Política e Resenha

A nacionalização da eleição chega à Bahia 

Política • Eleições 2026 • Bahia

ACM Neto pode pagar o preço

Por Padre Carlos  — Política e Resenha

A pesquisa do Instituto Real Time Big Data divulgada nesta segunda-feira (28) não é apenas mais um número. É um termômetro político que confirma o que muitos analistas já pressentiam: a nacionalização da disputa pelo Governo da Bahia chegou para valer. E ela chega carregada de risco — especialmente para ACM Neto.

Os números da pesquisa

Na pesquisa estimulada, Jerônimo Rodrigues (PT) aparece com 47% das intenções de voto, contra 43% de ACM Neto (União Brasil). Na espontânea, a vantagem do petista é ainda mais expressiva: 38% a 26%. Em um eventual segundo turno, Jerônimo vence por 48% a 44% (ou 53% a 47% nos votos válidos). Margem de erro de dois pontos. Confiança de 95%. Amostra de 1.600 entrevistas.

Jerônimo x ACM Neto em quatro cenários

Governo da Bahia • Real Time Big Data • % dos entrevistados

Jerônimo Rodrigues (PT)     ACM Neto (União Brasil)

47%
43%
38%
26%
48%
44%
53%
47%
Estimulada Espontânea 2º turno 2º turno
(votos válidos)

O que esses números revelam não é apenas uma vantagem circunstancial do governador. É o reflexo de uma estratégia deliberada — e bem-sucedida até aqui — do campo petista de colar o nome de Lula ao de Jerônimo. E, do outro lado, o reflexo de uma aposta equivocada de setores do Republicanos e do PL, que insistiram em polarizar a Bahia como se o eleitorado baiano fosse uma extensão do bolsonarismo nacional.

Não é.

— a resposta à tese de que o eleitor baiano seria uma extensão do bolsonarismo nacional

A aposta que não decolou

A base eleitoral do PL e de parte do Republicanos na Bahia é, sim, bolsonarista e de ultra-direita. Mas a Bahia não é o interior de São Paulo nem o agronegócio do Centro-Oeste. Aqui, a memória política, a força do sindicalismo, a presença histórica do PT e a rejeição a excessos de polarização funcionam de forma diferente. Tentar “nacionalizar” a eleição pelo lado da extrema direita é um erro de leitura. Neto pode perder a eleição exatamente por causa dessa forma de fazer política.

A ida de Flávio Bolsonaro à Bahia, em um momento em que setores interessados buscavam capitalizar politicamente e financeiramente com a polarização, foi um gesto de irresponsabilidade. Não se trata de julgar o direito de qualquer político circular pelo país. Trata-se de avaliar o custo político de associar a candidatura de ACM Neto a um nome que, para parcela relevante do eleitorado baiano, carrega rejeição e polarização desnecessária. O resultado está aí: a pesquisa mostra que a estratégia de “bolsonarizar” a disputa não decolou. Pelo contrário, pode ter ajudado a consolidar a narrativa petista de “Lula + Jerônimo”.

A vantagem de Jerônimo, em pontos percentuais

Diferença entre Jerônimo e ACM Neto em cada cenário • Margem de erro: 2 pontos

Espontânea
+12 p.p.
2º turno (válidos)
+6 p.p.
Estimulada
+4 p.p.
2º turno
+4 p.p.

Comprimento das barras proporcional à diferença (escala: 5 p.p. = 25% da largura).

Quem paga a conta?

Agora, na reta final, a pergunta se impõe com clareza: quem será o responsável se ACM Neto perder a eleição?

Serão os partidos que insistiram em empurrar a polarização nacional para dentro da Bahia? Serão os setores que lucraram politicamente e economicamente com a presença de Flávio? Ou será o próprio Neto, por não ter conseguido se descolar a tempo?

Ficha técnica da pesquisa

Instituto Real Time Big Data
Divulgação Segunda-feira (28)
Amostra 1.600 entrevistas
Margem de erro 2 pontos percentuais
Nível de confiança 95%

O voto “Lula-Neto” e a saída possível

A saída, se ainda houver tempo, é clara: distanciar-se dos bolsonaristas e trabalhar o eleitorado que vota em Lula, mas que, em 2026, pode considerar uma alternativa. O voto “Lula-Neto” existe. Ele não é majoritário, mas é real. E pode ser decisivo em um segundo turno apertado. Insistir na polarização de ultra-direita é entregar de bandeja a narrativa que o PT mais deseja: a de que a disputa na Bahia é entre o projeto de Lula e o projeto de Bolsonaro.

Segundo turno: votos válidos

Um segundo turno apertado, dentro de uma margem que pode ser decisiva

53% 47%
Jerônimo Rodrigues (PT) ACM Neto (União Brasil)

A pesquisa de hoje não é sentença. É aviso. A nacionalização da eleição chegou. A questão agora é quem controla o ritmo e o conteúdo dessa nacionalização. Até aqui, o PT tem controlado. E ACM Neto, se não mudar o rumo, pode acabar sendo a principal vítima de uma polarização que ele não precisava — e que setores do seu entorno insistiram em importar.

A Bahia não é laboratório de polarização nacional. Quem insistir em tratá-la como tal pode descobrir, em 2026, que o eleitor baiano cobrou o preço.

Eleições 2026BahiaACM NetoJerônimo RodriguesPesquisa eleitoralPolarização

Padre Carlos  — colunista político — Política e Resenha