Política e Resenha

D. Duninha e a saga de uma família:

Opinião · Memória e História

De Ponto da Serra a Vitória da Conquista, a história que não pode se perder

Quando uma família atravessa gerações carregando fé, trabalho e afeto, ela deixa de ser apenas família: torna-se patrimônio de uma comunidade inteira.

Existem histórias que não estão nos livros escolares, não ocupam placas de bronze nem batizam avenidas, e que, no entanto, sustentam a alma de uma região. São as histórias das famílias que chegaram, plantaram, rezaram, trabalharam e ensinaram os filhos a fazer o mesmo. A de D. Duninha e dos seus é uma dessas histórias. E nossa intenção é  colocá-la em destaque: o que se destaca em vida precisa ser registrado antes que o tempo, que é um editor impiedoso, comece a cortar os parágrafos.

Escrevo como quem conhece o chão de que se fala. O Sudoeste baiano e o Vale do Jiquiriçá são vizinhos de alma, ligados por estradas, por casamentos, por romarias e por uma longa corrente de gente que desceu da serra em busca de futuro sem jamais deixar a serra de dentro de si. É dessa corrente que D. Duninha é elo.

A raiz que não seca

Maria do Carmo Andrade Bomfim, a D. Duninha, nasceu na comunidade de Ponto da Serra, zona rural de São Miguel das Matas. Ali viveu por muito tempo, antes de seguir para Santo Antônio de Jesus. Casou-se com Miguel Bomfim, já falecido, e é mãe de três filhas. Dito assim, em duas linhas, parece pouco. Mas biografia de gente simples não se mede em linhas: mede-se em décadas de madrugada, de panela no fogo, de rosário na mão e de porta aberta para quem chegava.

Ponto da Serra não é só um endereço rural. É a escola primeira de valores: o valor da palavra dada, o da terra que se respeita, o da vizinhança que se ajuda sem pedir recibo. Quem nasce num lugar assim carrega uma gramática moral que nenhuma cidade grande consegue apagar.

Uma comunidade que esquece suas matriarcas começa a esquecer de si mesma. Documentar a trajetória de D. Duninha e dos seus é um ato de justiça com o passado e de generosidade com o futuro.

A fé como herança e como obra

Pesquisas sobre a história da Festa do Agricultor, em São Miguel das Matas, registram D. Duninha entre as vozes da comunidade que acompanharam o evento desde as suas primeiras edições. Ela o descreve como parte de uma vida religiosa vivida com assiduidade, tradição herdada dos próprios pais. Aí está o segredo das famílias que duram: a fé que passa de mão em mão, de geração em geração, como se passa o pão e a semente.

Festa do Agricultor, mais que festa, é liturgia da gratidão: o povo que vive da terra agradece a colheita e reconhece, diante de Deus e dos vizinhos, que ninguém prospera sozinho. Quem participa dessa tradição por décadas não é espectador da história local. É coautor.

De São Miguel a Conquista: a ponte dos miguelenses

A saga familiar não parou nas fronteiras do município de origem. A irmã de D. Duninha, Zorilda Andrade Santos, também nascida em Ponto da Serra, fixou-se em Vitória da Conquista, onde foi querida e respeitada, teve uma vida ativa em ações sociais ligadas à Igreja Católica. Tornou-se conhecida como a “Mãe do Encontro dos Miguelenses”, idealizadora, ao lado de Zita Almeida, do evento que reúne em Conquista os filhos e netos de São Miguel das Matas.

Pense-se no alcance simbólico disso. Num mundo em que a migração costuma ser sinônimo de desenraizamento, essa gente construiu o contrário: uma ponte. Fez de Conquista não o lugar do esquecimento, mas o lugar do reencontro. É assim que uma família faz história em duas cidades ao mesmo tempo: cuidando para que a segunda nunca apague a primeira, e para que a primeira se orgulhe da segunda.

Por que registrar

Porque a memória oral é frágil: morre quando morre quem a guarda.

Porque os descendentes têm o direito de saber de onde vêm, e de quem herdaram o jeito de acreditar e de trabalhar.

Porque os conterrâneos precisam de espelhos honestos, e a vida de gente de verdade é o melhor espelho.

O dever de documentar

A historiografia tradicional sempre teve pressa de contar os feitos de coronéis, governadores e doutores. As Duninhas e as Zorildas ficaram, por muito tempo, nas notas de rodapé, quando tanto. Mas a história de um povo não se faz só com decretos: faz-se com novenas, com mutirões, com mesas fartas, com cartas e com encontros. É por isso que o registro de trajetórias como esta deixou de ser gentileza e passou a ser dever.

Aos filhos, netos e bisnetos desta família fica o convite: reúnam as fotografias, anotem as datas, gravem as vozes dos mais velhos enquanto ainda é possível. Aos conterrâneos de São Miguel das Matas e de Vitória da Conquista fica a tarefa de reconhecer, em cada Duninha da sua própria rua, uma biblioteca viva que caminha.

Ficha de memória

Nome: Maria do Carmo Andrade Bomfim (D. Duninha)

Origem: Ponto da Serra, zona rural de São Miguel das Matas (BA)

Família: viúva de Miguel Bomfim; mãe de três filhas; irmã de Zorilda Andrade Santos

Marcas: fé herdada dos pais, presença na Festa do Agricultor e vínculos entre São Miguel das Matas e Vitória da Conquista

No fim das contas, escrever sobre D. Duninha é escrever sobre o que somos quando somos melhores: gente que lembra de onde veio, que cuida de quem veio junto e que deixa, para quem vem depois, um caminho já aberto. Que os historiadores  de São Miguel das Matas continue a dar nome e rosto a essa gente. E que esta saga, uma vez posta no papel, jamais volte a depender apenas da memória, por mais generosa que ela seja.

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Encontro dos Miguelenses

Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha