Pesquisa Quaest divulgada nesta quinta-feira (24) mostra salto de nove pontos do ex-prefeito de Salvador na disputa espontânea — e escancara o pânico que já toma as fileiras do PT baiano
H
á números que não se limitam a medir opinião: eles denunciam movimento de terreno. É isso que a nova pesquisa Quaest, divulgada nesta quinta-feira (24), revela sobre a disputa ao Governo da Bahia. Em um mês, ACM Neto (União Brasil) saltou de 20% para 29% na pesquisa espontânea — nove pontos percentuais que não cabem em margem de erro, não cabem em ruído estatístico e, sobretudo, não cabem no discurso de estabilidade que o Palácio de Ondina tenta sustentar desde o início do ano eleitoral. Jerônimo Rodrigues (PT), que também cresceu, viu seu avanço ser engolido pelo ímpeto do adversário: de 23% para 27%, um ritmo visivelmente inferior ao do ex-prefeito de Salvador.
O resultado inverte, pela primeira vez neste ciclo, a lógica que a militância petista repetia como mantra: a de que o tempo jogaria a favor do governo. Os números da Quaest sugerem o oposto — o tempo, na verdade, está corroendo a vantagem que Jerônimo julgava ter como ativo garantido.
O salto na pesquisa espontânea: agosto x setembro
Na pesquisa espontânea — aquela em que o entrevistado responde sem ter os nomes apresentados em uma cartela, o retrato mais fiel do que está realmente gravado na cabeça do eleitor — a diferença de ritmo entre os dois candidatos é o dado que mais deveria preocupar o Palácio:
|
Intenção de voto espontânea — Governo da Bahia |
|||
|
|||
|
|||
|
|||
|
|||
|
Fonte: Quaest, divulgação de 24/09/2026, comparada ao levantamento de agosto/2026. |
Nove pontos em trinta dias não é oscilação de margem de erro — é tendência. E tendência, em ano eleitoral, é a palavra que mais assombra quem está no poder.
No cenário estimulado, a corrida fica ainda mais apertada
Quando os nomes dos candidatos são apresentados ao eleitor — o chamado cenário estimulado — ACM Neto também aparece à frente, com 42% contra 40% de Jerônimo. A distância de dois pontos está tecnicamente dentro da margem de erro de três pontos, mas a leitura política não pode se esconder atrás da estatística: pela primeira vez em meses, é o desafiante, e não o governador em exercício, quem ocupa a ponta.
|
Cenário estimulado — setembro/2026 |
|||
|
|||
|
|||
|
Diferença de 2 pontos, dentro da margem de erro de 3 p.p. — Fonte: Quaest, 24/09/2026. |
Quando a margem de erro passa a ser o único argumento de quem estava na frente, o verdadeiro placar já mudou de mãos — não nas urnas, mas na percepção do eleitor, que é onde toda eleição começa a ser decidida.
O que os números escondem
O crescimento de ACM Neto não nasce do vazio. Ele é sintoma de um desgaste acumulado: a avaliação do governo estadual, historicamente favorável a Jerônimo, começa a mostrar sinais de fadiga diante da percepção de insegurança, da carestia sentida no interior e de uma máquina governista que, apesar de robusta, não converte investimento em popularidade na mesma velocidade em que converte verba em obra inaugurada. Enquanto isso, o ex-prefeito de Salvador consolida a imagem de gestor eficiente que cultivou desde a capital — narrativa que, até agora contida pela rejeição histórica ao seu nome no interior baiano, parece encontrar espaço para crescer.
Para o Sudoeste da Bahia, região historicamente afastada do centro decisório de Salvador, a disputa acirrada é motivo a mais para exigir dos dois candidatos compromissos concretos — e não apenas promessas de campanha recicladas a cada quatro anos.
O nervosismo que já vazou para as redes
Antes mesmo de os números serem plenamente digeridos pelos analistas, a militância favorável a ACM Neto já comemorava nas redes sociais, em publicações eufóricas repletas de emojis com o número 44 — referência à futura chapa majoritária — e mensagens que descreviam a militância petista como tomada por “desespero” e “descontrole” diante do resultado. É natural que o entusiasmo de campanha produza esse tipo de retórica exagerada; cabe ao leitor separar o dado objetivo da pesquisa do ruído inevitável da euforia digital. O que a Quaest mostra é um cenário de disputa acirrada e reversível — não uma sentença antecipada, como qualquer estrategista experiente sabe.
Ainda assim, a movimentação nas redes é, em si, um dado político relevante: ela mede o ânimo das bases, e bases animadas votam, mobilizam e multiplicam. Se o PT baiano não reagir com uma pauta positiva própria — em vez de apenas reagir à pauta do adversário — o desgaste tende a se aprofundar nas próximas rodadas de pesquisa.
Ficha técnica
Pesquisa Quaest · 900 eleitores baianos ouvidos entre 20 e 23 de setembro de 2026 · Nível de confiança de 95% · Margem de erro de 3 pontos percentuais · Registro TSE nº BA-01850/2026 · Divulgação: 24/09/2026.
A um mês do início oficial da campanha, o que a Quaest revela é simples de nomear e difícil de administrar: a Bahia entrou, de fato, em disputa. Quem trata os próximos meses como formalidade corre o risco de repetir o erro clássico da política brasileira — confundir vantagem histórica com garantia eleitoral. A urna, como sempre, não faz distinção entre as duas coisas.
#Bahia
#ACMNeto
#JerônimoRodrigues
#PesquisaQuaest
#PolíticaBaiana
Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha




