma legislatura. O artigo 114 estabelece mandato de dois anos para a Mesa e admite essa recondução. Trata-se de uma mudança concreta em relação à antiga Lei Orgânica, que vedava a permanência no mesmo cargo na eleição imediatamente seguinte.

“Mas a mudança da regra jurídica, sozinha, não produz uma recondução. Ela apenas abre a porta. Para atravessá-la, é preciso construir maioria política.”

E é justamente aí que está o aspecto mais relevante desse processo.

Uma chapa que atravessa fronteiras partidárias

A composição divulgada para a disputa reúne Ivan Cordeiro na presidência, Edivaldo Ferreira Júnior na 1ª vice-presidência, Léia Meira na 2ª vice-presidência, Ricardo Gordo na 3ª vice-presidência, Ricardo Babão na 1ª Secretaria, Cris Rocha na 2ª Secretaria e Adinilson Pereira na 3ª Secretaria. São vereadores de diferentes legendas e trajetórias, formando uma composição politicamente plural.

Esse dado é mais importante do que parece.

Em uma Câmara formada por 23 vereadores, onde convivem situação, oposição e diferentes campos partidários, conseguir apresentar uma composição dessa natureza significa que houve negociação entre grupos distintos. Não elimina divergências políticas, tampouco significa uniformidade de pensamento. Significa, objetivamente, que foi possível encontrar um ponto de convergência para a administração interna do Legislativo.

Esse tipo de construção é particularmente relevante porque a presidência de uma Câmara não pode ser exercida como se fosse a chefia de uma bancada partidária. O presidente precisa administrar a instituição, assegurar espaço parlamentar às diferentes representações e conduzir uma Casa na qual o conflito de ideias faz parte da própria democracia.

O centro da articulação

Os próprios integrantes da chapa têm atribuído a construção desse acordo ao diálogo desenvolvido durante a atual gestão. Adinilson Pereira declarou apoio à continuidade do presidente, enquanto Léia Meira destacou o diálogo, o respeito às diferenças e a presença feminina na futura composição.

São avaliações dos próprios parlamentares envolvidos no processo e constituem manifestações públicas de apoio político, sem substituir a votação que definirá oficialmente a próxima Mesa Diretora.

O caminho começou em 2025

Também é preciso olhar para trás.

Ivan Cordeiro chegou à presidência da Câmara em janeiro de 2025. Naquela eleição, apenas uma chapa foi inscrita, e ele recebeu 15 dos 23 votos dos vereadores.

Portanto, a construção de entendimentos políticos em torno de sua presidência não começou agora.

Ao longo do biênio, a própria Câmara passou por uma ampla revisão de suas normas internas. A reforma da Lei Orgânica foi desenvolvida por comissão especial, com audiências e participação de vereadores, culminando na promulgação do novo texto em novembro de 2025. O processo recebeu aprovação unânime em seus dois turnos, segundo o ato oficial de promulgação.

Posteriormente, o Legislativo também avançou na reforma de seu Regimento Interno e em ajustes posteriores na Lei Orgânica.

Esses movimentos ajudam a compreender o ambiente institucional no qual ocorre a atual eleição da Mesa. A possibilidade de recondução não surgiu de uma simples movimentação eleitoral de última hora: ela está inserida em uma reforma mais ampla da legislação que organiza o funcionamento do município e da própria Câmara.

Construir maioria sem exigir unanimidade

Na política legislativa, consenso não significa ausência de oposição.

Uma Câmara saudável continuará tendo divergências, discursos duros, fiscalização do Executivo, disputas partidárias e votações em que vereadores estarão em lados opostos. O desafio de quem ocupa a presidência é justamente administrar essa diversidade sem transformar divergência política em ruptura institucional.

Por isso, o dado politicamente significativo da chapa anunciada está na diversidade de seus integrantes.

Ela reúne vereadores provenientes de diferentes legendas e posições políticas. Isso não significa que essas diferenças desapareceram; significa apenas que, para a organização administrativa e institucional da Câmara, esses parlamentares encontraram uma composição comum.

Nesse sentido, a movimentação em torno de Ivan Cordeiro pode ser lida como resultado de uma estratégia baseada na construção de relações dentro do próprio Legislativo. Seus apoiadores apresentam esse processo como consequência do diálogo mantido com diferentes bancadas; a votação de 2 de outubro será o momento institucional em que esse apoio será efetivamente submetido aos vereadores.

Uma recondução possível, não automática

É importante fazer essa distinção.

A nova Lei Orgânica permite a recondução. A chapa divulgada reúne nomes de diferentes partidos. Há manifestações públicas de apoio. Mas a escolha da Mesa Diretora continua dependendo da eleição prevista para 2 de outubro.

Não cabe antecipar o resultado de uma votação que ainda não aconteceu.

O que já pode ser constatado é que Ivan Cordeiro chega ao processo tendo participado da construção de uma composição que ultrapassa as fronteiras de seu próprio partido e agrega integrantes de diferentes grupos da Câmara.

E talvez esteja justamente aí a característica mais interessante dessa movimentação política: em vez de transformar a eleição interna em uma disputa exclusivamente partidária, a composição apresentada procura colocar a administração da Casa como ponto de convergência entre vereadores que continuarão discordando em inúmeras outras matérias.

“Na política legislativa, acordos dessa natureza não apagam diferenças. Apenas demonstram que diferenças podem coexistir com entendimentos institucionais.”

A eleição de outubro dirá quem comandará formalmente a Câmara no próximo biênio. Até lá, o fato político já produzido é outro: Ivan Cordeiro conseguiu reunir em torno de sua candidatura uma chapa plural, formada por representantes de diferentes partidos, criando as condições políticas para disputar a primeira recondução permitida pelas novas regras do Legislativo conquistense.


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Artigo de opinião

Por Padre Carlos