Política e Resenha
Artigo de opinião
O direito de fiscalizar não autoriza desconsiderar o preconceito que pode atravessar os ataques à liderança feminina.
Por Padre Carlos
| Política e Resenha
Rafael Nunes, chefe de gabinete do presidente da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, tem razão em um ponto essencial: prefeita, vereadora ou deputada não pode invocar a condição de mulher para se blindar de críticas respeitosas, formuladas no campo da política. A fiscalização é dever democrático. Qualquer gestora, como qualquer gestor, responde por decisões, escolhas e resultados. Negar isso seria transformar o debate público em privilégio.
Mas reconhecer esse direito não encerra a discussão. A pergunta que permanece é outra: quando a cobrança política passa a empregar critérios diferentes conforme o gênero de quem ocupa o poder? Denunciar preconceito de gênero não equivale, automaticamente, a pedir imunidade. Crítica administrativa e machismo podem coexistir. É preciso examinar o conteúdo, o contexto e os critérios utilizados — não apenas a existência formal da crítica.
“Denunciar preconceito de gênero não equivale, automaticamente, a pedir imunidade. Crítica administrativa e machismo podem coexistir.”
Da sucessão à afirmação de uma liderança
Sheila Lemos assumiu a Prefeitura de Vitória da Conquista em março de 2021, após a morte do saudoso Herzem Gusmão, vítima de complicações da Covid-19. Era a vice da chapa reeleita em 2020. Tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo na história do município. Em 2024, foi reeleita em primeiro turno com 116.488 votos, 58,83% dos válidos, a maior votação já registrada na cidade.
O Tribunal Superior Eleitoral confirmou a legitimidade de sua candidatura, afastando a tese de “terceiro mandato familiar consecutivo” que envolvia a breve substituição interina exercida por sua mãe, Irma Lemos, no final de 2020. Recorrer à Justiça é direito legítimo. Tratar a existência de ações judiciais, isoladamente, como prova de misoginia seria distorção.
Ainda assim, a persistência de resistências em aceitar o resultado e a campanha de desinformação com relação ao seu mandato após a legitimação das urnas e da Corte convidam a uma leitura política. Outro ponto importante é que a disputa pela sucessão do legado de Herzem, entre algumas lideranças, parece ter se misturado à dificuldade de aceitar a autonomia plena de uma mulher no comando.
Não se trata de atribuir motivações íntimas sem evidências. Disputa por espaço, divergência administrativa e preconceito de gênero são realidades distintas que, em determinados contextos, se sobrepõem. Um setor do grupo político pode ter se visto como herdeiro natural e resistido à consolidação de uma liderança feminina que não se subordinava permanentemente aos homens da trajetória anterior.
Parentesco e poder: a mesma medida para todos
É nesse cenário que entra a candidatura de Wagner Alves, esposo de Sheila, a deputado estadual em 2026. Rafael acerta ao observar que apoiar um cônjuge não é situação idêntica a apoiar um aliado sem vínculo familiar. Candidaturas de familiares suscitam debate legítimo sobre concentração de poder, personalismo e renovação. Esse debate, contudo, só se sustenta se aplicar critérios iguais a homens e mulheres.
Apoio eleitoral a familiar não se confunde, por si só, com nomeação administrativa ou nepotismo ilegal. Wagner Alves não é um estranho absoluto à vida pública local: advogado com mais de duas décadas de atuação, produtor rural, ex-procurador do município e da Câmara de Vereadores.
Pode-se questionar a escolha de Sheila, as alianças, o peso do parentesco. O que não se pode fazer é reduzir a capacidade de liderança da prefeita à condição de esposa.
O centro da discussão
Questionar uma escolha política é legítimo. Reduzir a liderança de uma prefeita à condição de esposa empobrece o debate.
Quando a linguagem desloca o debate
A frase “Cori não era casado com Guilherme. Gilmar não dormia com Herzem” merece atenção especial. Deslocar o debate do vínculo político e familiar para uma referência à intimidade conjugal não aprofunda a discussão sobre concentração de poder. Introduz uma insinuação que empobrece a análise e pode reforçar a desqualificação de uma liderança feminina.
A linguagem não prova, isoladamente, o caráter de quem a emprega, nem permite concluir pela configuração de crime. Mas seus efeitos políticos são reais: transforma o parentesco em suspeição permanente quando a mulher está no centro do poder, enquanto relações de aliança entre homens seguem sendo lidas como legítima construção política.
Respeito também significa reconhecer autonomia
Rafael reconhece a existência da violência política de gênero e elogia o trato pessoal de Sheila. O reconhecimento é bem-vindo. Educação pessoal, porém, não substitui reconhecimento político. Respeitar uma mulher na política também significa admitir sua autonomia, sua legitimidade e sua capacidade de decisão — inclusive a de apoiar quem considera adequado, sob o escrutínio dos mesmos critérios aplicados aos homens.
Elogiar a educação sem confrontar a assimetria de julgamento deixa a questão central intocada.
Um teste de coerência
Um teste de coerência ajuda a organizar a reflexão. A mesma conduta recebe a mesma cobrança quando praticada por um homem? A crítica apresenta fatos, decisões e consequências ou recorre a estereótipos?
O parentesco é questionado de maneira consistente em todos os grupos políticos da cidade e do estado? O resultado eleitoral dos candidatos apoiados é usado com o mesmo peso para avaliar lideranças masculinas e femininas?
A análise reconhece a autonomia de Sheila ou a subordina permanentemente às figuras de sua trajetória — Herzem, a mãe, o esposo?
Fiscalizar com rigor, julgar com igualdade
Sheila Lemos não precisa ser poupada da fiscalização. Precisa ser julgada por critérios que não mudem porque uma mulher ocupa o poder. A democracia conquistense ganha quando a crítica é rigorosa, fundamentada e igualitária. Perde quando a legítima cobrança administrativa se deixa atravessar por um filtro de gênero que desqualifica a liderança antes mesmo de examinar o mérito das decisões.
O direito de criticar é sagrado. O dever de criticar com coerência também.
Padre Carlos
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