Há resultados eleitorais que precisam ser lidos para além da simples soma de votos. E o resultado deste domingo, em Vitória da Conquista, talvez seja um dos casos mais interessantes da política baiana.
Wagner Alves não conseguiu se eleger deputado estadual. Mas transformar isso em uma derrota de Sheila Lemos é interpretar a eleição pela lente errada.
A grande vencedora política desta eleição, em Vitória da Conquista, é justamente Sheila Lemos.
E há uma razão simples para isso: Wagner Alves não perdeu a eleição política que realmente estava sendo disputada pelo grupo da prefeita. Quem perdeu foi Waldenor Pereira.
Waldenor, que buscava a renovação do mandato de deputado federal, não conseguiu se reeleger para a Câmara dos Deputados. Na Bahia, terminou fora das vagas, com pouco mais de 94 mil votos, segundo a apuração divulgada.
Wagner, por sua vez, terminou a eleição sem a cadeira na Assembleia Legislativa, mas saiu dela com algo que, para a política de Conquista, pode ser ainda mais importante: uma demonstração concreta da força eleitoral do grupo de Sheila.
Wagner não se elegeu, mas foi o deputado estadual mais votado dentro de Conquista.
Waldenor perdeu o mandato federal que tentava renovar.
A derrota de Waldenor não começou neste domingo
O mais importante é compreender que a derrota de Waldenor não nasceu na urna deste domingo.
Ela começou a ser desenhada há dois anos.
Em 2024, Waldenor entrou na disputa pela Prefeitura de Vitória da Conquista como um dos nomes mais tradicionais da política local. Tinha história, mandato federal, estrutura partidária e uma trajetória consolidada.
Do outro lado estava Sheila Lemos.
E o resultado foi contundente: 116.488 votos para Sheila, contra 52.947 para Waldenor. A prefeita alcançou 58,83% dos votos válidos.
| Sheila: 58,83% | Demais candidatos (inclui Waldenor): 41,17% |
Aquilo não foi apenas uma vitória eleitoral.
Foi uma mudança na correlação de forças.
Sheila derrotou Waldenor pessoalmente.
Agora, em 2026, ele retorna ao eleitorado tentando preservar seu espaço político e, sobretudo, renovar o mandato federal.
Não conseguiu.
É preciso reconhecer a dimensão disso: Waldenor havia sido deputado federal eleito por quatro eleições consecutivas, desde 2010, e também foi eleito em 2022. Em 2026, entretanto, não repetiu o feito.
| 2010–2022 Deputado federal eleito por quatro eleições consecutivas e, de novo, em 2022. |
2024 Disputa a Prefeitura e perde para Sheila: 52.947 votos contra 116.488. |
2026 Fica fora das vagas na Bahia, com pouco mais de 94 mil votos. |
A derrota deste domingo, portanto, não é um acidente eleitoral.
É a segunda etapa de um processo iniciado em 2024.
E onde entra Wagner Alves?
É aqui que a análise política fica mais interessante.
Wagner Alves nunca havia disputado uma eleição para deputado estadual. Era, portanto, um estreante em uma eleição proporcional estadual.
Entrou na disputa enfrentando nomes tradicionais da política baiana, inclusive deputados que já tinham mandato e bases eleitorais consolidadas.
Mesmo assim, em Vitória da Conquista, Wagner foi o deputado estadual mais votado, alcançando aproximadamente 33,3 mil votos e 17,3% dos votos válidos no município, segundo os números apresentados na apuração. Waldenor, na disputa para deputado federal, ficou praticamente no mesmo patamar dentro da cidade, com cerca de 33 mil votos.
Esse dado é extraordinariamente simbólico.
Porque Wagner não conseguiu a cadeira na ALBA.
Mas conseguiu mostrar que existe um eleitorado disposto a votar no projeto político de Sheila Lemos mesmo quando ela não é a candidata.
E isso é uma coisa completamente diferente de uma derrota.
Wagner não perdeu. O projeto de Sheila ganhou
É preciso separar duas coisas.
Resultado eleitoral e resultado político não são necessariamente a mesma coisa.
Wagner não alcançou a vaga porque eleição proporcional não depende exclusivamente da votação individual. A distribuição das cadeiras leva em conta também o desempenho dos partidos e das federações.
Portanto, dizer que Wagner foi derrotado simplesmente porque não assumirá uma cadeira na Assembleia é uma leitura superficial.
Ele conseguiu algo que poucos candidatos estreantes conseguem: tornou-se um nome eleitoralmente competitivo em uma das maiores cidades da Bahia.
E fez isso carregando uma marca política muito clara: o grupo de Sheila Lemos.
A candidatura foi lançada pela própria prefeita, e a decisão de colocar Wagner na disputa chegou a provocar reações de outros grupos que pretendiam contar com o apoio de Sheila.
Ou seja: a eleição de Wagner foi, desde o começo, também um teste sobre a capacidade de Sheila transferir sua força eleitoral.
E o teste foi aprovado.
Sheila não estava na urna — mas estava no resultado
“Sheila não estava na urna, mas estava no resultado.”
Essa talvez seja a frase que melhor resume a eleição.
Em 2024, o eleitor votou diretamente nela.
Em 2026, o eleitor poderia simplesmente ter rejeitado seu indicado.
Não rejeitou.
Ao contrário: Wagner terminou como o nome mais votado para deputado estadual em Vitória da Conquista, à frente de figuras tradicionais da política local.
Isso não significa que todos os votos de Wagner sejam automaticamente votos pessoais de Sheila. Seria intelectualmente desonesto fazer essa conta.
Mas também seria desonesto ignorar o óbvio: Wagner é o marido da prefeita, foi lançado por ela e fez campanha como integrante do grupo político que governa a cidade.
Logo, sua votação é, sim, um indicador relevante da força desse grupo.
Enquanto isso, Waldenor perdeu justamente o mandato que queria preservar
A ironia da eleição é poderosa.
De um lado, um estreante apoiado pela prefeita não consegue a cadeira que buscava, mas demonstra uma votação expressiva e se coloca no mapa político estadual.
Do outro, um político experiente, ex-deputado federal e ex-candidato a prefeito, perde o mandato que tentava renovar.
É impossível olhar para esse cenário e concluir que o grande derrotado foi Sheila.
A realidade é outra.
Sheila derrotou Waldenor em 2024.
Dois anos depois, seu grupo coloca Wagner entre os nomes mais votados para deputado estadual em Conquista.
E, simultaneamente, Waldenor não consegue retornar à Câmara Federal.
É uma sequência política difícil de ignorar.
| Ator | 2024 | 2026 | Saldo político |
| Sheila Lemos | Eleita com 58,83% (116.488 votos) | Grupo mostra força sem o nome dela na urna | Ganhou |
| Wagner Alves | — | Mais votado para dep. estadual em Conquista (~33,3 mil; 17,3%); sem cadeira | Sem cadeira, com capital político |
| Waldenor Pereira | Derrotado: 52.947 votos | Fora das vagas na Bahia (~94 mil votos) | Perdeu o mandato |
A maior cabo eleitoral de Conquista?
Talvez seja cedo para decretar que Sheila é definitivamente a maior cabo eleitoral da história recente de Vitória da Conquista.
Mas é perfeitamente legítimo afirmar que ela demonstrou novamente possuir uma força eleitoral extraordinária na cidade.
E isso ganha ainda mais peso porque Sheila não é uma liderança que vive apenas da própria votação.
Ela começa a demonstrar capacidade de transferir capital político para outras candidaturas.
Esse é o verdadeiro teste de uma liderança.
Líderes políticos são medidos também pela quantidade de votos que conseguem produzir quando seu nome não está na urna.
E Sheila acaba de passar por esse teste.
A eleição que parecia ser sobre Wagner terminou falando sobre Sheila
Talvez esse seja o grande paradoxo desta eleição.
Todos queriam saber: “Wagner Alves será eleito?”
A pergunta mais importante, porém, era outra: “Quanto da força de Sheila Lemos consegue sobreviver quando ela não é candidata?”
A resposta veio das urnas.
Muito.
Wagner não conquistou a cadeira na ALBA. Mas alcançou uma votação expressiva em Conquista e terminou à frente de nomes tradicionais na disputa local. E, sobretudo, o grupo político da prefeita voltou a mostrar musculatura eleitoral.
Já Waldenor, que entrou na eleição buscando justamente mostrar que a derrota de 2024 havia sido apenas um episódio, terminou sem a renovação do mandato federal.
É por isso que a leitura correta desta eleição não é: “Wagner perdeu.”
A leitura política é: “Wagner não se elegeu, mas Sheila venceu o teste.”
E existe uma diferença enorme entre as duas frases.
Porque cadeira se conquista em uma eleição. Força política se constrói ao longo de várias.
Sheila venceu em 2024.
Wagner mostrou força em 2026.
Waldenor perdeu o mandato.
E, olhando para a sucessão de acontecimentos, uma conclusão começa a se impor no cenário político conquistense:
Sheila Lemos continua sendo uma força que seus adversários terão de enfrentar — esteja ou não seu nome escrito na urna.
E talvez esse seja o resultado mais importante de todos.
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