Política e Resenha

O Brasil ficou mais à direita: a democracia diante da ascensão do bolsonarismo

Política e Resenha • Análise • Eleições 2026

Conservadorismo não é fascismo. Mas negar os elementos autoritários do bolsonarismo também é um erro.

Por Padre Carlos  — colunista político — Política e Resenha

Há eleições que mudam governos. Há eleições que mudam parlamentos. E há eleições que revelam que uma sociedade inteira está mudando de direção. A eleição de 4 de outubro de 2026 pertence a esta última categoria.

As urnas não disseram que o Brasil se tornou fascista. Seria uma conclusão apressada, historicamente imprecisa e politicamente desonesta. Mas disseram algo que ninguém deveria ignorar: o Brasil ficou muito mais à direita, e dentro desse crescimento da direita o bolsonarismo consolidou uma força política de dimensões extraordinárias.

A fotografia da disputa presidencial

A primeira fotografia dessa mudança está na disputa presidencial.

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Flávio recebeu cerca de 47% dos votos válidos, enquanto Lula ficou pouco acima de 45%. Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

Primeiro turno — votos válidos (aprox.)
Flávio Bolsonaro
~47%
Lula
~45%

O Congresso: do voto à força institucional

Mas a fotografia mais impressionante não está apenas na Presidência da República. Está no Congresso Nacional.

O PL elegeu 121 deputados federais. É a maior bancada individual da Câmara desde a redemocratização. A federação PT-PCdoB-PV elegeu 88 deputados, enquanto a União Progressista, formada por União Brasil e PP, chegou a 87.

Câmara dos Deputados — maiores bancadas (de 513 cadeiras)
PL
121
PT-PCdoB-PV
88
União Progressista
87

O resultado é extraordinário. O partido de Flávio Bolsonaro sozinho terá 121 cadeiras em uma Câmara de 513 deputados.

Isso significa que o bolsonarismo deixou de ser apenas uma força eleitoral. Transformou-se em uma força institucional.

E no Senado o fenômeno é ainda mais impressionante. O PL terá 28 senadores, a maior bancada partidária da Casa desde a Constituição de 1988. O PT ficará com nove. MDB terá oito. PP e União Brasil terão seis cada. PSD e Republicanos, cinco cada.

Senado — bancadas por partido
PL
28
PT
9
MDB
8
PP
6
União Brasil
6
PSD
5
Republicanos
5

Mais importante ainda: 11 senadores eleitos por outros partidos receberam apoio direto de Flávio Bolsonaro. Isso pode colocar o campo bolsonarista próximo de 39 votos em determinadas disputas internas do Senado.

É uma mudança monumental na correlação de forças. Mas é exatamente neste ponto que precisamos tomar cuidado.

Conservadorismo não é fascismo

Não existe nenhuma razão para chamar todos esses eleitores de fascistas.

Conservadorismo não é fascismo.
Direita não é fascismo.
Liberalismo econômico não é fascismo.
Defesa da família não é fascismo.
Defesa da propriedade privada não é fascismo.
Ser contrário ao aborto não é fascismo.
Ser crítico ao socialismo não é fascismo.
Votar em um candidato de direita não transforma ninguém automaticamente em fascista.

Uma democracia madura precisa compreender isso. O problema está em outra parte.

O problema aparece quando uma determinada corrente política começa a tratar o pluralismo como uma ameaça; quando o adversário deixa de ser um adversário e passa a ser um inimigo; quando as instituições são consideradas legítimas somente quando produzem decisões favoráveis; quando a imprensa independente é apresentada como inimiga da nação; quando a violência política passa a ser relativizada; quando o líder político se transforma em uma espécie de encarnação da vontade popular.

O bolsonarismo e os elementos fascistizantes

É aí que precisamos falar do bolsonarismo. Não de todo eleitor de Bolsonaro. Não de toda a direita. Não de todo conservador. Mas do fenômeno político construído em torno do bolsonarismo.

Porque há elementos dentro desse movimento que dialogam, sim, com tradições autoritárias e com características historicamente associadas ao fascismo.

O fascismo não é simplesmente uma direita conservadora mais radical. Historicamente, ele envolve uma concepção política marcada pelo ultranacionalismo, pelo culto à liderança, pela rejeição do pluralismo, pela mobilização contra um inimigo interno, pela desconfiança em relação às instituições liberais e pela aceitação da violência política como instrumento legítimo de transformação.

É por isso que a análise precisa ser cuidadosa. Quando vemos no bolsonarismo a construção permanente de uma lógica de “nós contra eles”, a transformação do adversário político em inimigo moral, a desconfiança sistemática em relação às instituições quando elas contrariam seus interesses, o culto à liderança, o imaginário militarizado e a dificuldade de aceitar determinadas derrotas políticas, temos elementos que merecem ser analisados à luz da tradição autoritária e fascista.

Isso não significa dizer que todo bolsonarista seja fascista. Significa reconhecer que há elementos fascistizantes dentro de uma corrente política que acaba de conquistar uma enorme parcela do poder institucional brasileiro.

E essa distinção é fundamental. Porque chamar todo eleitor de direita de fascista é um erro. Mas dizer que não existem elementos autoritários e fascistas no bolsonarismo também é um erro.

Os dois erros acabam produzindo o mesmo resultado: impedem que a sociedade compreenda aquilo que realmente está acontecendo.

O novo mapa dos estados

E o que está acontecendo? A direita está crescendo. E não apenas no Congresso. Está crescendo nos estados.

Dos 20 governos estaduais decididos no primeiro turno, dez ficaram com candidatos identificados como aliados de Flávio Bolsonaro: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e São Paulo.

Cinco ficaram com aliados de Lula: Bahia, Ceará, Paraíba, Piauí e Sergipe. Outros cinco foram conquistados por candidatos que adotaram uma postura de neutralidade na disputa presidencial: Alagoas, Amapá, Goiás, Maranhão e Pernambuco. E ainda existem sete governos que serão decididos no segundo turno.

Governos estaduais decididos no 1º turno (20)
Aliados de Flávio
10
Aliados de Lula
5
Neutros
5

O mapa político do Brasil mudou. E mudou especialmente nos grandes colégios eleitorais. São Paulo reelegeu Tarcísio de Freitas. Minas Gerais elegeu Cleitinho. Paraná elegeu Sergio Moro. Rio Grande do Sul elegeu Luciano Zucco. Santa Catarina reelegeu Jorginho Mello. Rondônia e Roraima ficaram com o PL. É uma expansão territorial extraordinária da direita.

Mas há outro detalhe que merece atenção. O Nordeste não desapareceu do mapa político da esquerda. Bahia, Ceará, Piauí, Paraíba e Sergipe permaneceram no campo governista. Isso significa que o Brasil não se tornou politicamente homogêneo. O Brasil está dividido. E talvez seja justamente essa divisão que explique a força da eleição de 2026.

A extrema direita dentro da direita

A esquerda continua possuindo uma enorme base social. Mas perdeu espaço institucional. A direita cresceu. E a extrema direita cresceu dentro da direita. Essa é a frase que precisamos compreender.

Porque existe uma direita democrática que aceita a alternância de poder. Existe uma direita liberal que defende a economia de mercado e as instituições. Existe uma direita conservadora que valoriza religião, família e tradição. E existe uma direita radical que começa a enxergar a política como uma guerra existencial. É nessa última que mora o perigo.

A democracia não exige que todos pensem da mesma maneira. Exige que todos aceitem viver sob as mesmas regras. A direita pode vencer. A esquerda pode vencer. O centro pode vencer. O que não pode acontecer é alguém acreditar que sua vitória eleitoral lhe concede o direito de destruir as regras que permitem que o adversário também possa vencer amanhã.

Essa é a fronteira. E essa fronteira será testada pelo novo Congresso.

O PL terá 121 deputados. Terá 28 senadores. Seus aliados poderão formar uma força ainda maior. Isso significa que o próximo governo — seja de esquerda, centro ou direita — terá de negociar com um Congresso muito mais conservador.

O Brasil não está simplesmente escolhendo um presidente. Está escolhendo uma nova correlação de forças. E essa correlação de forças é muito mais à direita.

Um recado à esquerda — e outro à direita

A esquerda deveria olhar para esse resultado com humildade. Não adianta chamar de fascista todo brasileiro que defende valores conservadores. Isso apenas amplia a distância entre a esquerda e uma parcela enorme da sociedade.

A esquerda precisa entender por que perdeu espaço. Precisa renovar seus quadros. Precisa compreender que religião não é sinônimo de atraso. Precisa compreender que segurança pública não é uma pauta exclusivamente da direita. Precisa compreender que o eleitor pode ser pobre e conservador. Pode ser trabalhador e religioso. Pode defender políticas sociais e, ao mesmo tempo, rejeitar determinadas pautas culturais da esquerda.

O eleitor brasileiro não cabe mais nas antigas caixas ideológicas.

Mas a direita também precisa compreender que sua vitória eleitoral não lhe concede um cheque em branco. Quanto maior o poder, maior a responsabilidade. Quanto maior a bancada, maior a obrigação de respeitar as instituições. Quanto maior a influência de um movimento, maior deve ser sua responsabilidade diante da democracia.

O bolsonarismo chegou a um momento decisivo. Agora não basta vencer eleições. É preciso demonstrar que sabe conviver com a democracia. É preciso demonstrar que aceita a separação dos Poderes. Que respeita a imprensa livre. Que aceita a independência do Judiciário. Que compreende a legitimidade do adversário. Que não transforma divergência em traição. Que não transforma o líder em dono da verdade.

Uma coisa é ser conservador. Outra é acreditar que somente os conservadores representam o Brasil.
Uma coisa é ser de direita. Outra é acreditar que a esquerda não tem legitimidade para existir.
Uma coisa é defender Bolsonaro. Outra é acreditar que Bolsonaro está acima das instituições.

É exatamente nessa diferença que encontramos a fronteira entre direita democrática e autoritarismo.

A prova do segundo turno

É por isso que a eleição de 2026 precisa ser analisada com serenidade. As urnas não produziram uma ditadura. Não produziram um regime fascista. Produziram uma enorme vitória da direita. E produziram, dentro dela, uma força bolsonarista suficientemente grande para obrigar todo o país a prestar atenção.

Ignorar isso seria cegueira. Chamar todos os conservadores de fascistas seria estupidez. Negar os elementos autoritários presentes no bolsonarismo seria ingenuidade.

O Brasil precisa fazer as três coisas ao mesmo tempo: reconhecer a vitória eleitoral da direita, preservar o direito democrático do conservadorismo de disputar o poder e manter os olhos abertos diante de qualquer tentativa de transformar o poder eleitoral em poder absoluto.

A democracia não pertence à esquerda. Mas também não pertence à direita. A democracia pertence ao cidadão.

E talvez esta seja a grande pergunta que ficará para o segundo turno:

O Brasil quer apenas mudar de governo ou está diante de uma mudança mais profunda na sua própria cultura política?

As urnas já deram parte da resposta. O Brasil ficou mais à direita. Agora precisamos descobrir se essa nova direita será capaz de provar que pode ser poderosa sem ser autoritária, conservadora sem ser intolerante e vencedora sem deixar de ser democrática.

Essa será a verdadeira prova da direita brasileira. E também a verdadeira prova da democracia brasileira.

Eleições 2026
Bolsonarismo
Democracia
Congresso Nacional
Segundo Turno
Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha