Opinião · Política e Resenha

A lanterna de Diógenes e a vela de Cosme de Farias
Dois gestos teatrais, séculos e oceanos de distância, uma mesma pergunta: onde está a virtude quando ela mais falta?
Folheando as mensagens dos grupos de WhatsApp, entre correntes e bom-dia de flores, deparei-me com uma citação atribuída a Diógenes sobre princípios morais. A frase ficou comigo, e pensei logo no filósofo que, em plena luz do dia, andava pelas ruas de Atenas com uma lamparina acesa, dizendo procurar um homem. Procurava, claro, um homem de verdade, íntegro, coerente entre o que diz e o que faz.
Foi então que me veio à memória um baiano que fez, nos tribunais, o que Diógenes fez nas praças: Cosme de Farias.
Um rábula entre os pobres
Para os mais jovens, vale a apresentação. Cosme nasceu em Salvador, de origem humilde, filho de pequeno comerciante, mulato, com instrução formal modesta. Nunca frequentou os bancos de uma faculdade de Direito. Era rábula, advogado provisionado, autorizado a militar nos foros sem o diploma que os poderosos exibiam nas paredes. E, no entanto, defendeu milhares de pobres, gente para quem a Justiça era uma palavra bonita e distante, escrita em latim e reservada a quem podia pagar.
Conta a tradição oral, que na Bahia vale quase tanto quanto os autos, que num julgamento em que o réu era vítima de evidente injustiça, Cosme se levantou da plateia, vela acesa na mão, e caminhou até o juiz e os jurados com ar de quem busca algo perdido. O magistrado, irritado, quis saber o que significava aquilo. A resposta veio sem pressa: procurava a Justiça, que naquela casa andava escondida.
A lanterna e a vela
Percebam a semelhança. Diógenes carregava a lamparina atrás de um homem honesto. Cosme, uma vela atrás da Justiça. Os dois usaram o gesto teatral para dizer o que o discurso comum não consegue:
A virtude, quando escasseia, precisa ser procurada, e quem finge não ver a falta merece ser constrangido por ela.
Não se trata apenas de folclore. O humor de Cosme era método, não vaidade. Ele sabia que o riso desarma o formalismo e que uma imagem forte entra onde o argumento seco esbarra. Mas por trás da graça havia uma convicção séria: o direito existe para proteger o fraco, e uma Justiça que só funciona para quem tem honorários é uma Justiça em falta, por mais togas e liturgias que ostente.
Coragem moral não se pendura na parede
Há, aqui, uma lição que o Brasil de hoje não deveria esquecer. Cosme não precisou de diploma para ter o que muitos diplomados perdem pelo caminho: a coragem moral. Seu título era o compromisso. Seu patrimônio, a confiança de quem não tinha mais ninguém. Num tempo em que o prestígio se mede por cargo, seguidores e cartão de visita, a trajetória do velho rábula nos lembra que a autoridade verdadeira nasce do serviço, e não do pergaminho.
Isso não é elogio à ignorância das letras jurídicas, que seriam um absurdo, nem ataque ao estudo formal, que é conquista preciosa. É o contrário: é a prova de que o saber só vira justiça quando se põe a serviço de alguém. Quantos doutores conhecemos que sabem o artigo, o inciso e a súmula, mas desconhecem o rosto do aflito que está à sua frente? Cosme sabia o rosto de cada cliente.
Dois homens, uma recusa
Diógenes, dizem, morava num tonel e pedia a Alexandre, o Grande, apenas que saísse da frente do seu sol. Cosme viveu entre os humildes e a eles dedicou os dias. Ambos recusaram as vaidades do mundo e fizeram da própria vida uma espécie de argumento moral. É por isso que seguimos lembrando deles, e não dos que passaram por cima de todos para chegar a lugar nenhum.
Acender a própria luz
Que as novas gerações de advogados, juízes, promotores e, por que não, ministros do STF e cidadãos, aprendam com o baiano da vela. Quando a Justiça parecer escondida, é dever de cada um acender a sua luz e sair à procura. E, se possível, com a coragem e o bom humor de Cosme de Farias.
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Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha




