Câmara Municipal • Vitória da Conquista
Por Padre Carlos
Quem não se lembra daquele primeiro de janeiro de 2025? Na cerimônia de posse dos 23 vereadores de Vitória da Conquista, Ivan Cordeiro assumia a Presidência da Câmara Municipal com 15 votos. Tinha a maioria necessária para vencer, mas ainda havia confiança a conquistar. Naquele dia, diante dos colegas, fez uma promessa cujo valor somente o exercício do cargo poderia demonstrar: conduzir uma gestão compartilhada, ouvir as duas bancadas e democratizar as decisões do Legislativo.
Prometer diálogo em um discurso de posse é relativamente fácil. Praticá-lo quando surgem as divergências, quando o debate esquenta e quando a crítica vem de quem não apoiou sua eleição exige outra estatura.
É justamente nesse intervalo entre a palavra e a prática que uma liderança revela quem é.
A resposta do plenário
Nesta sexta-feira, 2 de outubro, o plenário ofereceu sua resposta. Ivan foi reeleito presidente para o biênio 2027–2028 com os 23 votos possíveis. A unanimidade reuniu vereadores de diferentes partidos, incluindo a oposição. O homem que começou com o apoio de uma parte da Casa recebeu, desta vez, a confiança de todos os seus integrantes.
Entre os 15 votos de ontem e os 23 de hoje existe uma história política que merece ser reconhecida.
Entre uma eleição e outra
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15 votos na posse, em 1º de janeiro de 2025 |
23 votos na reeleição para o biênio 2027–2028, em 2 de outubro |
Ivan recebeu 15 votos para começar. Conquistou 23 para continuar.
Minha leitura é que esse resultado representa mais do que habilidade para organizar uma chapa. Expressa o reconhecimento de uma maneira de exercer a Presidência. Afinal, os vereadores que votaram conhecem o cotidiano da instituição. Participam das sessões, enfrentam os impasses, apresentam suas demandas e experimentam, na prática, o tratamento dispensado por quem dirige os trabalhos.
Como tratar quem não votou
Há um testemunho particularmente revelador. Nos dias que antecederam a eleição, Márcio de Vivi afirmou que não havia votado em Ivan na escolha anterior e que, mesmo assim, jamais fora tratado de maneira diferente. Outros parlamentares também destacaram a escuta, o respeito e a construção coletiva na condução da Câmara.
Esse é um dos testes mais importantes para quem assume uma função institucional: como tratar aquele cujo voto não veio?
A resposta define o tamanho da liderança.
Quem ocupa a Presidência de uma Câmara precisa compreender que sua responsabilidade alcança cada cadeira do plenário. O direito à palavra, o respeito ao mandato e a participação nas decisões pertencem igualmente a todos. Quando essa compreensão orienta a gestão, a confiança encontra espaço para crescer.
Ivan tem partido, trajetória e convicções. Seus colegas também. O mérito do entendimento construído está precisamente na capacidade de reunir essas diferenças em torno da administração da Casa. Ninguém precisa abandonar suas ideias para reconhecer a competência de um adversário na condução de uma instituição.
Em tempos de tanta hostilidade na política, essa disposição tem valor. É possível discordar na tribuna, disputar projetos e cobrar posições, preservando o respeito pessoal e institucional. Uma Câmara plural precisa desse ambiente para cumprir suas funções.
A unanimidade e o compromisso
A unanimidade, evidentemente, não encerra as divergências nem oferece um certificado de perfeição. Ela renova a responsabilidade de quem a recebeu. Os mesmos vereadores que confiaram seus votos ao presidente continuam com o dever de fiscalizar, questionar e defender suas posições. Um consenso amadurecido comporta a crítica.
Por isso, o resultado desta sexta-feira deve ser celebrado também como compromisso para o futuro. Quanto maior a confiança, maior a obrigação de corresponder a ela.
A recondução traz ainda uma marca histórica: após a mudança nas regras municipais, Ivan se torna o primeiro presidente da Câmara conquistense reeleito para comandar os dois biênios de uma mesma legislatura. A novidade ficará registrada na história da instituição. Seu significado mais duradouro, porém, dependerá da continuidade do trabalho que tornou possível chegar até aqui.
Vitória da Conquista precisa de um Legislativo capaz de debater com firmeza, fiscalizar com independência e construir soluções para os problemas da população. O entendimento entre os vereadores ganha sentido público quando melhora esse trabalho e aproxima a Câmara da cidade.
Uma lição da caminhada
Ao olhar para aquele primeiro de janeiro, a cena agora adquire outra dimensão. Um presidente eleito com 15 votos anunciou que ouviria a todos. Antes mesmo de encerrar o primeiro biênio, recebeu de todo o plenário a oportunidade de continuar.
Há uma lição nessa caminhada: a confiança se amplia quando o respeito alcança também quem começou do outro lado.
Ivan recebeu 15 votos para começar. Conquistou 23 para continuar. Entre uma eleição e outra, sua maior vitória foi dar à promessa de diálogo a força de uma prática reconhecida pelos próprios colegas.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




