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O segundo colocado cresce mais no segundo turno. Mas a história mostra que isso nunca bastou

Análise eleitoral • Eleições 2026

Sete eleições presidenciais, um padrão estatístico claro e uma diferença de 2,23 milhões de votos no ponto de partida de 2026.

As urnas do primeiro turno de 2026 colocaram Flávio Bolsonaro na frente, com 56.104.268 votos, e Lula logo atrás, com 53.876.617. A distância entre os dois é de 2.227.651 votos, pequena para os padrões de uma eleição que mobiliza mais de cem milhões de eleitores. Em disputas assim, a pergunta que se impõe é sempre a mesma: quem cresce mais entre o primeiro e o segundo turno? E, principalmente, esse crescimento costuma ser suficiente para virar o jogo?

Para responder, vale olhar para trás. Reunindo os sete segundos turnos presidenciais disputados entre 1989 e 2022, é possível medir quantos votos cada um dos dois finalistas acrescentou em relação ao próprio desempenho no primeiro turno. O resultado traz uma regularidade difícil de ignorar.

Sete eleições, um padrão

Em seis das sete eleições, o candidato que chegou em segundo lugar ao fim do primeiro turno acrescentou mais votos do que o primeiro colocado. Em 1989, Lula somou 19,45 milhões de votos contra 14,48 milhões de Collor, um crescimento de 167,4% sobre o primeiro turno, contra 70,2% do adversário. Em 2018, Fernando Haddad cresceu 15,70 milhões, quase o dobro dos 8,52 milhões de Jair Bolsonaro. Em 2022, Bolsonaro adicionou 7,13 milhões de votos, e Lula, 3,09 milhões.

A única exceção foi 2006, quando Geraldo Alckmin recuou 2,43 milhões de votos entre os dois turnos, enquanto Lula avançou 11,63 milhões. O gráfico abaixo mostra o crescimento absoluto de cada finalista, em milhões de votos.

Votos acrescentados no 2º turno (em milhões)
■ 1º colocado do 1º turno    ■ 2º colocado do 1º turno    ■ perda de votos
1989 1º
+14,48
2º
+19,45
2002 1º
+13,34
2º
+13,67
2006 1º
+11,63
2º
−2,43
2010 1º
+8,10
2º
+10,40
2014 1º
+11,23
2º
+16,14
2018 1º
+8,52
2º
+15,70
2022 1º
+3,09
2º
+7,13

Crescimento = votos do candidato no 2º turno menos seus votos no 1º turno. Escala: 20 milhões de votos = barra cheia.

Crescer mais do que o líder é a regra quase geral dos segundos turnos. Virar o resultado, nas sete disputas analisadas, nunca foi.

A vantagem que o segundo colocado consegue

O dado mais útil não é o crescimento isolado de cada candidato, e sim a diferença entre eles: quantos votos a mais o segundo colocado acrescentou em relação ao primeiro. É essa diferença que corrói a vantagem construída no primeiro turno.

Excluída a anomalia de 2006, a vantagem do segundo colocado variou de 0,33 milhão (2002) a 7,18 milhões de votos (2018). A mediana das sete eleições é de 4,05 milhões, valor idêntico ao de 2022.

Votos a mais (ou a menos) que o 2º colocado acrescentou, em milhões
1989
+4,97
2002
+0,33
2006
−14,06
2010
+2,30
2014
+4,91
2018
+7,18
2022
+4,05

Barra cinza = o 2º colocado cresceu menos que o 1º (caso de 2006). Escala: 14,06 milhões = barra cheia.

O ponto de partida de 2026

Flávio Bolsonaro larga na frente, mas por apenas 2,23 milhões de votos.

Flávio Bolsonaro
56,10 mi
Lula
53,88 mi

Se a vantagem histórica do segundo colocado se repetisse, ela seria suficiente para cobrir a diferença atual em cinco das sete eleições: 1989, 2010, 2014, 2018 e 2022. Só 2002 (0,33 milhão) e 2006 (resultado negativo) ficaram abaixo dos 2,23 milhões que separam os dois finalistas hoje.

Há um dado que modera esse otimismo estatístico: em todas as sete disputas, quem liderou o primeiro turno venceu o segundo. O segundo colocado quase sempre cresceu mais, mas nunca o bastante para virar.

O que o padrão não diz

Uma série de sete observações descreve uma tendência, não uma lei. O crescimento entre turnos depende de fatores que os números agregados não capturam: a transferência de votos dos candidatos eliminados, o comparecimento, o volume de brancos e nulos, a campanha de quatro semanas que separa as duas votações. Cada eleição teve a sua combinação, e 2026 terá a dela.

Também convém lembrar que a distância inicial importa tanto quanto o crescimento relativo. Uma vantagem de 4 milhões de votos entre os dois finalistas é decisiva quando a distância do primeiro turno é pequena, como agora, e insuficiente quando ela é grande. É por isso que o ponto de partida de 2026, a menor diferença da série em relação ao tamanho do eleitorado, torna a disputa genuinamente aberta.

A história oferece, portanto, duas lições que apontam em direções opostas. A primeira favorece quem está em segundo: o segundo colocado costuma crescer mais. A segunda favorece quem está em primeiro: ninguém, até hoje, converteu esse crescimento em virada. O segundo turno de 2026 dirá qual das duas regras tem mais força quando a margem é de pouco mais de dois milhões de votos.

Nota metodológica: o crescimento de cada candidato corresponde à diferença entre os votos obtidos no segundo e no primeiro turno. “Primeiro colocado” e “segundo colocado” referem-se à posição no primeiro turno. Os números de 2026 são os do primeiro turno apurado.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha