Política e Resenha

Uma Igreja dividida enfraquece a própria missão

Mês Missionário

O anúncio do Evangelho começa na maneira como tratamos uns aos outros e ganha credibilidade quando a fé se transforma em serviço.

Por Padre Carlos

Há uma pergunta que deveria inquietar nossas comunidades neste mês missionário: que rosto de Cristo estamos apresentando ao mundo? O rosto de quem acolhe, escuta e serve ou o de quem disputa espaços, alimenta ressentimentos e transforma diferenças em inimizades?

A pergunta incomoda porque nos obriga a olhar para dentro. É relativamente fácil organizar uma programação missionária. Mais exigente é permitir que o Evangelho transforme nossas relações, desarme nossas vaidades e nos ensine a trabalhar com quem pensa de maneira diferente.

Batizados e enviados

A missão pertence à identidade da Igreja. Não pode ficar restrita a uma campanha anual, a uma pastoral específica ou ao esforço generoso de algumas pessoas. Quem foi alcançado pelo amor de Cristo recebe também a responsabilidade de testemunhá-lo. Somos batizados e enviados. O batismo nos incorpora a uma comunidade que existe para amar, servir e anunciar.

Na mensagem para o 100º Dia Mundial das Missões, celebrado em 18 de outubro de 2026, o Papa Leão XIV escolheu o tema “Um em Cristo, unidos na missão”. Há nessa escolha um chamado oportuno à conversão das nossas relações: a comunhão com o Senhor deve produzir comunhão entre aqueles que anunciam seu nome.

Precisamos levar esse chamado a sério.

Para que o mundo creia

Uma comunidade pode ter uma agenda cheia e, ainda assim, estar espiritualmente distante dos que sofrem. Pode dominar os meios de comunicação e não saber ouvir uma pessoa. Pode falar com entusiasmo sobre fraternidade enquanto mantém, dentro de casa, pequenas guerras por reconhecimento.

Quando isso acontece, o problema alcança o próprio testemunho cristão. Quem chega à procura de esperança encontra rivalidades que já conhece do lado de fora.

Jesus rezou ao Pai: “Que todos sejam um só, para que o mundo creia” (Jo 17,21). A oração nos coloca diante de uma responsabilidade imensa: nossa maneira de conviver pode ajudar alguém a reconhecer o Evangelho ou dificultar esse encontro.

A credibilidade da palavra passa pela verdade da vida.

Isso não exige uma Igreja sem diferenças. Há lugar para diversos carismas, sensibilidades, vocações, movimentos e serviços. A riqueza de uma comunidade aparece também na capacidade de reunir pessoas que não são iguais e que, justamente por isso, podem aprender umas com as outras.

O problema começa quando um grupo se comporta como proprietário da paróquia, quando uma liderança confunde serviço com domínio ou quando alguém julga que seu modo de viver a fé é a única expressão legítima de pertença à Igreja.

Nenhum de nós é dono da vinha. Somos trabalhadores chamados a cuidar dela.

A unidade amadurece quando o amor a Cristo se torna maior que a necessidade de ter razão, aparecer ou controlar. Ela pede humildade para ouvir, coragem para reconhecer erros e disposição para reparar as feridas que causamos.

Também exige verdade. Não se constrói comunhão obrigando os feridos a ficar em silêncio, escondendo injustiças ou chamando de paz o medo de discordar. Uma comunidade reconciliada aprende a enfrentar seus conflitos com justiça, respeito e responsabilidade.

É dessa vida partilhada que o anúncio ganha força.

Missão em gestos concretos

A missão acontece quando alguém apresenta explicitamente Jesus Cristo a quem ainda não o conhece. Acontece também na visita ao doente, na escuta de quem perdeu a esperança, na partilha com a família que passa necessidade e na presença paciente junto de quem atravessa o luto.

Há serviço missionário na oração perseverante, no apoio concreto aos missionários e na generosidade de quem oferece tempo, recursos e trabalho para que o Evangelho chegue mais longe. A disponibilidade de cada batizado importa. Ninguém precisa esperar um cargo para começar a servir.

Mas convém perguntar: o que desejamos oferecer às pessoas?

Se queremos apenas aumentar nosso prestígio, fortalecer nosso grupo ou vencer uma disputa, precisamos rever o caminho. A pessoa que se aproxima da Igreja não pode ser tratada como um número, uma conquista ou um instrumento de afirmação institucional.

Ela tem um nome, uma história, perguntas e feridas. Precisa encontrar gente disposta a caminhar ao seu lado.

O centro da missão é Jesus Cristo. É para Ele que nossa palavra deve apontar. É o seu modo de amar que deve orientar nossas atitudes. E isso exige coerência: não podemos anunciar sua misericórdia com crueldade, nem convidar à esperança enquanto espalhamos medo e desprezo.

A fé se torna fecunda quando alcança a vida concreta.

Fé, voto e consciência

Neste domingo, 4 de outubro, em que os brasileiros são chamados às urnas, essa responsabilidade também se expressa na participação democrática. O exercício do voto faz parte do cuidado com a sociedade que compartilhamos.

A Igreja deve preservar sua independência diante dos partidos e das candidaturas. Sua missão não pode ser colocada a serviço de projetos de poder. Essa independência, porém, exige compromisso com a dignidade humana, com a justiça e com as condições de vida do povo.

O cristão é chamado a formar a própria consciência com seriedade: procurar informações confiáveis, examinar propostas, considerar trajetórias e pensar nas consequências de suas escolhas, sobretudo para os mais vulneráveis.

A consciência precisa de formação, reflexão e honestidade. O nome de Deus não dispensa ninguém desse trabalho, e a linguagem religiosa de um candidato não substitui a avaliação de seus atos.

Também precisamos cuidar da maneira como atravessamos nossas divergências. O adversário político continua sendo uma pessoa. Nenhuma preferência eleitoral autoriza a mentira, a humilhação ou a ruptura deliberada dos vínculos fraternos. A responsabilidade pelo bem comum permanece depois da apuração dos votos.

Uma conversão que começa perto

O mês missionário nos chama, portanto, a uma conversão que começa perto: na família, na comunidade, nas conversas, nas redes sociais e nas escolhas de cada dia. Antes de imaginar grandes distâncias, talvez precisemos atravessar aquela que nos separa de alguém a quem deixamos de ouvir.

Que encontremos coragem para pedir perdão, disposição para cooperar e generosidade para servir sem exigir reconhecimento.

Que Maria, Rainha das Missões, interceda por nós e nos ajude a conservar um coração disponível ao Evangelho. E que aqueles que se aproximarem de nossas comunidades encontrem, em nossas palavras e atitudes, motivos para confiar no amor que anunciamos.

Somos batizados e enviados. Que a nossa maneira de viver dê testemunho disso.

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