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O Exército do Lula e a revolução digital que pode mudar a eleição

Política Nacional • Eleições 2026

Por Padre Carlos — Política e Resenha — 21 de outubro de 2026

A política brasileira está diante de uma transformação que não pode mais ser ignorada: as eleições já não se decidem apenas nos palanques, nos programas de televisão ou nas articulações dos partidos. Uma parte decisiva da disputa acontece nos celulares, nos grupos de WhatsApp, nos vídeos curtos e na capacidade de mobilizar milhares de pessoas em torno de uma narrativa. É nesse cenário que André Janones, com o chamado “Exército do Lula”, entrou no centro da campanha presidencial de 2026.

A avaliação de Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, merece atenção. Em entrevista ao UOL News, nesta quarta-feira, 21 de outubro, ele afirmou que a mobilização organizada por Janones está mudando a dinâmica da campanha e ajudando a recuperar o ânimo do campo lulista. Não se trata apenas de uma declaração elogiosa a um deputado habilidoso nas redes sociais. É o reconhecimento de que a comunicação digital passou a ocupar um lugar estratégico na disputa pelo poder. Leia a reportagem do UOL.

Um empate técnico no horizonte

Os números ajudam a compreender a dimensão do desafio. Na pesquisa divulgada pela Quaest nesta quarta-feira, Flávio Bolsonaro aparece com 45% das intenções de voto, contra 44% de Lula. Embora o candidato do PL esteja numericamente à frente, a diferença configura empate técnico. A disputa, portanto, permanece aberta, e qualquer interpretação responsável precisa considerar tanto a recuperação de Lula quanto a força eleitoral de seu adversário.

Pesquisa Quaest — 21 de outubro

45%
Flávio Bolsonaro
44%
Lula

Diferença de um ponto: empate técnico. A disputa segue aberta.

O fenômeno Janones

É justamente nesse contexto que surge o fenômeno Janones. Ao transformar um canal de WhatsApp em instrumento de mobilização política, o deputado demonstrou que a militância pode assumir uma função muito mais ampla do que simplesmente compartilhar mensagens ou manifestar apoio a um candidato. Ela pode organizar conversas, ampliar a circulação de argumentos, estimular a participação nas redes e levar a disputa política para espaços nos quais a propaganda eleitoral tradicional não consegue chegar com a mesma velocidade.

O chamado “Exército do Lula” tornou-se uma das iniciativas digitais mais expressivas desta campanha. Seu crescimento acelerado revela a existência de um contingente de apoiadores disposto a participar ativamente da batalha eleitoral. Mais do que espectadores de uma disputa entre lideranças, essas pessoas passam a atuar como multiplicadoras de mensagens, mobilizadoras de debates e participantes de uma guerra de narrativas que se desenrola diariamente na internet.

Há, nesse movimento, uma lição política importante. Durante muito tempo, setores da esquerda brasileira confiaram excessivamente na força da história, na identidade partidária, nos movimentos sociais tradicionais e na popularidade de Lula. Esses elementos continuam relevantes, mas não são suficientes quando o adversário compreende a linguagem das plataformas digitais, investe na comunicação permanente e consegue transformar sentimentos políticos em mobilização organizada.

A direita brasileira aprendeu a explorar esse território muito antes de parte da esquerda perceber a dimensão da mudança. A comunicação digital tornou-se um campo de disputa no qual velocidade, linguagem, emoção e capacidade de organização podem fazer diferença. Janones procura demonstrar que esse espaço não pertence exclusivamente aos seus adversários e que o campo progressista também pode construir uma estrutura capaz de disputar a atenção pública em grande escala.

“Engajamento não é sinônimo de voto.”
Padre Carlos

Os limites da mobilização

Entretanto, é preciso compreender o alcance real dessa estratégia. Engajamento não é sinônimo de voto. Curtidas, visualizações, compartilhamentos e tendências nas buscas do Google são indicadores importantes de interesse e mobilização, mas não substituem a manifestação silenciosa do eleitor diante da urna. Uma campanha pode dominar as redes sociais e não conseguir converter essa presença em maioria eleitoral.

A própria análise de Guilherme Russo recomenda prudência. O diretor da Quaest reconheceu a melhora dos indicadores de Lula, mas não declarou que a eleição esteja decidida. A pesquisa mostra uma disputa equilibrada, com Flávio Bolsonaro ainda numericamente à frente e crescimento do contingente de indecisos. A afirmação de que Janones já teria garantido uma virada seria, portanto, precipitada. O que existe é uma mudança perceptível na dinâmica da campanha, não uma vitória antecipada.

Também merece reflexão a concentração da mobilização em torno de uma única liderança. Se o “Exército do Lula” depende excessivamente de Janones para produzir mensagens e coordenar ações, sua força pode ficar vulnerável à ausência do próprio organizador. A imprensa noticiou que o canal ficou temporariamente sem atualizações após a internação do deputado por um problema cardíaco. O episódio expõe uma questão estratégica: uma estrutura de milhões de apoiadores precisa ter organização, continuidade e capacidade de funcionar para além de uma única pessoa. Veja a reportagem da Folha de S.Paulo.

Combatividade com responsabilidade

Outro aspecto fundamental é a qualidade da comunicação. Mobilizar pessoas não pode significar estimular a desinformação, disseminar acusações sem provas ou transformar adversários políticos em inimigos a serem destruídos. A democracia exige confronto de ideias, fiscalização do poder e liberdade de expressão, mas também responsabilidade com os fatos. Uma campanha pode ser combativa sem abandonar a ética; pode defender um projeto político sem recorrer à mentira como instrumento de convencimento.

A disputa digital será ainda mais importante quando os eleitores indecisos começarem a avaliar, com maior atenção, o significado concreto de cada candidatura. Nesse momento, não bastará produzir barulho nas redes. Será necessário apresentar argumentos convincentes sobre emprego, renda, saúde, educação, segurança pública, democracia e o futuro do país. A mobilização pode abrir as portas do debate, mas é a consistência das propostas que ajuda a conquistar a confiança de quem ainda não decidiu seu voto.

Minha avaliação

Na minha avaliação, o mérito político de Janones está em ter compreendido que uma campanha moderna precisa de participação organizada, comunicação permanente e capacidade de reação. Ele conseguiu transformar uma iniciativa digital em assunto nacional e obrigou os analistas a considerar uma dimensão da disputa que não pode ser medida apenas pela propaganda oficial dos candidatos. Isso, por si só, já representa uma contribuição relevante para a compreensão das eleições contemporâneas.

Mas há uma diferença entre mudar o rumo de uma campanha e determinar o resultado de uma eleição. A primeira possibilidade encontra respaldo na avaliação do diretor da Quaest; a segunda continua dependendo do comportamento dos eleitores e dos acontecimentos dos próximos dias.

A prova definitiva da urna

O “Exército do Lula” pode ser um fator importante na reta final, sobretudo se conseguir transformar mobilização virtual em diálogo real, ampliar a circulação de informações verificáveis e convencer eleitores que ainda estão indecisos. A questão central não é quantas pessoas recebem mensagens, mas quantas são efetivamente persuadidas por argumentos capazes de resistir ao confronto com os fatos.

A eleição de 2026 também deixará uma lição para os partidos brasileiros: quem desprezar a força das redes sociais poderá perder espaço, enquanto quem confundir popularidade digital com vitória garantida correrá o risco de cometer um erro igualmente grave. A tecnologia amplia a voz dos cidadãos, acelera a circulação de ideias e modifica a relação entre candidatos e eleitores, mas não elimina a imprevisibilidade da política.

O Brasil está diante de uma disputa apertada, e os próximos dias serão decisivos. Janones demonstrou que a mobilização digital pode devolver energia a uma campanha e alterar o ambiente político. Resta saber se essa energia será suficiente para converter entusiasmo em votos.

Na política, como na história, os instrumentos de luta podem mudar, mas o resultado nunca está escrito antes do fim. O “Exército do Lula” entrou no campo de batalha eleitoral e conquistou espaço. A urna, entretanto, continuará sendo o lugar onde a mobilização encontrará sua prova definitiva.

Eleições 2026
André Janones
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Lula
Flávio Bolsonaro
Redes Sociais

Padre Carlos  — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha