Quando vejo Dom Carvalho, ainda vejo Roberto
Padre Carlos
Hoje, ao ver uma fotografia de Dom Carvalho presidindo uma das noites de preparação para a Festa de São Miguel Arcanjo, no Alto Maron, em Vitória da Conquista, tive a sensação de que o tempo havia parado por alguns segundos.
Olhei para aquela imagem e, de repente, um filme inteiro passou pela minha retina.
Ali estava Dom Carvalho, bispo da Diocese de Caetité, revestido das insígnias de sua missão episcopal, presidindo a Eucaristia e conduzindo o povo de Deus pela Palavra. Mas, para mim, aquele título tão solene — Dom Carvalho — ainda parece algo distante.
Porque, quando olho para ele, eu ainda vejo Roberto.
Roberto, meu contemporâneo. O jovem que conheci em um tempo em que nossas vidas ainda estavam sendo construídas, quando ninguém poderia imaginar exatamente os caminhos que o futuro nos reservaria.
O olhar acolhedor de Dom Celso
E imediatamente me veio à memória Dom Celso.
Foi sob o olhar acolhedor e exigente de Dom Celso que muitos de nós aprendemos que a Igreja não era apenas uma instituição, mas uma comunidade de homens chamados a servir. Dom Celso tinha essa capacidade extraordinária de acolher jovens, enxergar possibilidades onde muitas vezes nós mesmos não conseguíamos enxergá-las e, ao mesmo tempo, cobrar de cada um a responsabilidade de transformar vocação em serviço.
Lembrei também daquele jovem que foi morar no Alto Maron com o então pároco, Joãozinho.
Joãozinho.
É curioso como a memória conserva certos nomes com uma intimidade que o tempo não consegue apagar.
Hoje, quando alguém fala em João Cardoso, Arcebispo de Natal, a Igreja imediatamente reconhece a autoridade, a trajetória e a responsabilidade de um sucessor dos apóstolos. Eu, porém, ainda consigo enxergar aquele Joãozinho que conheci em outro tempo, quando a vida sacerdotal ainda era feita de proximidade, sonhos, desafios e muitas perguntas.
É assim que a memória funciona.
Ela não apaga aquilo que fomos quando nos transformamos naquilo que somos.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da história daquele grupo de presbíteros que passou pelo presbitério de Vitória da Conquista sob a influência de Dom Celso.
Uma geração que caminhou com o povo
De lá saíram homens que hoje estão espalhados pelo Brasil, servindo à Igreja como bispos e arcebispos.
Quando penso nisso, percebo que estamos diante de uma história que merece ser contada.
Não apenas a história dos homens que chegaram ao episcopado, mas a história de uma geração inteira de sacerdotes, leigos, religiosos e agentes de pastoral que viveram uma determinada experiência de Igreja. Uma Igreja marcada pelo Concílio Vaticano II, pela opção pastoral, pelo compromisso com as comunidades e por uma compreensão do sacerdócio que não se limitava ao altar.
Era uma Igreja que nos ensinava que servir significava caminhar com o povo.
Hoje, muitos daqueles jovens carregam títulos que impressionam: bispo, arcebispo, pastor de uma diocese, responsável por milhares de fiéis. O tempo fez seu trabalho. A vida nos levou por caminhos diferentes.
Mas há algo que os títulos não conseguem mudar.
Por trás de Dom Carvalho ainda existe Roberto.
Por trás de Dom João Cardoso ainda existe aquele Joãozinho.
E por trás de tantos homens que hoje ocupam responsabilidades importantes na Igreja continuam existindo os jovens que um dia chegaram cheios de sonhos, inquietações, esperanças e também inseguranças.
Vi o tempo
Talvez seja por isso que a fotografia de Dom Carvalho no Alto Maron tenha mexido tanto comigo.
Não vi apenas um bispo celebrando uma Eucaristia.
Vi o tempo.
Vi uma parte da minha própria história.
Vi amigos.
Vi companheiros de caminhada.
Vi uma Igreja que nos formou.
E vi, sobretudo, a marca de um homem que talvez nem tenha dimensão completa da quantidade de vidas que ajudou a tocar: Dom Celso.
Gratidão
Obrigado, Dom Celso.
Obrigado por ter acolhido jovens.
Obrigado por ter acreditado em pessoas.
Obrigado por ter ajudado a formar uma geração.
Obrigado por ter permitido que tantos de nós fizéssemos parte de uma história que ultrapassou os limites de Vitória da Conquista e chegou a tantos lugares do Brasil.
Hoje, quando encontro um daqueles jovens transformados pelo tempo em bispo ou arcebispo, percebo que a história não desapareceu.
Ela continua andando.
Continua celebrando.
Continua servindo.
E continua nos lembrando de que ninguém constrói sozinho a própria trajetória.
Há sempre alguém que nos acolheu.
Alguém que acreditou.
Alguém que abriu uma porta.
Alguém que nos ensinou.
Alguém que, em determinado momento da vida, foi instrumento de Deus para que pudéssemos descobrir o nosso próprio caminho.
É por isso que, naquela noite de preparação para a Festa de São Miguel Arcanjo, enquanto muitos provavelmente enxergavam apenas Dom Carvalho presidindo a celebração, eu enxergava Roberto.
E, junto com Roberto, enxergava Dom Celso.
Enxergava Joãozinho.
Enxergava aquele presbitério.
Enxergava uma geração.
E, por alguns instantes, o passado e o presente se encontraram.
O combate contra o esquecimento
São Miguel Arcanjo continua sendo invocado para nos defender no combate.
Mas há também outro combate, silencioso e inevitável: o combate contra o esquecimento.
E enquanto pudermos lembrar, contar e agradecer, aquilo que vivemos não morrerá.
Hoje, portanto, minha oração é também uma ação de graças.
Por Roberto.
Por Joãozinho.
Por todos aqueles companheiros.
E, principalmente, por Dom Celso.
Porque há homens que passam pela nossa vida.
E há homens que deixam uma marca na nossa história.
Dom Celso foi um deles.
E talvez esta seja a melhor maneira de compreender o que senti ao ver Dom Carvalho no Alto Maron: eu não estava apenas olhando para um bispo.
Eu estava reencontrando um pedaço da minha juventude.
E, naquele reencontro, descobri mais uma vez que algumas pessoas podem mudar de nome, de título e de missão.
Mas nunca deixam de ser, para nós, aqueles que um dia conhecemos.
Para mim, Dom Carvalho ainda é Roberto.
E talvez seja justamente aí que esteja a beleza da amizade, da memória e da história.
MemóriaIgrejaDom CelsoAlto MaronVitória da ConquistaSão Miguel Arcanjo
Padre Carlos
Texto publicado no Blog Política e Resenha




