Política e Resenha

Tentaram fabricar uma derrota para Sheila, mas esqueceram de olhar para a urna

Análise política · Eleições 2026

Sheila Lemos venceu sem estar na urna — e isso parece incomodar

Por Padre Carlos  · Política e Resenha

Há textos que analisam uma eleição. E há textos que fazem uma verdadeira salada de frutas eleitoral: misturam eleição majoritária com proporcional, juntam 2022 com 2024, temperam com números de 2026 e, no final, tentam servir ao leitor uma conclusão que os próprios votos não sustentam.

É mais ou menos isso que acontece quando se tenta transformar o resultado das eleições de 2026 em uma derrota política de Sheila Lemos.

Quem estava, de fato, na urna?

Vamos começar pelo óbvio, que às vezes precisa ser lembrado: Sheila Lemos não foi candidata em 2026.

Não disputou eleição para governador. Não disputou vaga na Assembleia Legislativa. Não apareceu na urna pedindo voto para si. Não teve santinho com seu número, não teve campanha própria e não precisou convencer o eleitor a escolhê-la.

E, ainda assim, conseguiu uma coisa que muitos candidatos que estavam oficialmente na disputa não conseguiram: transferir votos.

Esse detalhe parece pequeno apenas para quem nunca acompanhou de perto a política.

Sheila é, até hoje, um dos poucos mandatários de Vitória da Conquista que conseguiram demonstrar, de maneira concreta, capacidade de transferência eleitoral. E isso não é uma questão de opinião, simpatia ou torcida. É uma questão política.

Majoritária não é proporcional

Agora vem a parte curiosa da análise: para provar que Sheila saiu enfraquecida, o autor resolve comparar a votação que ela recebeu em uma eleição majoritária municipal com a votação obtida por um candidato a deputado estadual em uma eleição proporcional.

É aí que a salada de frutas ganha banana, manga, melancia e, aparentemente, um pouco de confusão conceitual.

Uma eleição para prefeito é uma coisa.

Uma eleição para deputado estadual é outra.

Na eleição majoritária, o eleitor escolhe diretamente quem ocupará o cargo. Na proporcional, a disputa envolve dezenas de candidatos, distribuição de votos, quociente eleitoral, votação de legenda, concentração regional, chapas e uma infinidade de fatores que simplesmente não existem da mesma maneira numa eleição majoritária.

Portanto, comparar os 116.488 votos de Sheila em 2024 com os 33.397 votos de Wagner Alves em Vitória da Conquista como se fossem duas réguas idênticas é intelectualmente conveniente, mas eleitoralmente pouco sério.

Seria como comparar a audiência de uma final de campeonato com a de uma partida de primeira fase e concluir que o jogador que marcou menos gols na segunda partida necessariamente perdeu prestígio.

Não é assim que funciona.

Sheila não precisava obter 116 mil votos para Wagner. Ela precisava demonstrar capacidade de mobilização dentro de uma eleição proporcional, na qual o eleitor distribui seus votos entre inúmeros candidatos e interesses.

E, nesse aspecto, os números de Wagner contam justamente uma história diferente daquela que o artigo pretende contar.

Os números em jogo

116.488 votos de Sheila Lemos em 2024, em eleição majoritária para prefeita
53.451 votos totais de Wagner Alves para deputado estadual, em eleição proporcional
33.397 desses votos, só em Vitória da Conquista

Duas réguas diferentes não medem a mesma coisa.

Foram 53.451 votos no total, dos quais 33.397 em Vitória da Conquista.

Não é pouca coisa.

Aliás, se a intenção é medir a influência política de Sheila, talvez fosse mais honesto perguntar quantos candidatos apoiados por prefeitos conseguiram produzir uma votação semelhante em seu principal reduto.

Mas essa pergunta estragaria um pouco a narrativa de derrota.

Quem concorria: Sheila ou Wagner?

Outro detalhe convenientemente esquecido é que Sheila sequer estava concorrendo.

Ela era a prefeita. E conseguiu colocar seu principal nome político em uma disputa estadual e levá-lo a mais de 53 mil votos.

Isso, em política, não é exatamente o retrato de uma liderança que desapareceu.

É claro que Wagner não foi eleito. E isso precisa ser dito com absoluta clareza. A não eleição é um fato e não há motivo para escondê-lo.

Mas transformar a não eleição de um candidato proporcional em prova definitiva de que a prefeita perdeu sua força política é outro assunto.

Uma coisa é reconhecer que Wagner não alcançou uma cadeira na Assembleia.

Outra, completamente diferente, é decretar que Sheila foi derrotada.

Aliás, existe uma pergunta que o artigo deveria responder antes de distribuir certificados de fracasso político:

Quem estava concorrendo?

Sheila ou Wagner?

Porque, ao que consta, quem colocou o nome na urna foi Wagner Alves. Sheila colocou o nome no projeto político. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

Democracia não é quartel. Transferência de votos não é clonagem eleitoral.

A prefeita também não pode ser responsabilizada pelo fato de o eleitor não votar em bloco como se estivesse diante de uma ordem de comando. Prefeito não aperta um botão e 100 mil eleitores automaticamente reproduzem seu voto.

O eleitor recebe uma orientação, considera, compara e decide. E justamente por isso a capacidade de transferência é tão valiosa.

Se Sheila realmente não tivesse força alguma, como alguns parecem desejar demonstrar, seria muito mais provável que seu apoio produzisse uma votação eleitoralmente irrelevante. Não foi o que aconteceu.

O grupo político de Sheila conseguiu colocar Wagner entre os nomes competitivos da disputa, levando dezenas de milhares de votos para um candidato estreante nesse tipo de eleição.

Pode-se discutir se a votação foi suficiente. Não foi.

Pode-se dizer que faltou articulação. Pode-se dizer.

Pode-se afirmar que o grupo precisava de uma votação maior para conquistar a cadeira. Também é verdade.

Mas daí a concluir que Sheila saiu politicamente derrotada existe um oceano de distância.

E talvez seja exatamente aí que esteja o problema da análise: ela parte da conclusão e depois procura números para encaixá-los.

Política não é planilha de Excel

O resultado estadual de Vitória da Conquista também é utilizado como argumento para construir a tese de enfraquecimento. Mais uma vez, a matemática precisa ser acompanhada de contexto.

ACM Neto havia vencido Jerônimo Rodrigues em Conquista em 2022 por uma margem muito superior à registrada em 2026. O fato é verdadeiro.

Mas usar essa diferença automaticamente como prova de que Sheila perdeu força exige ignorar uma coisa básica: eleição não acontece no vácuo.

São eleições diferentes, conjunturas diferentes, candidatos diferentes, alianças diferentes, governos diferentes e, sobretudo, eleitores diferentes diante de circunstâncias diferentes.

A política não é uma planilha de Excel em que basta subtrair uma coluna da outra para descobrir quem morreu politicamente. Se fosse assim, analista eleitoral seria profissão muito mais simples.

E ainda há uma ironia adicional. O artigo tenta apresentar como derrota de Sheila justamente uma eleição na qual ela não foi candidata.

Isso é quase uma inovação metodológica.

A pessoa não concorre, mas perde.

Não recebe voto, mas sua votação é considerada baixa.

Não disputa uma cadeira, mas é responsabilizada pela cadeira que outro não conquistou.

Se essa lógica prosperar, talvez seja necessário começar a criar uma nova categoria eleitoral: o candidato que não estava na urna, mas perdeu mesmo assim.

O saldo político de 2026

Na verdade, Sheila pode ter saído de 2026 com algo muito mais importante do que uma votação pessoal: experiência política.

Ela testou sua capacidade de articulação, expôs seu grupo a uma eleição estadual, mediu forças, identificou fragilidades e, principalmente, mostrou que ainda possui capacidade de transferência eleitoral. E isso acontece enquanto ela continua exercendo o mandato de prefeita.

Portanto, se existe uma leitura legítima a ser feita, ela é muito menos simplista.

Sheila não ganhou uma eleição porque não disputou nenhuma. Mas pode, sim, ser considerada uma das grandes vencedoras políticas de 2026.

Porque vitória política não acontece apenas quando o seu nome aparece na urna.

Às vezes, ela acontece quando você não está na urna e, ainda assim, consegue colocar um nome competitivo no jogo.

Às vezes, ela acontece quando adversários passam horas tentando provar que você está enfraquecido.

E, principalmente, às vezes a vitória está justamente na capacidade de continuar sendo o assunto quando o seu nome nem sequer estava entre os candidatos.

A pergunta, portanto, talvez devesse ser outra:

Se Sheila Lemos está tão enfraquecida assim, por que ainda existe tanta necessidade de provar que ela perdeu?

Talvez porque a política de Vitória da Conquista tenha uma regra antiga: quando um adversário precisa explicar muitas vezes que alguém está politicamente acabado, é possível que o cadáver esteja apenas descansando.

Sheila não foi candidata.

Não disputou cadeira.

Não teve número na urna.

E, ainda assim, conseguiu transferir votos e permanecer no centro do debate político de Vitória da Conquista.

Para quem queria encontrar uma derrota, a urna acabou entregando uma situação um pouco mais incômoda:

Sheila Lemos pode não ter disputado a eleição de 2026. Mas saiu dela como uma das suas grandes vencedoras políticas.

E talvez seja justamente isso que a salada de frutas do artigo tenha dificuldade de digerir.

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Padre Carlos  — colunista político — Política e Resenha