Política e Resenha

SHEILA LEMOS, A VITORIOSA:

Política e Resenha · Vitória da Conquista

 O DESESPERO DE QUEM CONFUNDE TRANSFERÊNCIA DE VOTOS COM DERROTA POLÍTICA

Por Padre Carlos

Há discursos que revelam a grandeza de um parlamentar. Outros, por uma ironia quase involuntária, revelam o tamanho da dificuldade que ele tem para aceitar a realidade. Na tribuna da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, nesta semana, um vereador resolveu anunciar a derrota política da prefeita Sheila Lemos. Fez comparações, distribuiu gargalhadas, recitou números e até ensaiou uma previsão para 2028. Faltou combinar com os fatos.

O espetáculo foi interessante. A matemática, nem tanto.

O vereador parece ter descoberto uma nova modalidade de análise eleitoral: quando o adversário vence, a vitória vira derrota; quando o candidato governista recebe votos, eles são insuficientes; quando a oposição perde, basta proclamar que quase ganhou. É uma espécie de milagre estatístico: o derrotado sai da urna, entra na tribuna e, depois de algumas gargalhadas, transforma o revés em triunfo.

Wagner Alves foi o candidato mais votado da cidade, para a oposição isto é derrota. O governador não ganhou em Vitória da Conquista, para o vereador isto é vitória. Mais a risada do vereador tenta inverter a lógica.

Quá, quá, quá!

A gargalhada, nesse caso, parece funcionar como anestesia política. Afinal, quando a realidade incomoda, rir dela talvez seja mais confortável do que explicá-la.

A matemática que não cabe no discurso

Vamos aos números apresentados pelo próprio vereador.

Sheila Lemos recebeu aproximadamente 116 mil votos na eleição municipal. Seu marido, candidato a deputado estadual, obteve cerca de 33 mil votos em Vitória da Conquista. A partir dessa diferença, o parlamentar concluiu que a prefeita teria sido a grande derrotada do processo eleitoral.

Mas desde quando o resultado de uma eleição municipal pode ser transportado mecanicamente para uma eleição proporcional, com candidatos, partidos, alianças, concorrências e circunstâncias completamente diferentes?

A eleição para prefeito mobiliza uma disputa local, na qual os eleitores escolhem quem administrará a cidade. A eleição para deputado estadual envolve outra dinâmica, com candidaturas concorrentes, estruturas partidárias e interesses políticos que não se resumem à popularidade de um prefeito.

Exigir que uma prefeita transfira integralmente seus votos para outro candidato é desconhecer o funcionamento elementar da política ou fingir desconhecê-lo para produzir uma manchete favorável.

Sheila não disputou uma eleição. Seu marido disputou. E foi justamente nessa diferença que o vereador construiu uma conclusão que os números, isoladamente, não autorizam.

~116 mil

votos de Sheila Lemos
(eleição municipal)

~33 mil

votos do marido
(deputado estadual, em Conquista)

28,4%

transferidos
em outra eleição

Segundo os dados apresentados, foram aproximadamente 33 mil votos, equivalentes a 28,4% dos 116 mil votos atribuídos à prefeita. Arredondando, quase 30%.

Isso significa que um percentual permite sustentar uma tese política relevante: uma parcela expressiva do eleitorado de uma prefeita conseguiu se converter em apoio a uma candidatura diferente, em outra eleição.

E aqui está a pergunta que o discurso da tribuna convenientemente evita: quantos votos o partido do candidato derrotado conseguiu mobilizar em favor de seus próprios representantes? Foram eleitos? E qual foi o saldo político da disputa para esse grupo?

Porque, se a régua é o resultado das urnas, ela precisa valer para todos. Não se pode exigir do adversário uma transferência perfeita de votos e, ao mesmo tempo, oferecer à própria legenda o benefício da interpretação criativa.

A comparação que parece brilhante até ser examinada

O vereador citou Itabuna, São Sebastião do Passé e Luís Eduardo Magalhães, apresentando percentuais de votação de candidatos apoiados por prefeitos.

A comparação pode render discurso. Não necessariamente produz uma conclusão séria.

Cada município tem sua própria realidade eleitoral. Mudam os candidatos, os partidos, a força das oposições, as alianças, a competitividade das chapas e a natureza das disputas. Comparar percentuais sem examinar essas diferenças é como comparar o desempenho de dois corredores sem verificar se ambos percorreram a mesma distância.

E ainda há uma ironia: se o critério de sucesso de uma liderança política é a capacidade de transferir votos para um familiar, então o vereador deveria explicar por que considera esse indicador tão decisivo quando fala de Sheila, mas não parece interessado em aplicar a mesma exigência a todos os grupos políticos.

A crítica à chamada “capitania hereditária” pode ser legítima. A população tem todo o direito de questionar candidaturas familiares, discutir renovação política e cobrar coerência dos seus representantes. Mas esse debate exige argumentos, não apenas apelidos e comparações escolhidas a dedo.

O problema não é criticar Sheila. O problema é apresentar uma interpretação parcial como se fosse uma sentença definitiva das urnas.

A grande derrotada? Olhemos para o outro lado da mesa

A tese de que Sheila Lemos foi a maior derrotada da eleição tem um inconveniente: ela desloca o olhar do resultado concreto para uma narrativa conveniente à oposição.

A prefeita continua sendo a principal liderança do grupo político que administra Vitória da Conquista. Seu capital eleitoral não desapareceu porque um candidato apoiado por ela recebeu menos votos do que os seus na eleição municipal. Tampouco se pode concluir que ela perdeu sua força política simplesmente porque o governador Jerônimo Rodrigues ampliou sua votação local.

É perfeitamente possível que um governador cresça eleitoralmente em determinada cidade sem que isso represente a destruição da liderança municipal que ali existe. Não vamos entrar aqui nas obras na véspera da eleição nos distritos do município pelo governo do estado. As eleições têm disputas diferentes, e o eleitor não é propriedade de ninguém.

Aliás, convém abandonar uma velha fantasia da política brasileira: a de que os votos pertencem aos chefes políticos, como se o cidadão fosse um título de propriedade transferível por escritura pública.

Sheila não é dona dos votos que recebeu. Mas seus adversários também não são donos dos votos que conquistaram. O eleitor escolhe, muda de opinião, distingue candidaturas e pode votar em um partido para uma disputa e em outro para a seguinte.

A liberdade do eleitor não pode ser tratada como prova de incompetência da prefeita quando o resultado desagrada a oposição.

Agora, se queremos discutir derrotas políticas, há uma questão muito mais interessante: o que aconteceu com o partido que apresentou o candidato derrotado e durante décadas exerceu influência decisiva sobre o campo da esquerda em Vitória da Conquista?

Aí, sim, começa uma conversa que merece atenção.

O PT perdeu mais do que uma disputa, mais do que um mandato: perdeu a exclusividade de representar a esquerda

O Partido dos Trabalhadores construiu uma história importante em Vitória da Conquista. Governou o município por sucessivos mandatos, formou quadros, consolidou uma identidade política e ocupou durante anos uma posição central no campo progressista local.

Mas nenhuma hegemonia é eterna. E a história política não oferece certificado de propriedade vitalícia a partido algum.

O crescimento de outras forças, a mudança no comportamento do eleitorado e a emergência de novas lideranças colocaram em questão a antiga centralidade petista. A derrota eleitoral de uma candidatura ligada a esse campo não explica, sozinha, toda essa transformação, mas pode integrar um processo mais amplo de perda de protagonismo.

É nesse contexto que a posição do deputado estadual Jean Fabrício Falcão, do PCdoB, ganha importância para o futuro da esquerda conquistense.

Se o PT pretende continuar tratando a candidatura à Prefeitura em 2028 como uma espécie de direito adquirido, convém que examine o tamanho real de sua força eleitoral. A política não funciona como cartório partidário, no qual um grupo apresenta documentos antigos e exige a renovação automática da propriedade.

Se os petistas não construírem uma aliança consistente com Fabrício, terão de enfrentar uma disputa interna no campo progressista em que o PCdoB poderá reivindicar espaço com base em sua própria representação e capacidade de articulação.

Provocação

Se o PT insistir em confundir tradição com hegemonia, poderá descobrir, na próxima eleição municipal, que a história não vota. Quem vota é o eleitor.

A afirmação de que o PT terá menos votos do que Fabrício em 2028 é uma hipótese política, não um fato consumado. Mas é uma hipótese que merece ser discutida diante da fragmentação do campo progressista e da disputa por liderança.

O que já não se sustenta é a ideia de que o partido tem direito natural de comandar a esquerda conquistense, independentemente dos resultados, das alianças e da capacidade de apresentar um projeto convincente à cidade.

Jerônimo cresceu. E daí?

O vereador também comemorou o crescimento da votação de Jerônimo Rodrigues e a redução da diferença entre os candidatos ao governo da Bahia em Vitória da Conquista.

É um dado politicamente relevante. O governador pode, legitimamente, reivindicar o crescimento de sua votação como um sinal de ampliação de sua presença eleitoral no município. Negar isso seria cometer o mesmo erro que o vereador comete ao interpretar os números de maneira seletiva.

Mas há uma diferença entre reconhecer o avanço de um adversário e declarar a derrota de quem continua ocupando uma posição central na política municipal. Afinal, Neto ganhou para Jerônimo e o marido da prefeita foi o mais votado. Onde está a derrota que o vereador está bradando?

Uma eleição estadual mede a disputa estadual. Uma eleição municipal mede a disputa municipal. A primeira pode oferecer pistas sobre a segunda, mas não funciona como profecia automática para 2028.

O próprio vereador reconhece que a oposição não conseguiu virar o resultado. Ainda assim, apresenta o quase como se fosse uma espécie de vitória moral.

Na política, porém, o quase tem uma característica cruel: não ocupa mandato, não altera o resultado oficial e não transforma expectativa em realidade.

É claro que o crescimento de Jerônimo deve ser observado por Sheila e por seu grupo. Lideranças competentes não ignoram adversários nem desprezam sinais eleitorais. Mas monitorar o crescimento da oposição é uma coisa; aceitar o veredicto de derrota anunciado por um vereador é outra, bem diferente.

Sheila não precisa fingir que a oposição é fraca. Precisa continuar demonstrando que seu projeto político tem consistência, capacidade administrativa e condições de dialogar com a população.

Sheila venceu uma eleição. A oposição ainda precisa vencer a próxima.

A discussão sobre a sucessão de 2028 já começou, e isso é natural. Sheila terá de administrar seu governo, preservar alianças, enfrentar críticas e preparar seu grupo para a próxima disputa. Nenhuma liderança tem garantia de vitória futura.

Mas é precisamente por isso que o debate precisa abandonar a fantasia de que uma eleição pode ser reescrita por meio de gargalhadas na tribuna.

A prefeita foi uma grande vitoriosa na eleição municipal que a consagrou. Seu candidato apoiado para deputado, segundo os números apresentados, recebeu cerca de 33 mil votos na cidade. Isto não autoriza decretar sua derrota com base em uma transferência integral de votos que jamais poderia ser presumida.

O que se pode afirmar é que a liderança de Sheila continua sendo um elemento incontornável da política conquistense. Seus adversários sabem disso. Se não soubessem, talvez não dedicassem tanto tempo a tentar convencer a cidade de que ela já perdeu uma eleição que, na verdade, não estava disputando.

A oposição tem todo o direito de comemorar o crescimento de Jerônimo, criticar a administração municipal e questionar as escolhas políticas da prefeita. O que não pode é exigir que o eleitor vote como um cabo eleitoral obediente e, quando isso não acontece, transformar a autonomia do cidadão em prova de fracasso alheio.

No fim das contas, a pergunta que fica não é se Sheila transferiu 30%, 40% ou 50% dos seus votos. É outra: quem está preparado para disputar Vitória da Conquista em 2028 com um projeto capaz de convencer a maioria da população?

Sheila terá de responder a essa pergunta com governo, articulação e resultados. O PT terá de responder com renovação, alianças e capacidade de reconhecer que já não pode reivindicar sozinho o comando da esquerda. E os demais partidos terão de demonstrar que são mais do que satélites de uma disputa polarizada.

Quanto ao vereador, fica uma sugestão: antes de anunciar a derrota dos adversários, seria prudente verificar se não está apenas descrevendo os próprios temores.

Porque a política tem dessas ironias. Às vezes, quem sobe à tribuna para proclamar o fim de uma liderança acaba revelando, sem perceber, o quanto ainda precisa dela como adversária.

E 2028, ao contrário do que supõem os profetas de plenário, não será decidido pelo volume das gargalhadas de hoje. Será decidido pelos eleitores de amanhã.

Sheila Lemos
Vitória da Conquista
Eleições 2026
Eleições 2028
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Jerônimo Rodrigues
Câmara Municipal

Padre Carlos

Teólogo, sacerdote e colunista político

Política e Resenha — A gênese do poder é a verdade.