Política e Resenha

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Não tenho medo da morte, tenho medo de não viver

Padre Carlos

Houve um tempo em que a vida me colocou diante de uma pergunta que eu sempre soube que existia, mas que, até então, talvez não tivesse compreendido em toda a sua profundidade: e se o tempo que me resta for menor do que imagino?

Descobri uma doença que ameaçava a minha vida. E, naquele instante, alguma coisa dentro de mim mudou. Não foi apenas o medo de perder a saúde, nem a angústia diante dos exames, dos diagnósticos e das incertezas. Foi o encontro com uma realidade que tantas vezes preferimos manter distante: a nossa finitude. A possibilidade de que um dia, sem que o mundo interrompa seu movimento, nós simplesmente deixemos de fazer parte dele.

A vida continuaria lá fora. As pessoas seguiriam seus caminhos, o sol nasceria pela manhã, os pássaros cantariam, as notícias ocupariam as manchetes e alguém, em alguma esquina, estaria preocupado com uma coisa tão pequena que, diante da morte, perderia toda a importância. E eu? Eu poderia não estar mais aqui.

Foi nesse território silencioso, onde as certezas começam a perder a força e as perguntas ganham uma dimensão quase insuportável, que um amigo me perguntou:

— Você tem medo da morte?

Respondi:

— Não.

E, ao recordar aquela resposta, percebo que ela não nasceu de uma coragem extraordinária. Não sou um homem de pedra. Tenho meus medos, minhas fragilidades, minhas contradições e minhas horas de inquietação. Há dias em que a alma parece cansada de carregar o peso da existência. Há momentos em que a incerteza nos visita sem pedir licença e nos faz perceber o quanto somos pequenos diante dos mistérios da vida.

A finitude e o que realmente importa

Mas não tenho medo da morte em si. Tenho aprendido, sobretudo, a ter mais respeito pelo milagre de estar vivo.

É curtinho o tempo que a gente tem aqui para tanta coisa.

É pouco tempo para amar todas as pessoas que merecem nosso amor, para pedir perdão a quem ferimos, para corrigir os erros que cometemos, para ler todos os livros que nos esperam, para conhecer os lugares que habitam nossa imaginação, para abraçar demoradamente quem amamos e para dizer aquilo que, por orgulho ou timidez, tantas vezes deixamos para depois.

É pouco tempo para compreender o mundo. Pouco tempo para compreender os outros. E, às vezes, passamos uma parte considerável dele discutindo por coisas que, no fim, não terão importância alguma.

Entretanto, há algo extraordinário na existência: mesmo quando estamos cansados, mesmo quando os olhos se fecham e o coração parece não ter disposição para mais nada, a vida encontra uma maneira de nos surpreender.

Uma luz atravessa a janela e desenha uma forma diferente na parede. O vento movimenta as folhas de uma árvore que já estava ali muito antes de nós. Uma pessoa passa pela rua com os cabelos desalinhados, e há naquela imperfeição uma beleza que nenhuma fotografia planejada conseguiria reproduzir.

Uma mesa reúne pessoas que se gostam. Alguém conta uma história, outro ri, uma lembrança antiga reaparece, e, de repente, aquilo que parecia ser apenas mais uma refeição transforma-se em um acontecimento extraordinário.

A vida é cheia dessas pequenas epifanias. Instantes em que alguma coisa aparentemente banal nos devolve o espanto de existir.

Talvez seja isso que mais me comove: o fato de que o mundo continua oferecendo beleza até mesmo quando nós, por causa das nossas dores, já não conseguimos percebê-la.

Lembro-me da literatura de Gabriel García Márquez, desse universo em que o extraordinário se mistura ao cotidiano, em que o real parece esconder uma porta secreta para o maravilhoso. E penso que talvez precisemos aprender a olhar para a vida com essa mesma disposição: a de quem não acredita que tudo já foi explicado, a de quem ainda se permite surpreender.

A fé diante do mistério

Porque existe alguma coisa de misterioso no simples fato de estarmos aqui.

Entre tantas possibilidades que poderiam não ter acontecido, nós acontecemos. Nascemos, respiramos, conhecemos pessoas, construímos afetos, sofremos perdas, fazemos escolhas, erramos, recomeçamos. E, por algum tempo, participamos dessa extraordinária aventura chamada existência.

Depois de me deparar com a possibilidade concreta da morte, passei a olhar para certas coisas de maneira diferente. Não posso dizer que tenha me tornado um homem melhor em todos os sentidos. A experiência humana não funciona assim. Continuamos sendo quem somos, com nossas limitações e nossos defeitos. Mas alguma coisa se desloca dentro de nós quando percebemos que a vida não é uma propriedade que possuímos para sempre. É uma dádiva provisória, um intervalo cuja duração desconhecemos.

A finitude tem essa capacidade de nos desmascarar. Ela retira a maquiagem das nossas vaidades e nos obriga a perguntar o que realmente importa.

De que vale acumular ressentimentos, se o tempo para amar é tão pequeno? Para que alimentar ódios, se um dia seremos apenas lembranças na memória de alguém? Por que adiar um abraço, uma reconciliação, uma conversa sincera, como se tivéssemos assinado um contrato de permanência neste mundo?

A morte não torna a vida insignificante. Para mim, acontece exatamente o contrário: é porque a vida termina que cada instante ganha uma preciosidade que não teria se fosse infinito.

Talvez seja por isso que eu não tenha medo da morte. O que me assusta, quando penso na existência, não é a possibilidade de um dia deixar de respirar, mas a possibilidade de atravessar os anos sem ter percebido verdadeiramente o que significava estar vivo.

Não quero chegar ao fim sem ter me espantado o suficiente com a beleza do mundo. Não quero que a rotina me torne indiferente ao sofrimento alheio. Não quero que as disputas políticas, as vaidades intelectuais, as pequenas ambições e as mágoas acumuladas ocupem tanto espaço na minha vida que já não sobre tempo para aquilo que realmente merece ser vivido.

Quero continuar aprendendo. Quero continuar lendo, escrevendo, conversando, fazendo perguntas. Quero continuar encontrando beleza onde os outros enxergam apenas banalidade. Quero olhar para minhas filhas e perceber, em cada gesto delas, a passagem do tempo, esse movimento silencioso que nos transforma sem pedir autorização. Quero abraçar minha companheira com a consciência de que nenhum amor está dispensado da fragilidade humana.

Quero, sobretudo, não perder a capacidade de me emocionar.

Talvez a experiência de uma doença que ameaça a vida nos ensine algo que os livros de filosofia, por mais extraordinários que sejam, não conseguem ensinar da mesma maneira. A razão pode explicar a mortalidade, a biologia pode descrever o funcionamento do organismo, a medicina pode investigar as possibilidades de cura. Mas há um momento em que a questão deixa de ser apenas intelectual. A morte deixa de ser um conceito e passa a ser uma possibilidade que nos diz respeito.

É nesse momento que a pergunta muda. Já não queremos saber apenas o que é a morte. Queremos saber o que fazer com a vida que ainda temos.

E essa pergunta me acompanha.

Fui padre durante muitos anos. A fé fez parte da minha história, da minha formação e da maneira como aprendi a olhar para o mundo. Por isso, quando penso na morte, não consigo separar inteiramente a reflexão filosófica da dimensão espiritual que atravessa a existência humana.

Viver é mais do que sobreviver

Mas não quero transformar minhas dúvidas em certezas artificiais, nem oferecer respostas prontas para um mistério que acompanha a humanidade desde que o primeiro ser humano compreendeu que um dia morreria.

Há coisas que a fé contempla, que a filosofia interroga e que a ciência investiga por caminhos diferentes. E há perguntas diante das quais precisamos reconhecer os limites do nosso conhecimento.

Acredito que a existência humana guarda mistérios que ainda não compreendemos. Às vezes, sinto que não pode ser apenas isto: nascer, lutar, amar, sofrer, envelhecer e desaparecer. Há uma espécie de sede de eternidade escondida em nós, uma inquietação que parece ultrapassar os limites do nosso próprio tempo.

Mas, se houver algo depois da morte, não sei exatamente o que será. E, se não houver, se a morte representar o silêncio definitivo, a ausência de consciência, o nada, então também não haverá alguém ali para sofrer a experiência desse nada.

Essa possibilidade não me causa o pavor que tantas vezes atribuímos a ela.

O que me causa inquietação é outra coisa: imaginar quantas pessoas passam pela vida sem descobrir a beleza de uma manhã, sem perceber a delicadeza de um gesto, sem se reconciliar com alguém que amam, sem compreender que a felicidade, muitas vezes, estava escondida naquilo que julgavam pequeno demais.

O sofrimento existe. A doença dói. A despedida de quem amamos pode nos despedaçar. Acompanhar o declínio de uma pessoa querida, vê-la perder lentamente as forças, reconhecer em seus olhos a fragilidade que também nos pertence, é uma das experiências mais dolorosas da condição humana.

Não romantizo a morte. Não romantizo a doença. Não ignoro o medo de quem enfrenta um diagnóstico difícil, nem a angústia de quem aguarda um resultado médico. Conheço, ainda que de maneira particular e limitada, o peso dessas horas.

O caminho até a morte pode ser doloroso. A possibilidade de deixar pessoas amadas pode nos fazer sofrer. O que não me assusta da mesma maneira é o meu próprio desaparecimento, o instante em que já não estarei aqui para contemplar o mundo.

Talvez porque eu tenha aprendido que não somos donos do tempo. Somos apenas seus passageiros.

E, enquanto a viagem continua, ainda podemos escolher como olhar pela janela.

Hoje, quando me lembro daquele amigo que me perguntou se eu tinha medo da morte, percebo que minha resposta talvez carregasse outra pergunta, uma pergunta que eu ainda estava aprendendo a formular: por que gastar tanto da vida temendo aquilo que não podemos evitar, se ainda temos tanto para descobrir enquanto estamos vivos?

Não se trata de ignorar os riscos, abandonar os cuidados ou desprezar a medicina. Ao contrário. Cuidar da saúde é uma maneira de respeitar a vida. Fazer exames, procurar os médicos, seguir os tratamentos e lutar pela recuperação são gestos de quem reconhece o valor da própria existência.

Mas viver não pode se resumir a tentar sobreviver.

Precisamos de alguma coisa além da mera conservação do corpo. Precisamos de encontros, de afeto, de beleza, de ideias, de esperança. Precisamos de razões para abrir os olhos pela manhã e sentir que, apesar de todas as dificuldades, ainda há alguma coisa que merece nossa atenção.

É por isso que continuo escrevendo. Talvez cada artigo seja, à sua maneira, uma tentativa de conversar com o tempo, de deixar registrado aquilo que penso, aquilo que sinto, aquilo que ainda não consegui compreender. Escrever é uma forma de participar do mundo, de dialogar com pessoas que talvez nunca encontremos pessoalmente e de prolongar, pela palavra, alguma coisa da nossa passagem por aqui.

Não sei quanto tempo ainda me resta. Ninguém sabe, verdadeiramente. A diferença é que, depois de uma experiência como a que vivi, essa afirmação deixa de ser uma frase feita. Ela ganha rosto, respiração e silêncio.

E, paradoxalmente, essa consciência não me rouba a vida. Ela me devolve à vida.

Se amanhã o sol entrar pela janela de uma maneira diferente, quero perceber. Se alguém me oferecer um sorriso inesperado, quero acolhê-lo. Se uma conversa me ensinar alguma coisa, quero continuar sendo capaz de aprender. Se minhas filhas me chamarem, quero estar presente, não apenas fisicamente, mas com a atenção inteira de quem sabe que os momentos mais preciosos nem sempre anunciam sua importância.

Quero continuar tendo curiosidade sobre o mundo. Quero continuar me indignando diante das injustiças e defendendo aquilo em que acredito. Quero continuar mudando de opinião quando a verdade me mostrar que estou errado. Quero envelhecer com a liberdade de quem já compreendeu que não precisa vencer todas as discussões para justificar sua existência.

O próximo espanto

E quero continuar acreditando que a vida merece ser vivida, mesmo quando não conseguimos explicar inteiramente o seu sentido.

Talvez seja isso que eu responderia hoje àquele amigo, se ele voltasse a me fazer a mesma pergunta.

— Você tem medo da morte?

Não.

Tenho respeito pela vida. Tenho amor pelas pessoas que caminham comigo. Tenho tristeza diante das despedidas que já aconteceram e das que, inevitavelmente, ainda acontecerão. Tenho perguntas para as quais não encontrei respostas. Tenho dias de cansaço e outros em que a simples possibilidade de continuar aqui já me parece um presente extraordinário.

Mas medo da morte, não.

Porque ainda há tanta coisa que me espanta. Tanta beleza que não vi. Tanta conversa que quero ter. Tantos livros que quero ler. Tantas palavras que ainda desejo escrever.

E, se houver alguma coisa depois daqui, que seja um novo capítulo desse mistério que começou antes de eu saber que existia.

Se não houver, que o silêncio não apague a beleza do que aconteceu.

Afinal, eu estive aqui.

Amei. Sofri. Errei. Aprendi. Acreditei. Duvidei. Tentei compreender o mundo e, algumas vezes, tentei ajudar a torná-lo um pouco melhor.

E, durante o tempo que me foi concedido, houve manhãs, abraços, palavras, encontros e pequenas maravilhas que fizeram a existência valer a pena.

Talvez seja suficiente. Talvez não.

Não tenho como saber.

Mas há uma coisa que aprendi: não quero desperdiçar o tempo que ainda tenho tentando descobrir o tamanho da eternidade, quando ainda posso me emocionar com a luz que atravessa uma janela.

A vida é breve. O mistério é imenso.

E eu continuo aqui, olhando para o mundo, esperando pelo próximo espanto.

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— Padre Carlos