Por Padre Carlos | Artigo de opinião — Política e Resenha
Uma imagem religiosa destruída deixa mais do que fragmentos pelo chão. Deixa uma comunidade ferida, uma memória atingida e uma pergunta que deveria inquietar o país inteiro: até onde estamos permitindo que avance a intolerância? Quando alguém invade um espaço sagrado para destruir aquilo que o outro reverencia, a violência ultrapassa o objeto. Ela transmite uma mensagem de expulsão: sua fé não deveria existir aqui.
Em 30 de setembro de 2026, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o encaminhamento de episódios de ataques religiosos à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República, requisitando a instauração de inquérito. A decisão relaciona ocorrências envolvendo símbolos católicos e espaços de religiões de matriz africana. Trata-se de uma determinação para investigar indícios, estabelecer responsabilidades e esclarecer circunstâncias. Não de uma conclusão antecipada sobre autores ou motivações comuns.
Os episódios mencionados impressionam pela dispersão geográfica. Há registros de destruição de imagens de Nossa Senhora das Graças e Santa Dulce dos Pobres em Salvador; ataques a objetos religiosos em Londrina e na Catedral de São Pedro, em Rio Grande; vandalismo em Maceió; invasão de terreiro em Esmeraldas; além de ocorrências envolvendo uma imagem de Aparecida em Mato Grosso, um assentamento de Exu na Bahia e uma imagem incendiada no Pará. Entre os possíveis crimes apontados estão preconceito religioso, ultraje a culto, dano, furto e incêndio.
“Que ambiente estamos construindo quando a linguagem religiosa passa a servir à desqualificação de quem pensa, vota ou acredita de outra maneira?”
Cada caso exige apuração própria. Mas o conjunto impõe uma reflexão pública que não pode esperar pelo encerramento dos inquéritos: que ambiente estamos construindo quando a linguagem religiosa passa a servir à desqualificação de quem pensa, vota ou acredita de outra maneira?
Fé, política e a fronteira democrática
É nesse ponto que os discursos de Michelle Bolsonaro e o horizonte de um eventual governo de Flávio Bolsonaro precisam ser examinados com seriedade.
Em fevereiro de 2024, durante o ato bolsonarista na avenida Paulista, Michelle associou o afastamento dos cristãos da política à ocupação desse espaço pelo mal. Afirmou que “o Brasil é do Senhor” e anunciou um momento de libertação. Especialistas ouvidos pela Folha interpretaram a intervenção como expressão de uma pretensão de supremacia cristã conservadora, com consequências para a laicidade e a diversidade religiosa. Essa é uma interpretação crítica documentada, que deve ser discutida à luz do conteúdo do discurso.
O problema político dessa linguagem está na fronteira que ela desenha. Se um campo eleitoral representa o bem e o outro encarna o mal, a divergência deixa de ser uma disputa entre cidadãos igualmente legítimos. Passa a adquirir o sentido de combate contra uma ameaça espiritual.
Uma democracia precisa permitir alternância, negociação e crítica. Uma guerra santa exige vitória sobre o inimigo. Confundir essas duas lógicas pode tornar a convivência cada vez mais difícil.
Teologia do Domínio e projeto de poder
A chamada Teologia do Domínio ajuda a compreender parte desse debate. Em texto publicado pelo Congresso em Foco em 2022, Rudolfo Lago apresentou a estratégia dos Sete Montes, que propõe alcançar áreas como família, religião, educação, mídia, lazer, negócios e governo. A análise relacionava a atuação de Michelle à mobilização de setores religiosos em torno da campanha de Jair Bolsonaro. É uma leitura sobre determinadas correntes e estratégias, não uma descrição de todos os evangélicos.
Participar da política é um direito de qualquer pessoa religiosa. O ponto de ruptura surge quando alguém pretende converter uma interpretação particular da fé em autoridade superior à cidadania dos demais. Nesse momento, a busca legítima por representação pode dar lugar à reivindicação de domínio.
Michelle merece atenção nesse processo porque sua comunicação estabelece vínculos que ultrapassam o discurso partidário convencional. A reportagem da Folha descreveu sua capacidade de mobilização por meio da identificação religiosa e de sua imagem como mãe, esposa e mulher comprometida com uma missão. Reconhecer essa força não significa desrespeitar suas eleitoras ou presumir que sua fé seja insincera. Significa compreender a importância política de uma liderança que fala em nome de convicções profundas.
O estudo de Caroline Silva Ribeiro, fornecido como material para esta reflexão, também analisa a articulação entre signos religiosos, mobilização feminina e conservadorismo nos discursos de Michelle. Sua leitura chama atenção para uma tensão relevante: mulheres são convocadas a ocupar espaços públicos enquanto se reafirmam expectativas tradicionais de cuidado e apoio. Trata-se de uma interpretação acadêmica do discurso, não de prova de um comando sobre atos de intolerância.
A crítica fica mais forte quando sabe exatamente o que pode sustentar.
As fontes examinadas permitem discutir Michelle como referência e mobilizadora desse campo. Não permitem afirmar, como fato demonstrado, que ela seja a idealizadora e dirigente de um plano único, organizado e clandestino para implantar uma teocracia.
O que está em jogo diante de um eventual governo
Quanto a Flávio Bolsonaro, a questão decisiva é quais compromissos um eventual governo assumiria diante dessas forças. Que influência elas teriam sobre nomeações, educação, cultura e políticas de direitos humanos? Haveria proteção igualmente firme aos terreiros, às igrejas, aos templos de outras tradições e às pessoas sem religião? Um presidente aceitaria contrariar aliados quando a liberdade de terceiros estivesse ameaçada?
Essas perguntas são legítimas. A resposta precisa vir de propostas, declarações e decisões verificáveis. O parentesco com Michelle e Jair Bolsonaro, isoladamente, não demonstra a existência de um programa teocrático.
Minha preocupação é com um cenário político possível: se setores que entendem o poder como instrumento de supremacia religiosa conquistarem influência institucional sem limites democráticos claros, poderão pressionar por privilégios, exclusões e políticas discriminatórias. Isso não constitui uma previsão inevitável. Constitui um risco que merece ser debatido antes que decisões concretas o aprofundem.
A intolerância não pode ser combatida com desinformação
Também é indispensável rejeitar falsidades utilizadas nessa discussão. A checagem do UOL mostrou que um vídeo apresentado como incêndio provocado por apoiadores de Flávio contra uma imagem de Aparecida registrava, na realidade, um acidente com velas em Nerópolis. Atribuir crimes sem provas degrada o debate e prejudica o próprio enfrentamento da intolerância.
Pelo mesmo motivo, os ataques relacionados na decisão de Dino não podem ser atribuídos a Michelle, a Flávio ou aos evangélicos como conjunto. Investigar responsabilidades individuais é obrigação das autoridades. Examinar os efeitos de discursos de exclusão é responsabilidade da sociedade. Uma tarefa não substitui a outra.
Investigar responsabilidades individuais é obrigação das autoridades. Examinar os efeitos de discursos de exclusão é responsabilidade da sociedade. Uma tarefa não substitui a outra.
A liberdade religiosa é uma só
Para as comunidades de matriz africana, a solidariedade precisa se traduzir em proteção, investigação e respeito cotidiano. A destruição de um assentamento ou de uma imagem de orixá não merece menos indignação porque sua tradição é diferente daquela professada pela maioria.
Os católicos também precisam reconhecer que sua liberdade se fortalece quando defendem a liberdade alheia. A proteção de Nossa Senhora e a proteção de um terreiro pertencem ao mesmo compromisso civil: ninguém deve ter seu espaço de culto invadido ou seus símbolos destruídos.
Essa defesa alcança igualmente os evangélicos, inclusive aqueles que discordam de lideranças políticas de suas próprias igrejas. Nenhuma comunidade é homogênea. Nenhum dirigente pode reivindicar o monopólio da consciência de seus fiéis.
Estado laico, liberdade e democracia
A Constituição assegura a liberdade de consciência e de crença e protege o exercício dos cultos. Também estabelece limites à associação institucional do Estado com igrejas, ressalvando a colaboração de interesse público. Esses princípios permitem que pessoas de diferentes convicções compartilhem o mesmo país sem precisar compartilhar a mesma religião.
Os defensores de Michelle podem compreender suas manifestações como expressão de fé e representação de valores. Essa possibilidade deve ser reconhecida. Mas o exercício de uma liberdade também está sujeito ao debate público sobre seus efeitos, sobretudo quando parte de lideranças capazes de influenciar multidões e instituições.
A resposta democrática exige apuração dos ataques, proteção às comunidades ameaçadas, educação para a convivência e compromisso explícito das lideranças contra a discriminação. Condenar a violência apenas quando ela atinge os nossos é uma forma insuficiente de defender a liberdade.
O Brasil precisa enfrentar esse debate com firmeza e honestidade.
Nem toda expressão religiosa é fundamentalismo; nenhuma expressão religiosa autoriza a destruição do sagrado alheio. Nem toda aliança conservadora constitui um projeto teocrático; qualquer tentativa de impor uma fé pelo poder do Estado deve encontrar resistência democrática.
Entre os fragmentos de uma imagem quebrada, há uma responsabilidade que permanece inteira: garantir que cada pessoa possa viver sua consciência sem medo.
Nenhuma vitória nas urnas concede a alguém o direito de governar a fé dos outros.
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
DEMOCRACIA
ESTADO LAICO
TEOLOGIA DO DOMÍNIO
Padre Carlos
Política e Resenha — A gênese do poder é a verdade




