Política e Resenha

O Brasil diante da destruição do possível: pensar com a dialética negativa

Política e Resenha  |  Artigo de opinião  |  Outubro de 2026

Marcelo Seráfico e José Alcimar *

A história é a unidade de continuidade e descontinuidade. A sociedade não se mantém apesar de seu antagonismo, mas graças a ele; os interesses ligados ao lucro, e, com isso a relação de classes, são objetivamente o motor do processo de produção do qual depende a vida de todos, e seu primado tem o seu ponto de fuga na morte de todos. Isso também implica o elemento reconciliador no irreconciliável; na medida em que só é permitido ao homem viver, sem ele não haveria nem mesmo a possibilidade de uma vida transformada. O que criou historicamente essa possibilidade pode igualmente destruí-la.

— Theodor Adorno

A ignorantosfera e a aversão à teoria

Como parte da totalidade do mundo que abriga o pequeno e ameaçado planeta Terra, sob o domínio do destrutivo modo de produção capitalista, atualmente em sua fase mais bélica, o Brasil não está imune ao que globalmente podemos caracterizar como barbárie social e colapso ambiental, questões ostensivamente visíveis e criminosamente borradas e negadas pela direita e, com rematado deboche e escárnio, pelo discurso obscurantista e estratégico difundido pela extrema direita local e global. Algo como uma cegueira coletiva passa a ocupar e neutralizar o poder de cognição da sociedade. A ignorância é fortalecida por um processo programático de aversão à teoria. A quem tem alguma familiaridade com o pensamento filosófico é dado saber que a palavra teoria, de origem grega, inclui a ideia de visão.

Desde a segunda metade da segunda década do século XXI, agudizada no período 2019-2022, o Brasil adentrou na fase cognitiva da ignorantosfera. A agnotologia é a área do conhecimento que cuida desse estado social, não previsto por Comte em sua tipologia dos três estados. A visão se fez curta e a ignorância, na forma mais encouraçada, passou a ser celebrada com euforia social. Publicada em 1953, a obra O Assassinato de Cristo: Volume Um de A Peste Emocional da Humanidade, escrita por Wilhelm Reich, segue como uma contribuição incontornável para pensar e enfrentar o imenso vazio cognitivo da humanidade. A despeito, como afirma Reich, do que já escreveram Locke, Hume, Kant, Marx, Spengler, Freud e muitos outros grandes pensadores, a verdade é que “a imensa maioria dos homens não foi tocada pela pesquisa filosófica”. Como estamos distantes do que Santo Agostinho, na Antiguidade Cristã, imaginava como ideal da humanidade: ter na sabedoria a verdadeira medida da alma.

A encruzilhada de 2026

Neste 2026, às vésperas da eleição presidencial mais importante para a escolha dos limites e possibilidades de um Povo, num contexto econômica, política e socialmente revolvido pela globalização neoliberal, brasileiros e brasileiras se veem diante de uma decisão. Que decisão é essa?

Ela não diz respeito a uma pessoa, a um partido ou a uma ideologia, como pode ter sido em outras eleições. Ela sequer diz respeito, como há muito não diz, à escolha de um projeto de país. Mal saído do inferno que foi o período 2019-2022, o Brasil de 2023 até 2026 ainda em curso, a despeito do que foi reconstruído pelo governo Lula, não conseguiu retomar o necessário e há muito abandonado – e sem dúvida por adesão à equivocada política de conciliação de classes – projeto do Brasil-nação. Como escreve o grande pensador de nossas contradições sociais, Octavio Ianni:

“o que caracteriza a encruzilhada em que se encontra o Brasil, na transição do século XX ao XXI é o abandono e o desmonte do projeto nacional, com suas implicações político-econômicas e sócio-culturais, e a implantação de um capitalismo transnacional”.

— Octavio Ianni

Não houve desvio de rota: de província do colonialismo no século XVI chegamos à condição de província do globalismo no século XXI. O que podemos escolher nessas eleições? Trata-se pura e simplesmente da escolha da possibilidade de manutenção de padrões institucionais razoavelmente democráticos de regulação da luta de classes ou da implantação de um estado de exceção legitimado pelo voto e legalizado institucionalmente, no qual a violência da classe dominante se torna a forma fundamental de dominação para sustentar a superexploração dos que vivem do próprio trabalho. O projeto de Brasil-nação foi sequestrado da pauta política das eleições de 2026. Por falta, de um lado, de iniciativa orgânica das forças de esquerda e, de outro, com generoso financiamento da burguesia nacional e transnacional, pela ocupação do espaço político pela pauta da moralidade, da corrupção, dos bons costumes, colorida em verde e amarelo pela hipocrisia da direita e, sobretudo, da extrema direita, sob o vazio das palavras de ordem em defesa de Deus, da Pátria e da Família.

Esse é o significado das duas candidaturas com chances reais de vitória. Contrariamente ao que muitos chamam de “polarização”, aludindo ao que caracterizaria a política brasileira – e mundial – hoje, não estamos diante de nenhuma candidatura de esquerda com chances de vencer as eleições, assim como não tivemos, desde o fim da Nova República, nenhum governo de esquerda. Isso para não observar que sob a obtusa compreensão política de boa parte da direita e maior parte da extrema direita até uma corporação mediática como a Rede Globo é vista como de esquerda.

A conciliação pelo alto

Talvez se possa dizer que um partido de origem esquerdista, o PT, venceu cinco eleições. Mas há enorme diferença entre a formalidade do governo e a materialidade do poder e não se pode afirmar que nenhum de seus governos foi, de fato, orientado, predominantemente, por políticas comprometidas com mudanças estruturais da sociedade brasileira que a aproximassem de outro modo de organizar as relações de produção econômica e de dominação política. Não!

Os vice-presidentes de Lula e Dilma dizem muito sobre o sentido conciliador de seus governos. Os dois primeiros governos de Lula, entre 2003 e 2010, foram feitos ao lado de José Alencar, grande empresário mineiro filiado ao antigo Partido Liberal (algo bastante diferente do que é hoje essa agremiação); ao lado de Dilma, em seus cerca de seis anos de mandato, estava Michel Temer, do insuspeito Movimento Democrático Brasileiro, que de herdeiro da resistência à ditadura se converteu em parteiro de ditadores.

Essa política de “conciliação pelo alto”, como cunhou Florestan Fernandes, redundou em compromissos formal e objetivamente assumidos, como foram a Carta ao Povo Brasileiro e a manutenção das orientações relativas ao ajuste estrutural determinadas pelo Banco Mundial e pelo FMI. Além do tripé macroeconômico – superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante –, os governos de conciliação pelo alto mantiveram as políticas de desestatização, através das concessões e privatizações, da contrarreforma previdenciária, das políticas focais (isto é, dirigidas a grupos específicos da sociedade brasileira em oposição às políticas universalistas), das políticas educacionais de mercado e do beneficiamento do agronegócio e das finanças na definição das políticas de financiamento e gasto público – o que implica a destinação orçamentária.

Cabe lembrar que boa parte dessas políticas é de definição do legislativo; ou seja, a ele também coube a iniciativa ou a concordância com projetos de lei e medidas provisórias que atendiam a tais demandas. Também é preciso mencionar que outras tantas propostas, que feriam ou fugiam às determinações da Constituição de 1988, foram acolhidas pelo Supremo Tribunal Federal, como as relativas à própria Previdência, às relações de trabalho e às privatizações. O fato é que desde seu primeiro governo, Lula e o PT se afastaram dos ideais que, quando da fundação do Partido, em 1980, o identificavam como um partido “de esquerda”.

Do golpe ao neofascismo

Esse afastamento se deu num contexto de aprofundamento da crise capitalista em escala mundial e de avanço da financeirização da economia apoiada nas tecnologias de informação e comunicação, que a partir dos anos 2010 se converteriam no centro nevrálgico da política. Lula deixou seu segundo mandato consagrado pelo eleitorado e pela comunidade internacional. Não à toa, foi importante agente político na eleição de sua Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, reeleita em 2014, mesmo depois de enfrentar fortes movimentos populares que reivindicavam políticas que levassem à melhoria das condições de vida da maioria da sociedade (educação, saúde, saneamento, transporte etc.). As assim chamadas Jornadas de Junho de 2013 não foram compreendidas pelo governo como parte das reivindicações que deram origem ao próprio partido. Ao contrário, foram interpretadas como provenientes de opositores ao governo cujo fim era desestabilizá-lo.

A surdez para as ruas levou a atenção do governo para os agentes do mercado e, para atendê-los, a políticas fiscalistas de maior arrocho ainda para a classe trabalhadora. O isolamento político de Dilma culminou com um golpe legislativo e judiciário, a que muitos chamam de impeachment. Com Dilma ainda à frente do governo, teve início uma luta que articulava internacionalmente o Estado norte-americano e sua alta burguesia, combinados à alta burguesia de origem nacional brasileira, à grande imprensa tradicional e a frações dos poderes judiciário e legislativo, todos amalgamados na Operação Lava-Jato.

Golpeado o governo de Dilma Roussef, o desafio posto para essas forças políticas era evitar descontinuidade e, se possível, aprofundar a tragédia da Ponte para o Futuro erguida por Michel Temer, com seu teto de gastos que engessava o investimento e o gasto público por vinte anos. Deu-se o segundo golpe: Luis Inácio Lula da Silva, cuja nomeação para o ministério de Dilma fora proibida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, foi condenado em primeira instância e preso. O processo e a prisão do ex-Presidente nada tinham a ver com a justificativa da Operação da Polícia Federal. O vazamento das mensagens trocadas entre Sérgio Moro, juiz que o condenou, e Deltan Dallagnol, promotor que chefiou a acusação, revelaram um conluio envolvendo ambos, além da grande imprensa que os apoiou irrestritamente e o Departamento de Estado norte-americano.

O objetivo principal da Operação foi alcançado: preso, Lula foi impedido de concorrer às eleições e com isso abriu-se espaço para uma vitória eleitoral de candidato mais à direita do espectro político. Contudo, o feitiço fugiu ao controle dos feiticeiros. A militância política contra a política repetida diuturnamente nos canais abertos de TV, nas rádios e também nas redes sociais, criou o ambiente propício para o surgimento de um candidato que se travestia da indignação generalizada, representando-a sob a forma de um discurso de inspiração neofascista, num contexto político e econômico que se assemelhava ao fascismo apenas pelo fato de ser o de uma crise capitalista.

Jair Bolsonaro foi eleito e governou, se assim se pode dizer, sob o signo da destruição. Seu governo acelerou algo anunciado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, a liquidação da era Vargas. Os efeitos dessa destruição foram tão profundos que, candidato à reeleição, o ex-presidente foi o primeiro a não se reeleger estando no exercício do mandato. Diante da possibilidade do fracasso eleitoral, vislumbrada desde o primeiro dia de mandato, Jair Bolsonaro despendeu a maior parte de seus esforços retóricos e políticos com a desqualificação das instituições da república (por ele governada) e com a conspiração para um golpe de Estado. O golpe foi evitado, mas os poderes da república, já frágeis, foram ainda mais abalados por sua ação.

Na mobilização popular com vistas a pressionar as forças armadas a aderirem ao golpe desejado, várias cenas chocantes de dissonância cognitiva explícita ganharam a praça pública. Uma delas, icônica, a manifestar o apogeu do negacionismo, foi a de pessoas organizadas em volta de um pneu para o qual rezavam, a implorar uma intervenção de forças sobrenaturais. Hoje, quase quatro anos após o registro daquelas cenas, estamos às vésperas de uma nova eleição presidencial. O que vemos? O que percebemos é que muitas das pessoas que rezavam para pneu em praça pública ainda o fazem em seus altares privados. O simples fato de uma pessoa como Flávio Bolsonaro ter a possibilidade de concorrer ao cargo de Presidente da República com alguma chance de ganhar, diz muito sobre aquilo em que foi transformada a política, como a conhecíamos, e as eleições.

A Grande Pátria da soberania reversa

Nos EUA, Trump foi reeleito, mas depois de ter perdido uma eleição. Aqui, Bolsonaro, o Jair, perdeu, foi processado e preso, o que o impediu de concorrer. Designou seu filho como herdeiro do espólio eleitoral e o 01, apesar de uma ficha corrida que passeia pelo código penal, pode ir ao segundo turno das eleições com chances de vencê-las. O que isso prova? Pergunta que nos fazemos. A resposta mais direta a que conseguimos chegar é que para uma boa parte da sociedade, a selva capitalista nua e crua, sem anteparos, é mais honesta do que as tentativas de remediar um ou outro efeito da superexploração.

O que talvez não se tenha entendido é que o fim dos anteparos, por menores que sejam, é igual a uma combinação perversa e brutal de superexploração com superdominação de classe. Flávio é a face visível dos senhores das Big Techs, de Wall Street e do agro. Eles são a encarnação perfeita do espírito do capitalismo, a aparência como simulacro da essência, ambos constituindo o todo. Dos hábitos de consumo sofisticados à moral, são o oposto do que dizem e do que se vê. Logo, há um número expressivo de pessoas entregando suas vidas e desejando entregar a de todos a embusteiros, sacripantas, em suma, ao capital em forma de gente. A questão não é moral e o mal que ameaça o cotidiano da vida do povo brasileiro é de gênese política, não metafísica.

O que nos causa temor e tremor é, a depender do resultado dessas eleições, a possibilidade real de o Brasil se converter num quintal da geopolítica imperialista do Império do Norte, mais como escárnio do que tragédia e farsa, porque sob gritos de conteúdo religioso e moral, e sob bandeiras da defesa ideológica de Deus, da Pátria e da Família. Seremos a Grande Pátria da soberania reversa.

* Professores da Universidade Federal do Amazonas: Marcelo Seráfico, do Curso de Ciências Sociais. José Alcimar, do Curso de Filosofia. Ambos apostam no iluminismo e trabalham em defesa da ampliação do espaço público da razão. Outubro de 2026.

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Marcelo Seráfico e José Alcimar — Professores da Universidade Federal do Amazonas — Política e Resenha