Política e Resenha

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Apareceu em pedaços, e foi assim que se tornou Mãe de todos nós

Política e Resenha · Reflexão de Aparecida

Por Padre Carlos

Em 1717, três pescadores lançaram suas redes no Rio Paraíba do Sul esperando peixe. Era a pesca de gente pobre, cansada, que precisava de algum alimento para a mesa. Vieram o corpo de uma imagem e, depois, a cabeça. A Mãe do Brasil nos chegou partida, escura de barro e de rio, e foi preciso unir os pedaços para que ela voltasse a ser inteira.

Eu volto a essa cena toda vez que chega outubro. E neste ano, ao ler a reflexão de Dom Delson, entendi por que ela me comove tanto.

Uma beleza que não se esconde

Ele nos lembra que a beleza mais funda não está em esconder as marcas do tempo, mas em deixar que o amor de Deus atravesse a nossa carne. Maria conheceu a pobreza, a fuga, a incompreensão e a dor de ver o Filho na cruz. Nada disso foi apagado. Foi acolhido, e a dor virou entrega, fidelidade, esperança.

Pense em quantas vezes você se sentiu como aquela imagem no fundo do rio. O casamento que se quebrou. A doença que chegou sem aviso. O filho que se distanciou. A empresa que faliu, o emprego que acabou, o luto que ninguém viu. Fingimos que está tudo bem porque vivemos numa época que aplaude a vida bem arrumada. Mas só nós sabemos quantos pedaços carregamos por dentro.

E é para esses pedaços que a história de Aparecida fala.

A graça não é prêmio para quem nunca se quebrou. É a mão que entra no rio escuro e puxa de volta o que o mundo já tinha dado por perdido.

Deus não esperou que a imagem estivesse perfeita para ser venerada. Ela foi recolhida do jeito que estava, pelas mãos calejadas de homens simples, e só depois restaurada. Assim também Deus nos recolhe: antes de nos consertar, ele nos acolhe.

A Mãe de rosto negro

E há algo que dói em mim, como brasileiro e como padre. Essa Mãe tem o rosto negro e foi encontrada por gente pobre. Milhões de brasileiros, em especial os que o país tantas vezes tratou como descartáveis, se reconheceram nela. Diante de Aparecida, ninguém devia se sentir invisível.

Então eu pergunto, sem acusar ninguém e começando por mim: como podemos beijar o manto da Mãe e fechar a porta ao filho que bate com fome? Como rezamos diante de um rosto negro e toleramos o desprezo pelos rostos negros que encontramos na rua? A devoção que não chega à calçada é só um enfeite.

Missão é permanecer

Dom Delson diz que a missão da Igreja não é propaganda religiosa, mas sinais concretos de amor: uma palavra de consolo, uma escuta sincera, um gesto de perdão, a defesa da dignidade, a proximidade com os pobres. Concordo. Missão não é pregar para multidões. É sentar ao lado de quem chora e não ter pressa de ir embora.

Por isso, este 12 de outubro vai ficar vazio se eu me contentar em cantar parabéns à Mãe. Quero fazer três coisas, e convido você a fazer comigo.

Três gestos para esta semana

Telefonar para aquela pessoa que você deixou de procurar porque o orgulho falou mais alto.

Visitar quem está sozinho, sem levar sermão, só levando o corpo e o tempo.

Pedir perdão, ou conceder, a quem o ressentimento nos prendeu por anos.

São gestos pequenos. Mas foram mãos pequenas que puxaram Aparecida do rio, e foi um povo pobre que a fez Rainha.

Quando a nossa vida terminar, ninguém vai medir o que acumulamos. Vão lembrar se estivemos presentes, se fomos abrigo, se alguém pôde dizer que, ao nosso lado, caminhar doeu menos.

Oração

Mãe Aparecida, tu que chegaste partida e te deixaste recolher, ensina-nos a não esconder as nossas feridas, e a não desprezar as dos outros. Faz de nós rede que recolhe, e não muro que separa. Que o teu povo, ferido e teimoso, descubra outra vez que ninguém é demais, ninguém é resto, ninguém é irrecuperável diante de Deus.

Amém.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha