Análise · Eleições 2026 · Segundo turno
Por Wilton Cunha, Osvaldo Baretto e Padre Carlos
Atualizado em 18 de outubro de 2026, com as pesquisas divulgadas até este domingo.
Uma eleição presidencial não se compreende apenas pela fotografia de uma pesquisa. É preciso observar o filme inteiro: a evolução das intenções de voto, a distância entre os candidatos, a movimentação dos eleitores, a capacidade de mobilização das campanhas e a maneira como os diferentes institutos captam as mudanças de comportamento do eleitorado. É nessa perspectiva que analisamos a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2026, marcado para 25 de outubro.
“É preciso observar o filme inteiro” — e não apenas a fotografia de uma pesquisa.
Wilton Cunha
1. O primeiro turno: o ponto de partida
O primeiro dado que merece atenção é a diferença entre os candidatos no primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A vantagem foi de aproximadamente 2,23 milhões de votos. Era uma distância relevante, mas que manteve a disputa aberta. Esse resultado oficial funciona como a primeira marca no tempo, o ponto a partir do qual qualquer movimento posterior pode ser medido.
Gráfico 1
Votos válidos no 1º turno (%)
Flávio Bolsonaro
Lula
Escala de 0 a 60%, com base zero. Resultado oficial do 1º turno.
| 1,87 p.p. Diferença entre os candidatos (47,03 − 45,16) |
~2,23 mi Vantagem em votos de Flávio |
25/10 Data do 2º turno |
2. As pesquisas mais recentes: a disputa em 50 a 50
Os levantamentos divulgados até este domingo, 18 de outubro, mostram uma disputa em torno do equilíbrio. O PoderData/Aya, com coleta de 13 a 15 de outubro, apontou empate numérico, com 50% dos votos válidos para cada candidato. O Datafolha, que ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios nos dias 13 e 14, registrou 51% para Flávio e 49% para Lula. A Quaest encontrou os mesmos 51% a 49% nos votos válidos (46% a 44% nos votos totais). A Futura trouxe 50,8% a 49,2% para Flávio. E a Vox Brasil, divulgada hoje, é o levantamento em que Lula aparece numericamente à frente, com 51% a 49% e margem de erro de 2,15 pontos.
Há também pesquisas com diferenças maiores a favor de Flávio, como Nexus/BTG (52% a 48%), Ipespe/Abrapel (52,7% a 47,3%), AtlasIntel (52,8% a 47,2%), DataTrends (53,1% a 46,9%) e Gerp (55% a 45%). Esse conjunto mostra que o equilíbrio é nítido nos institutos mais próximos de 50%, enquanto outros, com metodologias distintas, medem uma distância maior. Segundo a compilação do Poder360, Flávio aparece numericamente à frente em 11 dos 13 estudos mais recentes, com Lula à frente em um e o PoderData em empate. (Fontes ao final do artigo.)
Gráfico 2
Votos válidos no 2º turno, por instituto (%)
Vox Brasil (18/10)
| Flávio 49% | Lula 51% |
PoderData/Aya (13 a 15/10)
| Flávio 50% | Lula 50% |
Futura (16/10)
| Flávio 50,8% | Lula 49,2% |
Datafolha (campo 13 e 14/10)
| Flávio 51% | Lula 49% |
Quaest (14/10)
| Flávio 51% | Lula 49% |
Nexus/BTG (13/10)
| Flávio 52% | Lula 48% |
Ipespe/Abrapel
| Flávio 52,7% | Lula 47,3% |
AtlasIntel
| Flávio 52,8% | Lula 47,2% |
DataTrends
| Flávio 53,1% | Lula 46,9% |
Gerp (13/10)
| Flávio 55% | Lula 45% |
Barras de 100% (votos válidos), ordenadas do maior para o menor percentual de Lula. Datas de divulgação ou de campo variam por instituto e as metodologias são distintas.
Gráfico 3
Diferença entre os candidatos nos votos válidos (pontos percentuais)
Escala de 0 a 10 p.p. para cada lado. O 1º turno (1,87 p.p. a favor de Flávio) serve de referência.
| ← Flávio à frente | Lula à frente → |
1º turno (oficial)
|
1,87
|
Vox Brasil
|
2,0
|
PoderData/Aya
| empate | 0 |
Futura
|
1,6
|
Datafolha e Quaest
|
2,0
|
Nexus/BTG
|
4,0
|
Ipespe/Abrapel
|
5,4
|
AtlasIntel
|
5,6
|
DataTrends
|
6,2
|
Gerp
|
10,0
|
Diferenças calculadas a partir dos percentuais de votos válidos divulgados. O 1º turno é resultado oficial; as demais barras são pesquisas, com margem de erro.
| 5 de 10 Pesquisas do gráfico 2 com Flávio entre 49% e 51% |
11 de 13 Estudos com Flávio numericamente à frente (Poder360) |
~1,2 mi Votos por ponto de diferença (estimativa a partir do 1º turno) |
3. A tendência: o que a sequência de números mostra
Em uma disputa equilibrada, saber quem aparece numericamente à frente é só uma parte da leitura; a outra é saber se a diferença está aumentando, diminuindo ou permanecendo estável. Uma tendência nasce quando levantamentos sucessivos apontam na mesma direção, e é ela que transforma um dado isolado em informação. Uma pesquisa registra um ponto no tempo, e uma série de pesquisas desenha a trajetória. O mesmo número de dois pontos percentuais pode, portanto, ter significados diferentes: depois de uma sequência de quedas, reforça um movimento; cercado de leituras estáveis, tende a ser oscilação estatística.
O que a série disponível mostra até aqui é uma aproximação em relação ao primeiro turno, quando a diferença oficial foi de 1,87 ponto. Em vários institutos (PoderData, Datafolha, Quaest, Futura e Vox Brasil), a distância hoje fica entre zero e dois pontos, e a Vox Brasil, que no levantamento anterior já registrava Lula numericamente à frente com cerca de 50,9%, chegou a 51% neste domingo. A Quaest, por sua vez, manteve a diferença de dois pontos entre sua rodada de 3 de outubro (44% a 42%) e a de 14 de outubro (46% a 44%, votos totais): ambos os candidatos subiram o mesmo tanto. Já AtlasIntel, Ipespe, DataTrends, Nexus e Gerp ainda registram vantagens maiores de Flávio, o que mostra que a convergência entre institutos, um dos critérios que fortalecem uma tendência, ainda não está completa.
Cada instituto deve ser lido contra o seu próprio histórico, com a mesma metodologia, a mesma amostragem e períodos de coleta comparáveis. Futura e Vox Brasil já entram nesta análise com números recentes, e GPP e Veritá seguem merecendo acompanhamento individual. Quando uma mudança aparece em levantamentos sucessivos, de institutos distintos e com direção coerente, ganha sustentação como tendência; quando aparece em um só, funciona como um sinal à espera de confirmação.
Gráfico 4
Como um movimento se confirma como tendência
| 1. Sequência Vários levantamentos consecutivos, e não uma leitura única. |
2. Mesma metodologia Comparação de cada instituto com o seu próprio histórico. |
3. Margem de erro A variação precisa superar a oscilação estatística esperada. |
4. Convergência Institutos distintos apontando na mesma direção. |
4. Margem de erro e intervalo entre as entrevistas
As diferenças de zero a dois pontos entre PoderData, Datafolha, Quaest, Futura e Vox Brasil estão dentro das margens de erro, que ficam em torno de dois pontos. Uma mudança de dois pontos percentuais chama a atenção, mas é interpretada à luz dessa margem e do intervalo entre as entrevistas: quando duas pesquisas apresentam diferenças pequenas, a comparação entre elas ainda não indica, por si só, uma migração real de votos. O que passa a indicar é a sequência. Como cada ponto de diferença equivale a cerca de 1,2 milhão de votos, uma oscilação de dois pontos representa algo próximo de 2,4 milhões, o que explica por que cada nova rodada é acompanhada com tanta atenção.
5. Outros indicadores no radar
O mercado de apostas também entra no debate como um indicador complementar. As cotações variam conforme o volume de apostas, a liquidez, as margens da plataforma e as informações disponíveis em cada momento, e medem algo distinto da intenção de voto e da probabilidade eleitoral. Por isso, são mais bem aproveitadas quando acompanhadas em sequência, ao lado das pesquisas. Outros dados das próprias pesquisas ajudam a completar o quadro: no Datafolha, 93% dos eleitores dizem estar totalmente decididos (94% entre os de Lula e 95% entre os de Flávio), e na Vox Brasil 93,5% afirmam ter decisão definitiva. A rejeição também está equilibrada: 45,3% para cada candidato na Vox Brasil, e 54% para Flávio contra 53% para Lula na Quaest.
6. Duas campanhas, dois desafios
A campanha de Lula tem buscado mobilizar seu eleitorado em torno de políticas sociais, direitos dos trabalhadores e medidas econômicas de interesse popular, e a discussão sobre a escala de trabalho 6×1 ganhou espaço entre os temas. Flávio Bolsonaro mantém o discurso de mudança política e explora as críticas à gestão federal. São estratégias diferentes, dirigidas a segmentos que nem sempre respondem da mesma maneira aos acontecimentos da campanha. Com eleitores majoritariamente decididos, o espaço para mudança está nos poucos indecisos, na participação nas urnas e na transferência de votos de quem não escolheu nenhum dos dois no primeiro turno.
Gráfico 5
Estratégias e desafios na reta final
| Lula | Flávio Bolsonaro | |
| Discurso | Políticas sociais, direitos dos trabalhadores, medidas econômicas de interesse popular; debate sobre a escala 6×1. | Discurso de mudança política e críticas à gestão federal. |
| Desafio | Ampliar o eleitorado para além da base tradicional, reduzir resistências e converter mobilização em votos. | Preservar a vantagem do primeiro turno e impedir que a aproximação se torne uma tendência mais ampla. |
7. A reta final e a conclusão
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro permanece aberta nos levantamentos divulgados até 18 de outubro, e vários institutos já a mostram em 50 a 50, dentro da margem de erro. A diferença estreita encontrada por esses institutos mostra um segundo turno disputado em condições de grande competitividade, ainda que parte das pesquisas registre vantagem maior de Flávio. O comportamento dos indecisos, a participação nas urnas, a transferência de votos e os acontecimentos dos últimos dias serão elementos importantes para compreender o crescimento da candidatura de Lula. Se permanecer esta tendência de crescimento Lula podse chegar entre 3 a 5 milhões de votos de frente.
Minha conclusão é que a trajetória é o dado mais importante dos próximos sete dias. Se a aproximação registrada por vários institutos se confirmar em levantamentos sucessivos e a convergência entre eles aumentar, o quadro de equilíbrio se consolida; se as pesquisas que hoje mostram vantagens maiores de Flávio se mantiverem estáveis, esse é o sinal a ser observado. Em ambos os casos, é a sequência dos números, e não um número isolado, que permite distinguir fatos, hipóteses e expectativas.
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Wilton Cunha,Osvaldo Baretto e Padre Carlos
Artigo publicado em Política e Resenha
Fontes das pesquisas
Poder360, “Saiba como estão Lula e Flávio nas pesquisas a 8 dias do 2º turno”; CartaCapital e Tribuna de Jundiaí (Vox Brasil, 18/10); CNN Brasil (Gerp, 13/10); O Folha de Minas (Datafolha e Quaest); Quenty (Quaest e Nexus/BTG). Percentuais de votos válidos conforme divulgados por cada instituto.





