Tenho cinquenta anos de vida política. Nesse tempo, aprendi uma coisa que considero fundamental: eleição não é apenas uma disputa entre candidatos. É, sobretudo, uma disputa pela percepção do eleitor.
Já vi campanhas que pareciam invencíveis perderem. Já vi candidatos desacreditados crescerem quando encontraram a linguagem certa para conversar com a sociedade. Já vi militantes apaixonados confundirem o entusiasmo de suas próprias bolhas com o sentimento das ruas.
E aprendi que existe uma distância enorme entre aquilo que uma militância acredita e aquilo que o eleitor comum está pensando.
O segundo turno é outra eleição
É por isso que, quando observo uma eleição de segundo turno, presto atenção muito menos aos discursos inflamados dos candidatos e muito mais ao comportamento silencioso do eleitor.
O segundo turno é outra eleição.
No primeiro turno, o eleitor pode escolher. No segundo, ele precisa decidir.
E essa diferença muda completamente a estratégia.
Quem disputa o segundo turno não precisa apenas conquistar novos eleitores. Precisa convencer quem está cansado, quem está indeciso, quem não gosta de nenhum dos candidatos e até mesmo quem pensa em simplesmente não votar.
A abstenção, aliás, é uma das maiores forças silenciosas de uma eleição.
Aprendi, ao longo desses cinquenta anos, que candidato nenhum deveria olhar para a abstenção como um fenômeno meramente estatístico. Existe política por trás de cada eleitor que deixa de comparecer às urnas.
Alguns estão decepcionados. Outros estão indiferentes. Muitos não acreditam que seu voto possa mudar alguma coisa. Há ainda aqueles que enfrentam dificuldades reais para chegar ao local de votação.
No segundo turno, recuperar esse eleitor pode ser tão importante quanto conquistar um novo voto.
O eleitor que não está apaixonado
Mas existe outro eleitor que considero decisivo: aquele que não se identifica completamente com nenhum dos dois lados.
É o eleitor que olha para Lula e não se entusiasma. Olha para Flávio Bolsonaro e também não se convence. É o eleitor que rejeita os extremos, desconfia das promessas e gostaria de encontrar uma alternativa que, naquele momento, não está colocada na urna.
Esse eleitor não quer necessariamente amar um candidato.
Muitas vezes, quer apenas escolher aquele que considera menos arriscado.
E aqui está uma das grandes transformações da política contemporânea: a eleição deixou de ser somente uma disputa para convencer o eleitor de que determinado candidato é bom. Tornou-se também uma disputa para convencê-lo de que o adversário é pior.
É a política do medo, da rejeição, da comparação e da percepção de risco.
Pode parecer duro dizer isso, mas quem conhece política sabe que funciona assim.
A narrativa e o poder da pergunta
No segundo turno, muitas pessoas não votam movidas pela paixão. Votam movidas pela confiança, pela desconfiança, pelo medo ou pela esperança.
Por isso, a narrativa se torna tão importante.
Quem controla a narrativa consegue, muitas vezes, determinar quais perguntas o eleitor fará diante da urna.
Não é necessário dizer diretamente que determinado candidato é incompetente. Pode-se perguntar: “O que ele realizou?”. Não é necessário afirmar que determinado político não merece confiança. Pode-se perguntar: “Você confia nele?”.
Mas também aprendi outra coisa em meio século de política: pergunta não é sinônimo de neutralidade.
Uma pergunta pode ser uma poderosa ferramenta de persuasão.
Quem escolhe a pergunta muitas vezes já escolheu o caminho pelo qual pretende conduzir a resposta.
Por isso, democracia exige mais do que comunicação eficiente. Exige responsabilidade.
Não podemos transformar a política em uma fábrica permanente de suspeitas, medo e desinformação.
A campanha precisa convencer, mas o eleitor precisa ter condições de julgar.
Reputação como patrimônio eleitoral
É aí que entra outra questão que considero fundamental: a reputação.
Hoje, o eleitor não vota apenas em propostas.
Ele vota em biografias.
Vota naquilo que imagina sobre o caráter de um candidato. Vota na confiança que deposita nele. Vota na sua competência. Vota nas pessoas que o cercam. Vota na maneira como imagina que ele irá governar.
A política contemporânea transformou a reputação em patrimônio eleitoral.
E destruir a reputação de um adversário tornou-se, muitas vezes, tão importante quanto apresentar uma proposta própria.
É preciso ter cuidado.
Uma democracia não pode sobreviver se toda eleição for transformada em uma guerra de destruição moral.
O adversário político não é necessariamente um inimigo da sociedade.
Essa talvez seja uma das coisas que mais me incomodam na política brasileira atual.
O eleitor é mais inteligente do que as campanhas imaginam
Ao longo desses cinquenta anos, vi a política mudar. Vi partidos nascerem, crescerem e desaparecerem. Vi líderes que pareciam eternos perderem eleições. Vi grupos considerados imbatíveis serem derrotados. Vi discursos revolucionários transformarem-se em discursos de governo.
E uma coisa permaneceu: o eleitor é muito mais inteligente do que algumas campanhas imaginam.
O eleitor pobre, por exemplo, não é um eleitor incapaz de compreender seus próprios interesses.
Tenho enorme preocupação quando setores da política tratam as pessoas pobres como se fossem facilmente compráveis por um benefício social.
Isso é uma forma de preconceito.
Quem vive com pouco sabe exatamente o que significa receber ou perder uma política pública. Sabe quanto pesa uma cesta básica, uma aposentadoria, um emprego, uma bolsa, um programa de transferência de renda ou o preço dos alimentos no final do mês.
Esse cidadão não precisa ser tutelado.
Precisa ser respeitado.
Programas sociais são políticas públicas e devem ser avaliados pelo cidadão como qualquer outra ação de governo.
O eleitor tem o direito de perguntar quem criou, quem manteve, quem ampliou, quem administrou bem e quem pode melhorar determinada política.
Isso é cidadania.
Atravessar a fronteira da bolha
E talvez seja justamente aí que esteja a grande batalha de um segundo turno.
Não basta mobilizar a militância.
É preciso conversar com quem não pertence à militância.
Não basta produzir vídeos para quem já concorda.
É preciso falar com quem discorda.
Não basta fazer uma frase viral nas redes sociais.
É preciso construir uma narrativa capaz de sobreviver quando o eleitor desligar o celular e conversar com a família, com o vizinho, com o colega de trabalho ou com o amigo.
Porque é ali, longe dos palanques e das redes sociais, que muitas eleições são decididas.
Depois de cinquenta anos observando política, cheguei a uma conclusão simples: campanha eleitoral não é concurso de quem grita mais alto.
É disputa de confiança.
O candidato que consegue convencer o eleitor de que compreende seus problemas, respeita sua inteligência e oferece uma perspectiva de futuro sai na frente.
O candidato que transforma o adversário em demônio pode mobilizar sua própria torcida, mas corre o risco de não conseguir atravessar a fronteira da própria bolha.
E segundo turno se ganha justamente atravessando essa fronteira.
É preciso buscar o eleitor que não está apaixonado.
O eleitor que está cansado.
O eleitor que está desconfiado.
O eleitor que não quer escolher nenhum dos dois.
O eleitor que ainda não sabe se vai votar.
É nesse território aparentemente silencioso que está uma parcela decisiva do resultado.
Por isso, eu não acredito que uma eleição possa ser compreendida apenas pelas pesquisas, pelos discursos dos candidatos ou pelas manifestações das redes sociais.
Existe uma política subterrânea acontecendo o tempo inteiro.
Ela acontece nas conversas familiares, nas filas, nos bairros, nos locais de trabalho, nos grupos de WhatsApp e na conversa daquele eleitor que não participa de nenhuma militância.
É ali que a narrativa eleitoral ganha ou perde força.
Vitória eleitoral não é vitória democrática
E existe ainda uma última lição que a minha experiência política me ensinou.
Não devemos confundir vitória eleitoral com vitória democrática.
Uma campanha pode vencer utilizando uma comunicação extremamente eficiente. Pode mobilizar emoções, explorar rejeições, construir narrativas e derrotar o adversário.
Mas a democracia somente vence quando o cidadão consegue fazer uma escolha livre.
Por isso, entre Lula e Flávio Bolsonaro, ou entre quaisquer outros dois candidatos que venham a disputar um segundo turno, a questão mais importante não deveria ser apenas quem vencerá.
Deveríamos perguntar também
Que tipo de democracia estamos construindo durante a campanha?
Uma democracia baseada em informação ou em desinformação?
No debate ou no ódio?
Na comparação ou na caricatura?
Na cidadania ou na torcida organizada?
Tenho cinquenta anos de política e continuo acreditando que o eleitor merece mais do que propaganda.
Merece respeito.
Merece informação.
Merece argumentos.
Merece conhecer os fatos.
E, sobretudo, merece decidir.
Porque o voto pertence ao eleitor.
A narrativa pode tentar conduzi-lo. A propaganda pode seduzi-lo. A militância pode pressioná-lo. As redes sociais podem cercá-lo.
Mas, no momento decisivo, a escolha precisa continuar sendo dele.
No fim das contas, talvez seja essa a verdadeira batalha de todo segundo turno:
não apenas convencer o eleitor a votar em alguém, mas convencê-lo sem retirar dele o direito de pensar.
(Padre Carlos)
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




