Política e Resenha

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O tempo em que o tempo tinha tempo

Crônica · Memória · Saudade

Padre Carlos  — Política e Resenha

Há épocas da vida que não ficam para trás. Permanecem guardadas em algum lugar da memória, como fotografias amareladas pelo tempo, esperando que uma lembrança qualquer abra a gaveta da saudade. Basta ouvir uma canção antiga, sentir o cheiro do café passado no coador de pano ou escutar o chiado de um disco de vinil para que, de repente, o passado volte a respirar dentro de nós.

Quando olho para as décadas de 1960 e 1970, sinto uma espécie de gravidade poética. Não sei se era o mundo que girava mais devagar ou se éramos nós que ainda não tínhamos aprendido a correr sem sair do lugar. Sei apenas que havia uma cadência diferente nos dias, uma demora que não era desperdício, mas parte da própria arte de viver.

A cerimônia das pequenas coisas

Naquele tempo, a televisão era de válvula, em preto e branco, e às vezes a imagem precisava de um pequeno ajuste para que tudo voltasse ao normal. O rádio ocupava um lugar de honra na casa, e o café, preparado com paciência no coador de pano, perfumava a manhã como se anunciasse que a vida, apesar de todas as suas dificuldades, ainda nos oferecia pequenas cerimônias de felicidade.

Ter telefone em casa era sinal de distinção. Meu vizinho, o senhor Jolpery, possuía um aparelho, e guardo até hoje o número na memória: 5 75 10. É curioso como certos números sobrevivem ao tempo com mais fidelidade do que muitos rostos. Posso esquecer detalhes de acontecimentos importantes, mas aquele número continua ali, intacto, como uma pequena senha para entrar novamente na infância.

Telefonar para outra cidade ou para outro estado era uma aventura que exigia paciência. Era preciso recorrer à telefonista da Radional e solicitar uma ligação interurbana. Ela informava que, dentro de três ou quatro horas, retornaria a chamada para completar a comunicação. Imaginem isso nos dias de hoje, quando nos irritamos se uma mensagem demora alguns minutos para receber resposta!

Naquela época, a distância tinha corpo. Era preciso esperar por ela.

Hoje, atravessamos oceanos com um toque na tela, conversamos por vídeo com pessoas que estão do outro lado do planeta e recebemos notícias antes mesmo que os acontecimentos terminem. Entretanto, no meio de tanta velocidade, parece que perdemos alguma coisa que não sabemos muito bem nomear. Talvez tenhamos encurtado as distâncias geográficas e aumentado as distâncias humanas.

Na minha juventude, um compromisso era firmado com a palavra. Marcávamos um encontro na praça, na esquina da padaria ou debaixo da sombra de uma árvore. Não havia localização compartilhada, mensagem de última hora ou aviso de que estávamos chegando. Havia apenas o horário combinado e a confiança de que o outro apareceria.

E aparecia.

A palavra empenhada tinha um peso especial. A pontualidade era uma questão de honra, e deixar alguém esperando não era apenas uma inconveniência: era uma espécie de desconsideração com o tempo alheio.

Talvez porque o tempo fosse uma das poucas riquezas que todos compreendiam, mesmo sem saber explicá-la.

As notícias também tinham seu ritual. O jornal de papel chegava às mãos do leitor e era folheado com calma, de manhã ou depois do almoço. Havia os noticiários da televisão, o Jornal Nacional, o Repórter Esso, e as vozes que saíam dos radinhos de pilha, companheiros inseparáveis de tantas casas brasileiras. Nas ondas do rádio, ouvíamos a Tupi e a Globo. As notícias chegavam acompanhadas pela imaginação, porque nem tudo podia ser visto, fotografado ou transmitido ao vivo.

O mundo entrava em nossa casa pela voz de alguém. E nós aprendíamos a escutar.

A Pituba, a calçada e o vinil

Na Pituba daquele tempo, em Salvador, as ruas pertenciam também aos moradores. As calçadas eram extensões das salas de estar, os portões permaneciam abertos e a vizinhança constituía uma espécie de família ampliada. O vizinho sabia quem éramos, conhecia nossos pais, perguntava por nossos irmãos e, não raro, percebia nossas tristezas antes mesmo que tivéssemos coragem de falar sobre elas.

As crianças brincavam na rua, inventavam seus próprios brinquedos e transformavam qualquer pedaço de chão em território de aventuras. Não precisavam de uma programação sofisticada para serem felizes. Bastava uma bola, alguns amigos e a liberdade de chegar em casa quando a noite começasse a tomar conta do céu.

As conversas aconteciam nas calçadas, sob a luz amarelada dos postes. Os adultos falavam da vida, da política, das dificuldades, dos sonhos e das pequenas tragédias domésticas. Às vezes, uma garrafa de guaraná em vidro retornável circulava entre as pessoas, e ninguém parecia preocupado em registrar o encontro para provar, depois, que estivera ali.

Estávamos ali porque queríamos estar.

O toca-discos de vinil também tinha seus encantos. Antes da música, havia o gesto cuidadoso de retirar o disco da capa, segurá-lo pelas bordas e colocá-lo sobre o prato. Depois vinha aquele pequeno chiado, como se o próprio passado estivesse limpando a garganta antes de começar a cantar. E então a música preenchia a sala, atravessava a casa e se misturava às conversas.

Não havia listas intermináveis de reprodução, nem a necessidade de escolher entre milhões de canções. Havia um disco, uma sequência e a disposição de escutar. Conhecíamos as músicas de cor, esperávamos ansiosamente por determinadas passagens e, muitas vezes, uma canção acabava se tornando a trilha sonora de um amor, de uma despedida ou de uma época inteira.

O curioso é que, enquanto vivíamos tudo aquilo, não sabíamos que estávamos construindo lembranças. Ninguém acordava pela manhã pensando: hoje vou produzir uma memória inesquecível. A vida acontecia sem pedir licença, e nós a atravessávamos acreditando que haveria sempre outro domingo, outra conversa na calçada, outra tarde de brincadeiras, outro encontro na esquina.

Só mais tarde descobrimos que a eternidade também se esconde nas coisas passageiras.

Sem paraíso, mas com saudade

Não quero, entretanto, transformar o passado em um paraíso que nunca existiu. Aqueles anos tiveram suas injustiças, suas limitações, suas dificuldades materiais e seus silêncios dolorosos. Havia menos recursos médicos, menos acesso à informação e muitas liberdades que precisaram ser conquistadas. A nostalgia não deve nos impedir de reconhecer as contradições de uma época.

Mas reconhecer os defeitos daquele mundo não significa renunciar ao que ele possuía de precioso.

A modernidade nos deu conforto, rapidez e possibilidades extraordinárias. A tecnologia aproximou famílias, democratizou conhecimentos e abriu janelas para realidades antes inacessíveis. Seria absurdo negar essas conquistas. O problema começa quando confundimos conexão com intimidade, informação com sabedoria e velocidade com qualidade de vida.

Hoje, podemos conversar com dezenas de pessoas sem conversar verdadeiramente com nenhuma. Podemos passar horas diante de uma tela e terminar o dia com a sensação de que não estivemos inteiramente presentes em lugar algum. Fotografamos o almoço antes de comê-lo, registramos o passeio antes de contemplá-lo e, às vezes, interrompemos uma conversa para responder a alguém que nem sequer está na mesma sala.

É como se tivéssemos aprendido a estar em todos os lugares, menos naquele em que nosso corpo se encontra.

Talvez seja essa a grande saudade que sinto daqueles anos: não exatamente do telefone antigo, do rádio de pilha, da televisão em preto e branco ou do guaraná na garrafa de vidro. Sinto saudade de uma forma de habitar o tempo. De quando as coisas exigiam espera e, por isso mesmo, ensinavam paciência. De quando o encontro dependia da presença e a amizade precisava ser cultivada na convivência, sem atalhos digitais.

Sinto saudade, sobretudo, da ilusão generosa de que a vida ainda era comprida, de que o futuro estava distante e de que haveria tempo suficiente para fazer tudo aquilo que desejávamos.

O que permanece

Mas o tempo passou. A Pituba mudou, as ruas ganharam outros contornos, os antigos vizinhos seguiram seus caminhos e algumas vozes desapareceram para sempre. O senhor Jolpery não está mais aqui entre nós, só restou o número que guardo na memória. E eu, que um dia fui o menino que vivia aquele mundo sem perceber sua preciosidade, agora o revisito com a consciência de quem sabe que nenhuma época retorna exatamente como foi vivida.

Envelhecer é descobrir que certas perdas não levam apenas pessoas e lugares. Levam também a maneira como enxergávamos o mundo quando essas pessoas e esses lugares ainda existiam.

Há uma tristeza delicada nisso, mas também uma forma de gratidão. Porque recordar é uma maneira de impedir que tudo desapareça completamente. Enquanto eu me lembrar do número 5 75 10, do café no coador de pano, dos radinhos de pilha, das calçadas da Pituba e das tardes que pareciam não terminar, uma parte daquele mundo continuará vivendo em mim.

Talvez a verdadeira maturidade consista justamente em compreender que não podemos recuperar o tempo, mas podemos salvar alguma coisa dele. Podemos reaprender a escutar, voltar a olhar nos olhos, sentar à mesa sem pressa e oferecer ao outro aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: nossa presença inteira.

O mundo continuará acelerando. Novas máquinas surgirão, novas formas de comunicação transformarão nossos hábitos e outras gerações terão suas próprias saudades. Não há como deter essa marcha, nem seria desejável fazê-lo.

Mas ainda podemos escolher a velocidade com que amamos, a atenção com que escutamos e o cuidado com que atravessamos os dias.

Porque, no fim, talvez a maior riqueza daqueles anos não estivesse naquilo que tínhamos, mas na maneira como vivíamos o que tínhamos.

E quando a noite chega, quando o silêncio toma conta da casa e a memória resolve passear pelos corredores do passado, volto a ouvir, dentro de mim, aquele rádio antigo. Há um chiado discreto, uma música distante e a voz de alguém que parece vir de muito longe.

Então compreendo que o tempo não volta, mas também não vai embora por inteiro.

Algumas coisas permanecem. Um número de telefone. Uma canção. O cheiro do café. A sombra de uma árvore. O rosto de um vizinho. Uma rua da infância.

E a saudade, essa velha companheira, nos ensina que houve um tempo em que o mundo parecia mais lento, a vida parecia mais longa e nós ainda não sabíamos que estávamos sendo felizes.

Talvez seja por isso que, de vez em quando, eu deseje apenas uma tarde sem urgência, um café passado no coador de pano e uma longa conversa na calçada.

Sem notificações. Sem relógio. Sem pressa.

Apenas a vida acontecendo.

Como antigamente.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha