Política e Resenha

Jerônimo precisa abrir espaço para Quinho: a dívida política com Otto

Política Baiana  |  Análise

Há momentos na política em que uma decisão administrativa revela muito mais do que parece. Nomear ou deslocar um deputado para o governo, abrindo espaço para que outro político assuma uma cadeira na Assembleia Legislativa, pode parecer uma simples operação parlamentar. Mas, na Bahia, determinadas movimentações carregam consigo mensagens de lealdade, reconhecimento e composição de forças. É nesse contexto que surge uma questão que Jerônimo Rodrigues precisará enfrentar: é hora de abrir espaço para que Quinho Tigre chegue à Assembleia Legislativa da Bahia.

Não se trata apenas de uma questão envolvendo Quinho. Trata-se de política.

E, principalmente, trata-se de reconhecer o papel desempenhado por Otto Alencar, presidente do PSD baiano e uma das principais lideranças políticas do Estado.

Otto colocou seu time em campo. E política se faz também lembrando quem esteve ao lado quando a disputa era difícil.

O time em campo

Durante a eleição, o PSD não ficou na arquibancada. Seus prefeitos, deputados, lideranças municipais e dirigentes participaram ativamente da construção política que sustentou o projeto de Jerônimo. A força eleitoral do partido foi fundamental para que o governador chegasse ao resultado que alcançou.

É impossível analisar a vitória de Jerônimo sem olhar para essa estrutura.

O PT tem sua militância, sua história e sua força política. Mas o governo não é resultado exclusivamente do PT. A vitória eleitoral foi construída por uma coalizão de forças, e dentro dessa coalizão o PSD de Otto Alencar ocupa posição estratégica.

É justamente por isso que a ascensão de Quinho Tigre ganha uma dimensão maior.

Quinho representa uma força política regional. Sua presença na Assembleia não seria apenas a chegada de mais um deputado. Seria também a expressão de uma determinada composição política que precisa ser compreendida pelo Palácio de Ondina.

Jerônimo precisa entender que governo não se sustenta apenas com discurso, popularidade ou estrutura administrativa. Governo se sustenta com alianças, reciprocidade e confiança.

O ponto central

Otto ajudou a colocar o time em campo para que Jerônimo vencesse. Agora, cabe ao governador demonstrar que sabe reconhecer seus aliados.

Não estou falando de favor. Estou falando de política.

A lógica da coalizão

Quinho não precisa chegar à Assembleia como alguém que recebeu uma concessão pessoal do governador. Ele precisa chegar porque existe uma lógica política que justifica essa movimentação. E, para isso, Jerônimo terá de encontrar uma solução dentro de sua própria base, inclusive avaliando a possibilidade de trazer um deputado para o governo e, com isso, permitir a convocação do suplente.

É uma operação perfeitamente compreensível dentro da dinâmica de uma coalizão.

O problema é que toda operação política precisa ser feita com inteligência.

Jerônimo não pode transmitir a impressão de que está simplesmente distribuindo cargos. Precisa construir uma narrativa política consistente: fortalecer a base, ampliar a governabilidade e reconhecer as forças que contribuíram para a vitória.

E Quinho pode ser uma dessas peças.

A política baiana sempre foi marcada pela capacidade de acomodar interesses diferentes dentro de grandes alianças. Foi assim durante décadas. Governos fortes compreenderam que não basta vencer uma eleição; é necessário construir uma maioria política capaz de sustentar o projeto depois da vitória.

O peso de Otto Alencar

É justamente aí que entra Otto Alencar.

O senador não é apenas presidente de um partido. É uma liderança com capilaridade política, presença municipal e capacidade de articulação. Quando Otto movimenta seu grupo, não está movimentando apenas alguns parlamentares. Está movimentando prefeitos, vereadores, lideranças locais e uma estrutura política espalhada por diferentes regiões da Bahia.

Jerônimo sabe disso.

E sabe também que o PSD não é um partido que possa ser tratado como coadjuvante dentro da coalizão governista.

Por isso, permitir a ascensão de Quinho Tigre pode representar mais do que uma mudança na composição da Assembleia. Pode ser um gesto político dirigido ao próprio Otto: “Eu reconheço quem esteve comigo.”

Na política, gestos têm valor.

Às vezes, uma nomeação fala mais do que dez discursos.

A força do interior

E existe ainda uma questão regional que não pode ser ignorada.

A presença de Quinho na Assembleia fortalece uma representação política do interior e amplia o espaço de determinadas regiões no centro das decisões do Estado. A Bahia não pode ser governada olhando apenas para Salvador e para os grandes centros. A força política do interior precisa estar representada na mesa onde as decisões são tomadas.

Quinho conhece essa realidade.

E sua presença na Assembleia pode contribuir para aproximar ainda mais o governo de prefeitos, lideranças municipais e comunidades que muitas vezes enxergam o poder estadual como algo distante.

A pergunta que resta

Portanto, a questão que se coloca para Jerônimo é simples:

o governador vai compreender a política como uma relação de reciprocidade ou vai permitir que pequenas disputas internas prejudiquem uma aliança maior?

Essa é a verdadeira pergunta.

Porque uma coisa é certa: ninguém entra numa eleição grande sozinho.

Jerônimo não venceu sozinho.

O PT não venceu sozinho.

E, se a vitória foi construída por uma frente política ampla, é natural que essa frente também seja contemplada na construção do governo.

Otto colocou seu time em campo.

Agora é a vez de Jerônimo mostrar que sabe jogar em equipe.

E, nesse jogo, abrir espaço para Quinho Tigre pode ser muito mais do que uma acomodação parlamentar. Pode ser um gesto de reconhecimento político, uma demonstração de lealdade à aliança e uma sinalização de que o governador compreende a força daqueles que ajudaram a construir sua vitória.

A política, afinal, não é apenas a arte de conquistar o poder. É também a arte de saber reconhecer quem ajudou a conquistá-lo.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha