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Bahia em chamas
AtlasIntel e Paraná Pesquisas apontam líderes diferentes para o governo, mas coincidem num ponto: a disputa está aberta.
Aeleição na Bahia entrou definitivamente naquela fase em que qualquer pesquisa pode produzir um terremoto político.
E desta vez o terremoto veio em dose dupla.
De um lado, a AtlasIntel coloca Jerônimo Rodrigues numericamente na frente. Do outro, a Paraná Pesquisas coloca ACM Neto na liderança numérica do primeiro turno.
E o mais impressionante: as duas pesquisas, apesar de apresentarem resultados diferentes, contam a mesma história fundamental — a eleição para o Governo da Bahia está aberta.
Não existe, neste momento, espaço para comemoração antecipada. Não existe vitória garantida. E muito menos existe espaço para quem acredita que a eleição já está decidida.
O primeiro grande sinal: a Bahia está dividida
Na pesquisa AtlasIntel, realizada entre 27 de setembro e 2 de outubro com 2.199 eleitores e margem de erro de dois pontos percentuais, Jerônimo Rodrigues aparece com 51,5% dos votos válidos, contra 47,4% de ACM Neto.
É uma vantagem de 4,1 pontos. Mas há um detalhe fundamental: a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Portanto, estatisticamente, não estamos diante de uma fotografia que permita decretar o vencedor.
| Governo da Bahia — AtlasIntel (votos válidos) | ||
| Jerônimo Rodrigues | 51,5% | |
| ACM Neto | 47,4% | |
Pesquisa de 27/09 a 02/10/2026 • 2.199 entrevistados • margem de erro de ±2 p.p.
E então entra em cena a Paraná Pesquisas. O instituto, que realizou entrevistas presenciais com 1.400 eleitores em 63 municípios entre 29 de setembro e 2 de outubro, encontrou outro retrato: ACM Neto aparece com 46,4%, contra 44,6% de Jerônimo.
Diferença? Apenas 1,8 ponto. Com margem de erro de 2,7 pontos percentuais, isso significa empate técnico.
| Governo da Bahia — Paraná Pesquisas (1º turno) | ||
| ACM Neto | 46,4% | |
| Jerônimo Rodrigues | 44,6% | |
Pesquisa de 29/09 a 02/10/2026 • 1.400 eleitores em 63 municípios • margem de erro de ±2,7 p.p.
E aqui está o ponto que considero mais importante para o leitor do Política e Resenha:
| A diferença entre as pesquisas é menos importante do que aquilo em que elas coincidem. Elas coincidem em mostrar uma eleição extremamente competitiva. |
O segundo turno pode ser ainda mais imprevisível
Se houver segundo turno entre Jerônimo e ACM Neto, a AtlasIntel coloca o governador com 52,1% dos votos válidos contra 47,9% do adversário. Na Paraná Pesquisas, o cenário se inverte numericamente: ACM Neto aparece com 47,9% contra 46,3% de Jerônimo.
Ou seja: Atlas, Jerônimo na frente. Paraná, ACM Neto na frente. É difícil encontrar demonstração mais clara de uma eleição em aberto.
E isso revela algo politicamente muito importante: pequenas mudanças no comportamento do eleitor podem alterar completamente a fotografia eleitoral. Não é uma eleição para amadores. É uma eleição em que cada voto pode pesar.
Senado: aqui o fogo é ainda mais alto
Se alguém imaginava que a eleição para o Senado seria tranquila, a pesquisa AtlasIntel manda um recado completamente diferente. Rui Costa aparece com 27,3% dos votos válidos. Jaques Wagner vem com 24,6%. Ângelo Coronel registra 21,9%. João Roma aparece com 21,2%.
| Senado — duas vagas • AtlasIntel (votos válidos) | ||
| Rui Costa | 27,3% | |
| Jaques Wagner | 24,6% | |
| Ângelo Coronel | 21,9% | |
| João Roma | 21,2% | |
AtlasIntel • votos válidos • números publicados em 03/10/2026
Do primeiro ao quarto colocado, a diferença é de apenas 6,1 pontos percentuais. Mas existe uma particularidade que muita gente pode esquecer: são duas vagas. O eleitor baiano poderá escolher dois candidatos ao Senado, o que transforma a disputa numa verdadeira engenharia eleitoral.
Rui Costa está na frente. Wagner está logo atrás. Ângelo Coronel está muito próximo. João Roma está praticamente colado. Qualquer alteração de poucos pontos pode modificar completamente a composição da bancada baiana no Senado Federal. É uma das disputas que merecem ser acompanhadas até a última urna.
E quem seria o presidente do Brasil se só a Bahia votasse?
Aqui a fotografia muda completamente. Se a eleição presidencial dependesse exclusivamente dos eleitores da Bahia, Lula seria amplamente favorito. Na pesquisa AtlasIntel, Lula aparece com 59,1%, contra 29,2% de Flávio Bolsonaro — uma diferença de quase 30 pontos percentuais. Ronaldo Caiado aparece com 3,9%; Augusto Cury, 3%; Renan Santos, 1,9%. Os demais candidatos têm participação residual.
Enquanto a eleição presidencial brasileira aparece muito mais apertada em levantamentos nacionais recentes, a Bahia continua sendo um dos mais fortes redutos eleitorais de Lula.
No segundo turno presidencial, a diferença continua enorme
A AtlasIntel perguntou ao eleitor baiano sobre um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Resultado: Lula, 61,6%; Flávio Bolsonaro, 34,3%; brancos e nulos, 2,6%; indecisos, 1,5%. Nos votos válidos, Lula chegaria a 64,6%, contra 35,4% de Flávio.
Pelo retrato da AtlasIntel, a Bahia continuaria entregando uma vantagem muito expressiva a Lula numa disputa direta.
Lula tem uma carta que Jerônimo não tem
Talvez aqui esteja uma das partes mais interessantes de toda a pesquisa. Lula tem, na Bahia, 59% de aprovação. Jerônimo Rodrigues aparece com 51%. A diferença é de oito pontos percentuais.
Isso ajuda a entender uma questão política que pode ser decisiva: o eleitor pode gostar de Lula e, ao mesmo tempo, estar muito mais dividido em relação ao governo estadual. É exatamente nesse espaço que a disputa pelo governo pode acontecer.
A aprovação de Jerônimo não é ruim. Mas também não é capaz de produzir uma sensação inequívoca de continuidade. Segundo a AtlasIntel, 51% aprovam o desempenho do governador e 45% desaprovam. A avaliação qualitativa também mostra uma divisão relevante: 36% classificam a gestão como ótima ou boa, enquanto 42% a consideram ruim ou péssima.
A imagem dos grandes líderes conta uma história
| Imagem positiva na Bahia — AtlasIntel | ||
| Lula | 61% | |
| Rui Costa | 54% | |
| Jerônimo Rodrigues | 51% | |
| ACM Neto | 51% | |
| Jaques Wagner | 46% | |
| Otto Alencar | 45% | |
AtlasIntel • percentual de imagem positiva
O dado mostra uma coisa curiosa: a disputa estadual não acontece num ambiente de rejeição absoluta a nenhum dos dois principais candidatos. Jerônimo e ACM Neto aparecem praticamente empatados em imagem positiva.
Isso significa que a eleição pode depender menos da simples popularidade pessoal e mais de fatores como avaliação de governo, segurança pública, economia, serviços públicos, rejeição, alianças e capacidade de mobilização eleitoral.
E aqui entra a segurança pública
Não há como analisar a Bahia de 2026 sem falar de segurança pública. Esse é um dos temas que mais podem influenciar o eleitor. A sensação de insegurança, os índices de violência, a presença do crime organizado e o impacto disso sobre cidades turísticas e economicamente importantes podem transformar uma eleição.
Mas aqui faço uma ressalva jornalística: não se deve transformar estatística criminal em argumento eleitoral automático. Segurança pública é um problema real e complexo. E justamente por isso precisa ser discutida com números, políticas públicas e resultados — e não apenas com vídeos de impacto nas redes sociais.
A grande contradição da eleição baiana
| A Bahia pode votar em Lula e, ao mesmo tempo, decidir mudar o governador. |
Esse é o fenômeno que precisa ser observado. O eleitor não necessariamente vota em pacote. Ele pode votar em Lula para presidente e em um candidato diferente para governador. Pode votar em dois candidatos de partidos diferentes para o Senado. Pode misturar escolhas.
E é exatamente por isso que qualquer tentativa de transformar a eleição numa simples disputa entre “esquerda contra direita” pode esconder uma realidade muito mais sofisticada.
O que o Política e Resenha está fazendo aqui?
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Nossa missão nesta eleição O Política e Resenha não nasceu para ser torcida organizada de candidato. Nasceu para acompanhar a política, interpretar os números e tentar entender o eleitor. Vamos acompanhar as pesquisas, confrontar institutos, observar tendências, separar fato de narrativa e ajudar o leitor a enxergar aquilo que muitas vezes desaparece no barulho das redes sociais. Não queremos simplesmente perguntar “quem está ganhando?”. Queremos perguntar por que está ganhando — e o que pode fazer essa fotografia mudar. |
Essa é a diferença entre consumir política e compreender política.
O veredito das pesquisas
| Governo da Bahia | Eleição aberta e tecnicamente indefinida. |
| AtlasIntel | Vantagem de Jerônimo. |
| Paraná Pesquisas | Vantagem numérica de ACM Neto no primeiro turno, mas empate técnico. |
| Segundo turno | Empate técnico nas duas pesquisas, com vantagem alternada conforme o instituto. |
| Senado | Disputa emboladíssima entre Rui Costa, Jaques Wagner, Ângelo Coronel e João Roma. |
| Presidência na Bahia | Lula domina com ampla vantagem. |
| Avaliação | Lula tem aprovação superior à de Jerônimo. |
| Conclusão | A Bahia pode produzir resultados diferentes para presidente, governador e Senado. |
E agora, a pergunta que fica
A pesquisa pode estar mostrando um empate. Mas a eleição real ainda será decidida pelo eleitor. E é por isso que, neste momento, talvez a pergunta mais importante da Bahia não seja “quem está ganhando?”.
Talvez seja: quem ainda consegue convencer os indecisos, mobilizar os seus e transformar intenção de voto em voto depositado na urna?
É aí que mora a eleição. É aí que mora a surpresa. E é aí que o Política e Resenha estará, acompanhando cada movimento.
Porque política não se faz apenas com torcida. Política se faz com informação. E informação muda tudo.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha



