Política · Vitória da Conquista · Centro-Sul baiano
Por Padre Carlos
A política é feita de votos, alianças, estruturas de poder e capacidade de transformar influência eleitoral em resultados concretos. Quando uma liderança perde espaço nas urnas, os efeitos ultrapassam a dimensão individual e atingem todo o grupo que construiu sua trajetória em torno daquele mandato. É nesse contexto que precisa ser analisado o novo cenário do Partido dos Trabalhadores (PT) em Vitória da Conquista e no Centro-Sul baiano, especialmente diante da perda do mandato federal de Waldenor Pereira.
Durante muitos anos, Waldenor e Zé Raimundo Fontes construíram uma parceria política que se tornou uma das principais referências do petismo conquistense. Os dois dividiram bases eleitorais, trabalharam lado a lado e mantiveram uma estrutura de atuação política que articulava a Assembleia Legislativa da Bahia com a Câmara dos Deputados. Essa dobradinha permitia ao grupo transitar entre as demandas municipais, a articulação estadual e a busca por recursos federais.
A perda do mandato de Waldenor, portanto, não representa apenas a saída de um deputado federal. Significa a redução de uma estrutura de poder que oferecia ao grupo maior capacidade de articulação institucional, acesso aos centros de decisão em Brasília e presença política em diferentes municípios da região.
O problema do PT não é apenas perder um mandato. É perder parte da estrutura que sustentava sua influência.
Zé Raimundo foi reeleito para seu quinto mandato na Assembleia Legislativa da Bahia, com 74.853 votos, dos quais quase 28 mil foram conquistados em Vitória da Conquista. Trata-se de uma votação expressiva, que demonstra a permanência de uma base eleitoral relevante. Seria incorreto ignorar esse resultado ou tratar o parlamentar como uma liderança politicamente irrelevante.
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Os números de Zé Raimundo 74.853 votos Reeleição para o quinto mandato na Assembleia Legislativa da Bahia, com quase 28 mil votos obtidos em Vitória da Conquista. Uma base relevante, mas que precisa ser lida à luz da capacidade de crescimento e da competitividade diante de novos adversários. |
Entretanto, uma análise eleitoral séria não pode se limitar à quantidade absoluta de votos. É necessário observar a capacidade de crescimento, a competitividade diante de novos adversários e as condições políticas que o grupo terá para manter sua presença regional nos próximos anos.
É justamente nesse ponto que aparece o sinal de alerta.
Na disputa municipal pela preferência do eleitorado, o marido da prefeita Sheila Lemos, mesmo sem conquistar um mandato, obteve votação superior à de Zé Raimundo, segundo os dados apresentados nesse cenário eleitoral. Mais significativo ainda é o desempenho de Wagner Alves, que estreou na política e conseguiu se apresentar como uma alternativa competitiva. Quando um estreante demonstra capacidade de mobilização eleitoral, enquanto uma liderança histórica precisa reafirmar sua posição, o resultado merece reflexão.
O eleitorado não está condenado a repetir suas escolhas do passado. Novas lideranças podem surgir, conquistar espaço e alterar a distribuição de forças que parecia consolidada.
O ex-prefeito, que durante muito tempo contou com a presença de Waldenor como aliado estratégico na esfera federal, passa agora a enfrentar um cenário mais restritivo. A questão não é afirmar que Zé Raimundo perdeu sua importância, mas reconhecer que sua capacidade de articulação passa a depender de uma configuração política diferente, sem a mesma composição de mandatos que sustentou o grupo durante anos.
A perda de Waldenor enfraquece a engrenagem política do grupo
Um deputado estadual e um deputado federal não dispõem dos mesmos instrumentos institucionais. Embora ambos tenham legitimidade parlamentar e possam atuar em defesa da população, as atribuições, os espaços de articulação e as possibilidades de intervenção orçamentária são diferentes. O mandato federal permite participação direta nas discussões nacionais, apresentação de emendas ao Orçamento da União e interlocução permanente com ministérios e órgãos federais.
Sem essa representação, o grupo perde um canal próprio de atuação em Brasília. Poderá continuar buscando recursos por meio de outros parlamentares aliados, mas isso exigirá novas negociações e maior dependência de terceiros. O que antes podia ser encaminhado por um integrante da própria dobradinha terá de encontrar outros caminhos.
A consequência é uma redução da autonomia política e da capacidade de coordenar demandas regionais.
Com a nova configuração, Zé Raimundo permanece como representante estadual do grupo, enquanto Fabrício, do PCdoB, também ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa. É importante reconhecer que os dois parlamentares têm trajetórias, bases e compromissos próprios. A comparação, porém, ajuda a compreender a mudança de dimensão institucional: sem o mandato federal de Waldenor, o PT conquistense perde um dos elementos que diferenciavam sua estrutura política da atuação de uma representação concentrada na esfera estadual.
O grupo continua existindo, mas passa a operar com menos instrumentos próprios de poder.
A BR-116 será um teste de credibilidade
Na entrevista concedida ao programa UP Notícias, da Rádio UP, Zé Raimundo voltou a destacar as intervenções de infraestrutura necessárias para Vitória da Conquista e região. Entre as prioridades mencionadas estão a construção de viadutos e outras melhorias na BR-116, a duplicação e a instalação de ciclovias nos acessos ao Pradoso e à Estiva, além de obras de macrodrenagem na região da Praça Vítor Brito.
São demandas legítimas e importantes para o desenvolvimento urbano, a segurança viária e a qualidade de vida da população. A BR-116, em particular, representa um dos principais corredores de circulação de pessoas e mercadorias do município e de sua área de influência.
Entretanto, a repetição dessas reivindicações também suscita uma pergunta política incontornável: se a dobradinha que reunia um deputado estadual e um deputado federal não conseguiu transformar determinadas demandas históricas em resultados na dimensão esperada pela população, quais serão as condições para avançar agora, com a perda da representação federal do grupo?
A pergunta não significa atribuir exclusivamente a Waldenor ou a Zé Raimundo a responsabilidade por obras que dependem de projetos técnicos, licenciamento, orçamento, decisões do Executivo e atuação de órgãos federais. Seria simplificar excessivamente a realidade administrativa.
Mas os mandatos parlamentares também precisam ser avaliados por sua capacidade de articulação, cobrança e obtenção de resultados. A população não vive apenas de anúncios, entrevistas ou listas de prioridades. Ela espera obras, prazos, recursos assegurados e mudanças concretas em sua vida cotidiana.
A partir de agora, a cobrança será ainda maior. Sem Waldenor na Câmara dos Deputados, o grupo precisará demonstrar que consegue manter sua capacidade de interlocução com o Governo Federal e transformar suas reivindicações em entregas efetivas.
Se não conseguir fazer isso, a perda institucional poderá se converter também em perda de credibilidade eleitoral.
O encolhimento político pode ser gradual
O PT possui história, militância, presença social e vínculos com diferentes setores da sociedade conquistense. Não seria correto decretar o fim do partido na cidade, muito menos presumir que a perda de um mandato federal determinará automaticamente derrotas futuras. A política é dinâmica, e a reconstrução de uma base eleitoral depende de escolhas, alianças e resultados.
Ainda assim, há uma diferença entre continuar presente e conservar a mesma força de antes.
O grupo de Waldenor e Zé Raimundo precisará reorganizar sua estratégia, recompor sua capacidade de articulação regional e apresentar respostas às demandas que há anos fazem parte do debate público. Terá também de lidar com a ascensão de novas lideranças, com a competição de adversários que demonstraram capacidade de crescimento e com um eleitorado que pode estar mais disposto a experimentar alternativas.
A estrutura política construída durante décadas não desaparece de uma hora para outra. Entretanto, pode começar a encolher quando perde representação institucional, deixa de ampliar sua votação e enfrenta dificuldades para converter sua presença histórica em resultados percebidos pela população.
Esse é o risco que se apresenta ao petismo conquistense: uma redução progressiva de sua capacidade de influência, caso não consiga renovar sua estratégia e recuperar o terreno perdido.
A reeleição de Zé Raimundo garante ao grupo uma presença importante na Assembleia Legislativa. Mas não substitui integralmente o espaço ocupado por Waldenor em Brasília. São posições distintas, com atribuições diferentes e capacidades de articulação que não podem ser confundidas.
O desafio será provar que a perda de um mandato federal não se transformará em uma perda mais ampla de protagonismo regional.
No fim das contas, a política cobra resultados, e a memória do eleitor não é construída apenas pela história dos partidos ou pela longevidade de seus representantes. Ela também é moldada pela comparação entre o que foi prometido e aquilo que efetivamente chegou às ruas, aos bairros e às comunidades.
Vitória da Conquista continua precisando de investimentos, infraestrutura e articulação política em todas as esferas de governo. O que está em discussão não é o direito do PT de continuar disputando esse espaço, mas sua capacidade de fazê-lo com a mesma força de antes.
A perda de Waldenor representa, portanto, mais do que uma mudança na composição parlamentar: é um teste para a sobrevivência da estrutura política que sustentou o grupo durante tantos anos.
Se conseguir se reorganizar, o PT poderá preservar sua influência. Se não compreender a dimensão dessa mudança, corre o risco de descobrir, eleição após eleição, que a força acumulada no passado não garante o poder no futuro.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha





