Política e Resenha

A eleição dos desafetos: enquanto os políticos trocam acusações, o Brasil precisa discutir quem paga a conta

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POLÍTICA • DEMOCRACIA • ORÇAMENTO PÚBLICO

A eleição dos desafetos: enquanto os políticos trocam acusações, o Brasil precisa discutir quem paga a conta

Por Padre Carlos

A questão central: enquanto candidatos transformam adversários em inimigos, o Brasil precisa discutir as prioridades do orçamento público, o financiamento dos serviços essenciais e quem suporta o peso das decisões econômicas.

Há uma questão fundamental na fala do professor Robério, reitor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), que merece ser compreendida para além das paixões partidárias. O que ele está denunciando é um problema que atravessa a política brasileira: a transformação das eleições em disputas de rejeição, enquanto as grandes decisões sobre o futuro do país permanecem longe do centro do debate público.

O professor chama a atenção para uma eleição de desafetos, marcada pela dificuldade de apresentar propostas abrangentes para o Brasil. Em vez de discutir os projetos de desenvolvimento, a qualidade dos serviços públicos, a educação dos nossos jovens, a saúde da população e o financiamento da ciência, boa parte do debate político se perde em ataques, provocações e tentativas de desqualificar adversários.

Essa dinâmica interessa a quem deseja transformar a política em espetáculo, mas prejudica uma sociedade que precisa compreender as escolhas que determinam sua vida cotidiana. Afinal, enquanto os candidatos disputam a atenção do eleitor, o orçamento público continua sendo elaborado, negociado e executado. E é justamente nesse terreno, aparentemente árido, que se encontram algumas das decisões mais importantes para o futuro de milhões de brasileiros.

O tesouraço e a pergunta que ninguém deveria evitar

A denúncia de Robério ganha maior relevância quando ele menciona o chamado tesouraço, expressão utilizada no debate público para designar cortes de despesas governamentais. A pergunta que precisamos fazer não é apenas se o governo deve cortar gastos. É necessário perguntar onde cortar, quem será atingido e quais interesses serão preservados.

“Não existe discussão séria sobre responsabilidade fiscal sem transparência quanto às prioridades do Estado.”

O equilíbrio das contas públicas é importante, mas não pode servir de justificativa automática para retirar recursos de áreas essenciais sem que a sociedade conheça as consequências dessas escolhas.

Quando o orçamento é discutido, estamos falando de muito mais do que números, planilhas e porcentagens. Estamos falando de crianças que dependem de uma escola pública de qualidade, de pacientes que aguardam atendimento, de universidades que precisam manter suas atividades e de pesquisadores que buscam soluções para problemas brasileiros.

A dimensão humana do orçamento

Cada decisão orçamentária revela uma escolha sobre o país que queremos construir — e sobre quem terá oportunidades para viver melhor.

Estamos falando, portanto, do modelo de país que pretendemos construir.

Universidade, ciência e desenvolvimento nacional

O professor Robério recorda sua experiência à frente do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação, período em que participou de discussões sobre o orçamento da União com representantes do Congresso Nacional e dos ministérios. Sua manifestação revela uma preocupação legítima de quem conhece os desafios do financiamento da educação superior e da produção científica.

Universidades não são despesas inúteis. São espaços de formação profissional, pesquisa, inovação e desenvolvimento regional. Quando uma universidade pública perde capacidade de investimento, o prejuízo não se limita aos professores e estudantes. A sociedade também perde oportunidades de produzir conhecimento, formar profissionais qualificados e encontrar soluções para seus próprios problemas.

O mesmo raciocínio vale para a saúde e para a seguridade social. Cortes mal planejados podem transferir custos para as famílias, agravar desigualdades e comprometer políticas públicas das quais depende a população mais vulnerável.

A dívida pública e a disputa por prioridades

É nesse contexto que Robério apresenta a questão central de sua fala: a disputa entre diferentes prioridades para a aplicação dos recursos públicos. De um lado, ele critica a concentração de uma parcela expressiva do orçamento nas despesas relacionadas à dívida pública; de outro, defende que educação, saúde, ciência, tecnologia e proteção social recebam atenção compatível com sua importância para o desenvolvimento nacional.

É preciso esclarecer que as despesas com a dívida pública incluem juros, amortizações e refinanciamentos, que possuem naturezas distintas. Por isso, qualquer comparação orçamentária responsável deve identificar exatamente quais despesas estão sendo consideradas, em qual exercício financeiro e segundo qual metodologia. A cifra mencionada pelo professor deve ser examinada à luz desses critérios.

Essa precisão, entretanto, não elimina a pergunta política que está no centro de sua intervenção: quais compromissos devem orientar a distribuição dos recursos arrecadados da população?

O pagamento da dívida pública envolve obrigações financeiras do Estado, credibilidade econômica e custos de financiamento. Mas reconhecer essa realidade não significa considerar intocável toda a estrutura de despesas financeiras, nem dispensar o debate sobre seus custos e efeitos sociais. Da mesma forma, defender investimentos sociais não significa ignorar a necessidade de planejamento e responsabilidade fiscal.

A questão é estabelecer prioridades de maneira transparente, avaliando os impactos de cada escolha sobre o crescimento econômico, a redução das desigualdades e a qualidade dos serviços oferecidos à população.

Banqueiros, população e escolhas políticas

Quando Robério afirma que há uma disputa entre privilegiar os interesses dos banqueiros e atender às necessidades da população mais carente, ele apresenta uma interpretação política sobre os efeitos das escolhas orçamentárias. Essa interpretação merece ser debatida com seriedade, a partir dos números e das propostas concretas de cada projeto político.

O que não podemos aceitar é que o eleitor seja chamado a escolher um presidente apenas pelo amor ou pelo ódio que sente por determinado candidato. Democracia não pode se resumir à rejeição pessoal, à guerra de narrativas ou à repetição de palavras de ordem. A democracia exige que os cidadãos conheçam as propostas, examinem as prioridades e compreendam as consequências das decisões que serão tomadas em seu nome.

Uma eleição precisa ser mais do que rejeição

É nesse ponto que a crítica à eleição dos desafetos encontra seu sentido mais profundo. Uma campanha eleitoral que não discute seriamente o orçamento público deixa de oferecer ao cidadão elementos essenciais para avaliar os projetos em disputa. O eleitor pode até escolher seu candidato, mas corre o risco de fazê-lo sem conhecer suficientemente as decisões econômicas e sociais que estão em jogo.

O professor Robério declara, ao final de sua manifestação, que, no exercício de seu direito de cidadão, continua defendendo o voto em Luiz Inácio Lula da Silva, associando sua posição às políticas públicas brasileiras. Trata-se de uma manifestação política explícita, que deve ser compreendida como expressão de sua avaliação sobre o governo e sobre os caminhos que considera mais adequados para o país.

O debate democrático permite que um reitor, um professor, um trabalhador, um empresário ou qualquer outro cidadão manifeste suas convicções políticas. O que deve ser exigido de todos, independentemente de sua posição ideológica, é a disposição para fundamentar suas afirmações, apresentar evidências e respeitar o direito de quem pensa diferente.

Não é necessário concordar com todas as conclusões de Robério para reconhecer a importância das perguntas que ele coloca. A discussão sobre o orçamento público precisa ocupar um espaço muito maior nas campanhas eleitorais. É preciso saber quanto o país investe em educação, quais são os compromissos financeiros do Estado, como se financiam as políticas sociais e quais resultados se espera alcançar com cada real arrecadado.

O Brasil não pode continuar preso a uma política que transforma adversários em inimigos e trata a discordância como uma ameaça. O país precisa de propostas, planejamento, responsabilidade e compromisso com a população.

Afinal, quem paga a conta?

No fim das contas, a política não se resume à identidade de quem ocupa a Presidência da República. Ela se revela, sobretudo, nas decisões que determinam a distribuição dos recursos públicos, as oportunidades oferecidas às novas gerações e as condições de vida de quem mais precisa da presença do Estado.

A denúncia do professor Robério nos convida a olhar para além do barulho eleitoral. Enquanto os desafetos se enfrentam nos palanques e nas redes sociais, precisamos perguntar o que cada projeto pretende fazer com o dinheiro público e quais consequências suas escolhas terão para o Brasil.

Porque uma eleição não deveria ser apenas uma disputa para descobrir quem derrotará quem. Deveria ser, acima de tudo, uma oportunidade para decidir qual país queremos construir e quais prioridades estamos dispostos a assumir para torná-lo possível.

Sobre o autor

Padre Carlos

Articulista • Política, democracia e análise social

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POLÍTICA, CIDADANIA E COMPROMISSO COM O BRASIL

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