Política e Resenha

Há despedidas que parecem uma morte

Reflexão · Padre Carlos

Sobre o luto de uma história que termina enquanto as pessoas continuam vivas

Ninguém sabe o quanto eu chorei naquele dia.

Mesmo depois de quase quatro décadas, ainda me lembro. Há acontecimentos que o tempo não consegue apagar. Eles podem perder a nitidez dos detalhes, mas permanecem intactos em algum lugar secreto da alma. E, de repente, basta uma música, uma palavra, um cheiro, um lugar ou simplesmente o silêncio de uma noite para que tudo volte.

Naquele dia, meu mundo desabou.

Não foi apenas uma despedida. Foi como se alguém tivesse arrancado de mim uma parte do futuro que eu havia imaginado. Todos os projetos de vida desapareceram de uma hora para outra. Aquilo que parecia tão certo deixou de existir. O mundo ficou estranho, feio, sem graça.

O luto para o qual ninguém nos prepara

E talvez a maior dificuldade tenha sido compreender que algumas perdas não acontecem porque alguém morreu.

Há pessoas que continuam vivas, seguem seus caminhos, constroem outras histórias, sorriem, envelhecem, fazem novos planos. Mas, para quem fica, alguma coisa morreu naquele instante.

Morreu o “nós”.

E existe um tipo de luto para o qual ninguém nos prepara: o luto por uma história que terminou enquanto as pessoas continuam vivas.

Ninguém sabe o tamanho da minha dor naquele dia.

Ninguém sabe quantas vezes precisei engolir o choro. Quantas vezes procurei uma explicação para aquilo que não tinha explicação. Quantas vezes me perguntei se poderia ter feito alguma coisa diferente. Quantas vezes pensei que talvez o tempo fosse capaz de consertar tudo.

Mas o tempo não conserta tudo.
O tempo nos ensina a carregar algumas coisas.

Eu precisei me despedir. Precisei dizer adeus sabendo, no fundo da alma, que aquele adeus era definitivo. E talvez tenha sido essa a parte mais dolorosa: saber que a nossa história havia chegado ao fim.

Não havia mais como voltar.

E quando uma história termina assim, não desaparecem apenas as pessoas. Desaparecem também os lugares que elas ocupavam dentro de nós, os planos que fazíamos, as pequenas coisas do cotidiano, as conversas, os sonhos e até aquela versão de nós mesmos que existia naquela relação.

É por isso que certas saudades não passam.

Elas mudam de lugar.

Aprendemos a viver com elas.

Quando a memória abre uma porta

Quase quatro décadas se passaram. A vida seguiu seu curso. Vieram outros dias, outras pessoas, outras responsabilidades, alegrias e tristezas. O mundo continuou girando como sempre continua depois das nossas grandes tragédias particulares.

Mas há dias em que a memória abre uma porta.

E parece que foi ontem.

Eu me lembro de tudo.

Lembro do que senti, do que perdi, do que não consegui dizer. E então compreendo uma coisa que talvez só o tempo seja capaz de ensinar: algumas pessoas não permanecem conosco porque ficaram ao nosso lado. Permanecem porque deixaram dentro de nós alguma coisa que nunca mais saiu.

Existe tanto de você dentro de mim.

Talvez seja por isso que a saudade permaneça.

O que a saudade guarda

Porque não sinto saudade apenas de você. Sinto saudade de quem eu era quando estava ao seu lado. Sinto saudade daquele tempo, daquela vida, daquela maneira de olhar o mundo. Sinto saudade dos sonhos que um dia pareceram possíveis.

E talvez seja essa a verdadeira natureza da saudade: não desejar simplesmente que alguém volte, mas desejar, ainda que por um instante, que o tempo também volte.

Que aquele mundo volte a existir.

Que aquela vida seja novamente possível.

Mas não é.

O passado não abre suas portas para nós.

Podemos visitá-lo apenas pela memória.

E talvez amadurecer seja justamente aprender a amar aquilo que não podemos mais possuir. Aceitar que algumas histórias foram bonitas justamente porque aconteceram naquele tempo, naquela idade, naquela circunstância e naquela versão de nós mesmos.

A saudade como testemunho

Eu não sei se um dia deixarei completamente de sentir saudade.

Talvez não.

E hoje já não tenho certeza de que gostaria que ela desaparecesse.

Porque a saudade também é uma forma de testemunho.

Ela me lembra que aquilo existiu.

Que eu amei.

Que fui feliz.

Que sofri.

Que houve um tempo em que alguém ocupou um lugar imenso dentro de mim.

E que algumas despedidas, embora silenciosas para o mundo, podem produzir dentro de uma pessoa o mesmo vazio de uma morte.

Ninguém sabe o quanto eu chorei naquele dia.

Mas hoje eu sei que aquele homem que chorou não morreu naquele dia.

Ele apenas aprendeu, com uma dor que nunca esqueceu, que existem histórias que terminam sem deixar de existir dentro da gente.

E talvez seja esse o estranho mistério da memória:
algumas pessoas saem da nossa vida, mas nunca saem de nós.

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Vida interior

Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha


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