Análise política

A ilusão das redes sociais e o resgate da política real
Por Padre Carlos — Política e Resenha
A política tem suas leis, seus mistérios e suas contradições. Uma delas é a crença de que o barulho produzido nas redes sociais corresponde, necessariamente, à força eleitoral de uma candidatura. Na era dos vídeos curtos, dos influenciadores digitais e dos algoritmos, muitos dirigentes parecem ter confundido a repercussão virtual com a realidade das ruas. Entretanto, uma eleição não se decide apenas pelo que milhões de pessoas assistem nas telas, mas também pelo que sentem, vivenciam e decidem quando precisam escolher seus representantes nas urnas.
O desabafo de um militante de esquerda que se apresenta como realista merece atenção justamente porque toca em uma questão que ultrapassa os limites de uma candidatura ou de um partido. Trata-se de um problema da política contemporânea: a crescente distância entre aqueles que interpretam a realidade a partir das redes sociais e os que precisam compreendê-la a partir do contato direto com a população. Quando a militância passa a conversar predominantemente consigo mesma, corre o risco de construir uma imagem distorcida do país, acreditando que o entusiasmo de sua própria bolha representa o sentimento da maioria dos eleitores.
Quando a ferramenta substitui a estratégia
As redes sociais são instrumentos importantes da comunicação política. Permitem divulgar propostas, apresentar candidatos, combater informações falsas e estabelecer canais de diálogo com a sociedade. Seria um erro subestimar sua influência. O problema começa quando a ferramenta deixa de servir à estratégia e passa a substituí-la. Curtidas não são votos garantidos. Visualizações não significam adesão política. Comentários entusiasmados não representam, necessariamente, a opinião de quem permanece silencioso, observa a disputa à distância e decide seu voto a partir de preocupações muito concretas.
Curtidas não são votos garantidos. Visualizações não significam adesão política.
O eleitor que não cabe na bolha
Uma campanha presidencial exige muito mais do que criatividade na produção de conteúdo digital. Exige capacidade de compreender o eleitor que enfrenta dificuldades para pagar as contas, o trabalhador preocupado com o emprego, o pequeno comerciante que teme o endividamento, a família que convive com a insegurança e o cidadão que, embora tenha votado anteriormente em determinada candidatura, já não demonstra o mesmo entusiasmo. É nesse universo, complexo e contraditório, que se encontra uma parcela decisiva da realidade eleitoral brasileira.
A crítica dirigida à estratégia de comunicação da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva deve ser compreendida nesse contexto. Não basta multiplicar vídeos, repetir mensagens e comemorar a repercussão de determinadas publicações. Uma campanha precisa saber se sua comunicação está alcançando quem ainda não decidiu o voto, se suas propostas respondem às preocupações da população e se a linguagem utilizada consegue dialogar com setores sociais que não se reconhecem integralmente no discurso partidário.
O desafio não consiste em abandonar o ambiente digital, mas em compreender seus limites. A comunicação pela internet pode abrir portas, mas não substitui a construção de confiança. Pode despertar curiosidade, mas não resolve, sozinha, a desconfiança acumulada. Pode ampliar uma mensagem, mas não garante que ela seja recebida da maneira pretendida. A política exige escuta, presença, negociação e capacidade de reconhecer que o eleitor não existe para confirmar as certezas de uma campanha. É a campanha que precisa compreender as inquietações do eleitor.
O mapa eleitoral como diagnóstico
Essa questão ganha relevância quando observamos regiões eleitoralmente importantes, como o Sudeste, particularmente Minas Gerais e São Paulo. A leitura de um resultado eleitoral exige atenção às diferenças regionais, aos perfis dos municípios, às mudanças no comportamento dos eleitores e à capacidade de mobilização das lideranças locais. Não se pode explicar uma votação apenas por uma narrativa nacional, tampouco atribuir eventuais perdas a um único fator. É necessário comparar resultados, identificar tendências e investigar, com dados, onde as expectativas foram ou não correspondidas.
O mapa eleitoral precisa ser mais do que uma ilustração apresentada em reuniões de campanha. Deve funcionar como instrumento de diagnóstico. Essas perguntas são fundamentais para qualquer organização que pretenda compreender o comportamento eleitoral sem se deixar aprisionar pelas próprias convicções:
As perguntas do diagnóstico
Onde houve perda de apoio?
Quais grupos sociais se afastaram?
Que demandas deixaram de ser respondidas?
Quais lideranças mantêm capacidade de diálogo com a população?
Em quais localidades a presença política diminuiu?
Mobilização não é persuasão
Existe, ainda, um aspecto frequentemente negligenciado: a diferença entre mobilização e persuasão. Mobilizar quem já está convencido é uma tarefa importante, mas conquistar quem ainda hesita exige outra abordagem. O militante apaixonado por uma causa pode considerar uma mensagem perfeitamente clara, enquanto o cidadão que não acompanha diariamente a política pode recebê-la com indiferença ou até com desconfiança. A comunicação que funciona para fortalecer uma base não é necessariamente a mesma que permite ampliar o diálogo com outros segmentos da sociedade.
É por isso que o eleitor do centro e as populações das periferias não podem ser tratados como simples alvos de propaganda. São cidadãos com experiências, interesses e expectativas diferentes. Muitos podem reconhecer avanços sociais de um governo e, simultaneamente, manifestar insatisfação com aspectos de sua atuação. Outros podem compartilhar determinadas propostas sem se identificar com o partido que as apresenta. A política democrática começa a compreender essas contradições quando abandona a tentação de dividir a sociedade entre os que concordam e os que precisam ser convencidos a qualquer custo.
Autocrítica e presença permanente
Nesse cenário, a qualidade da assessoria política também merece reflexão. A experiência de um candidato é um patrimônio, mas não o torna imune a erros. Quanto maior a responsabilidade pública, maior deve ser a disposição para ouvir críticas fundamentadas, confrontar informações e rever decisões. Uma equipe eficiente não é aquela que apenas confirma as opiniões do líder, mas aquela que apresenta diagnósticos honestos, identifica riscos e oferece alternativas, mesmo quando suas conclusões contrariam expectativas.
A autocrítica, nesse sentido, não deve ser confundida com fraqueza. Ao contrário, é um instrumento de maturidade política. Uma campanha que não consegue reconhecer suas dificuldades corre o risco de repetir estratégias ineficazes simplesmente porque já investiu recursos, tempo e prestígio nelas. Rever a comunicação, reorganizar prioridades e fortalecer o trabalho territorial são medidas que precisam decorrer de uma avaliação concreta, e não de reações improvisadas a cada oscilação da disputa.
Também é necessário compreender que a política real não se resume ao corpo a corpo em períodos eleitorais. Visitar bairros, conversar com lideranças comunitárias e ouvir trabalhadores são práticas importantes, mas perdem credibilidade quando acontecem apenas na proximidade das urnas. A presença territorial precisa ser permanente. O eleitor percebe a diferença entre quem aparece para pedir apoio e quem mantém vínculos, acompanha problemas e participa da busca por soluções durante todo o mandato.
A política continua sendo humana
A democracia não pode ser reduzida a uma disputa de narrativas digitais. Ela depende de instituições, organizações partidárias, movimentos sociais, lideranças comunitárias e cidadãos capazes de discutir os problemas coletivos. Quando a atividade política se transforma em espetáculo permanente, existe o risco de que a aparência de participação substitua a participação efetiva. O debate fica mais acelerado, mas nem sempre mais profundo; as mensagens circulam com maior velocidade, mas nem sempre produzem compreensão; os discursos ganham alcance, mas nem sempre estabelecem confiança.
A lição que emerge dessa discussão vale para a esquerda, para a direita e para o centro. Nenhum campo político está protegido contra a ilusão de confundir aplausos com apoio social, engajamento digital com legitimidade ou convicção ideológica com conhecimento da realidade. A tecnologia modifica os instrumentos da disputa, mas não elimina a necessidade de compreender as condições materiais de vida da população, respeitar a diversidade de opiniões e reconhecer que o eleitor possui autonomia para mudar de posição.
No fim das contas, a política continua sendo uma atividade humana antes de ser uma operação tecnológica. Os algoritmos podem ajudar a distribuir mensagens, os vídeos podem tornar uma proposta conhecida e as redes podem ampliar o alcance de um discurso. Mas a confiança não se produz por decreto, a insatisfação não desaparece com uma publicação e a realidade não se curva à vontade de quem controla a comunicação.
O verdadeiro desafio de uma campanha não é dominar as redes sociais, mas compreender a sociedade que existe para além delas. É saber ouvir antes de falar, diagnosticar antes de reagir e corrigir os rumos antes que a autoconfiança se transforme em cegueira estratégica. A política real começa quando os dirigentes deixam de perguntar apenas quantas pessoas receberam sua mensagem e passam a investigar quantas compreenderam suas propostas, quais problemas esperam ver resolvidos e por que ainda não confiam em suas promessas.
As redes sociais continuarão ocupando um lugar central nas eleições. Ignorá-las seria um equívoco. Transformá-las no centro absoluto da estratégia, porém, pode ser igualmente perigoso. Entre a ilusão dos números digitais e a complexidade do voto existe uma sociedade que não cabe inteiramente em nenhuma tela. É nessa sociedade, com suas contradições, suas necessidades e sua capacidade de julgamento, que a política precisa reencontrar o seu verdadeiro sentido.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha



