Política e Resenha

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Lula resiste, mas resistir não é vencer: o que a Quaest revela a quatro dias do segundo turno

ANÁLISE · ELEIÇÕES 2026

Por Padre Carlos  · 21 de outubro de 2026

A leitura que circula sobre a pesquisa Quaest de 21 de setembro defende que Lula saiu dela fortalecido por três razões: a sua força pessoal seria maior que a do governo, as mulheres estariam voltando a ele e o reajuste do Bolsa Família começaria a render votos antes mesmo de chegar ao bolso. Há dados reais por trás de cada tese. Mas quem escreve sobre eleição precisa fazer o que a leitura apressada não fez: submeter a tese ao que aconteceu depois.

E aconteceu muita coisa. O primeiro turno, em 4 de outubro, terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em 47,03% dos votos válidos e Lula (PT) em 45,16%. A primeira Quaest do segundo turno, divulgada em 14 de outubro, trouxe Flávio com 46% e Lula com 44%, empate técnico dentro da margem de dois pontos. A rodada desta quarta-feira (21), com campo de 17 a 20 de outubro, não estava disponível quando este texto foi fechado. A pesquisa de setembro, portanto, serve para entender onde estão as reservas de Lula. Não serve para dizer que ele esteja vencendo.

GRÁFICO 1
Segundo turno na Quaest: o empate virou vantagem numérica de Flávio
Intenção de voto em Lula e Flávio Bolsonaro, em %, nas rodadas da Quaest (votos totais). Eixo começa no zero.
Lula Flávio Bolsonaro
44
39
5/ago
42
41
2/set
41
41
7/set
40
42
14/set
41
42
21/set
42
44
3/out
44
46
14/out
Fontes: Quaest/Genial e Quaest/Globo, via Metrópoles (5/8 a 21/9), Money Times (3/10) e CNN Brasil (14/10). Margem de erro de 2 pontos.

Primeira tese: Lula é maior que o governo?

O argumento é sedutor: muita gente reprovaria o governo e ainda assim votaria em Lula. Se fosse assim, os números deveriam mostrar o voto em Lula acima da aprovação e a rejeição pessoal abaixo da desaprovação. Na Quaest de 3 de outubro, 44% aprovavam e 49% desaprovavam o governo. Na de 14 de outubro, Lula tinha 44% no segundo turno, exatamente a aprovação, e uma rejeição de 53%, acima da desaprovação do governo. A de Flávio é de 54%.

O que os dados mostram é outra coisa, e mais interessante: um eleitorado dividido em dois blocos de tamanho quase idêntico, cada um rejeitando o candidato do outro. Lula tem uma virtude real, a resiliência. Na rodada de 14 de setembro, em plena crise do Supremo, a aprovação ficou estável em 43% contra 50%. Resistir a uma tempestade, porém, é diferente de ter excedente de votos. Esta é uma eleição decidida menos pelo que se aprova e mais pelo que se teme.

GRÁFICO 2
Aprovação do governo, voto e rejeição: dois blocos do mesmo tamanho
Se Lula fosse maior que o governo, o voto superaria a aprovação e a rejeição ficaria abaixo da desaprovação. Os números mostram o contrário.
Aprova o governo Lula (3/10)
44%
Desaprova o governo Lula (3/10)
49%
Voto em Lula, 2º turno (14/10)
44%
Voto em Flávio, 2º turno (14/10)
46%
Rejeição a Lula (14/10)
53%
Rejeição a Flávio (14/10)
54%
Fonte: Quaest, rodadas de 3 e 14 de outubro de 2026 (Money Times; Estadão Conteúdo). Rejeição = não votaria de jeito nenhum.

Segunda tese: as mulheres e a conta do medo

Aqui o dado é sólido. Na Quaest de 21 de setembro, Lula foi de 41% para 44% entre as mulheres em uma semana, enquanto Flávio oscilou de 38% para 37%. A vantagem do petista no eleitorado feminino passou de três para sete pontos. Como as mulheres são cerca de 52% do eleitorado, cada ponto ali vale mais que em qualquer outro recorte. Na rodada de 14 de outubro, 47% das mulheres diziam ter mais medo da volta da família Bolsonaro, contra 37% que temiam a permanência de Lula.

Há um histórico documentado de declarações de Jair Bolsonaro sobre mulheres, da ofensa à deputada Maria do Rosário, em 2014, à “fraquejada” de 2017, e é legítimo que a campanha de Lula o recorde. Mas é preciso dimensionar: três pontos em uma semana, num subgrupo de margem de erro maior, é sinal e não sentença. E a mesma pesquisa registrou Flávio ampliando sua vantagem entre evangélicos, de 51% para 58%, com Lula parado em 28%. A eleição se decide na soma dos dois movimentos.

GRÁFICO 3
Mulheres: Lula cresce três pontos em uma semana
Intenção de voto no 2º turno entre as eleitoras, em %. Mulheres são cerca de 52% do eleitorado.
Lula Flávio Bolsonaro
Lula · 14/set
41%
Lula · 21/set
44%
Flávio · 14/set
38%
Flávio · 21/set
37%
Têm mais medo da volta dos Bolsonaro (14/10)
47%
Têm mais medo da permanência de Lula (14/10)
37%
Fonte: Quaest de 21/9 (InfoMoney) e de 14/10 (Terra). A margem de erro de subgrupos é maior que os 2 pontos da amostra total.

Terceira tese: o Bolsa Família e o voto antes do dinheiro

A campanha de Lula apostava que o reajuste de 15,02% do Bolsa Família, anunciado em 17 de setembro, puxaria o voto das famílias beneficiadas. Na rodada de 21 de setembro, porém, Lula passou de 58% para 56% entre os beneficiários, e Flávio de 27% para 30%. O próprio instituto ressalvou que o campo, de 17 a 20 de setembro, mal captava o efeito do anúncio. O que se moveu foi o medo: 59% dos beneficiários temiam a volta dos Bolsonaro, contra 56% na semana anterior, e os que temiam a permanência de Lula caíram de 34% para 29%.

A tese de que o número subiria encontra apoio parcial nos dados seguintes: segundo o resumo da Quaest de 14 de outubro, Lula chegou a 60% entre os beneficiários, contra 31% de Flávio. É um segmento gigantesco, com mais de 27 milhões de potenciais eleitores, concentrado no Nordeste. Mas o contrapeso existe e é maior: entre os evangélicos, Flávio tem 60% contra 28%, uma diferença de 32 pontos, superior aos 29 de Lula entre os beneficiários.

GRÁFICO 4
Bolsa Família: o voto oscila, o medo se move
Beneficiários do programa: intenção de voto no 2º turno e o que mais temem, em %.
Lula Flávio Bolsonaro
Voto Lula · 14/set
58%
Voto Lula · 21/set
56%
Voto Lula · 14/out*
60%
Voto Flávio · 14/set
27%
Voto Flávio · 21/set
30%
Voto Flávio · 14/out*
31%
Medo da volta dos Bolsonaro · 14/set
56%
Medo da volta dos Bolsonaro · 21/set
59%
Medo da permanência de Lula · 14/set
34%
Medo da permanência de Lula · 21/set
29%
Fonte: Quaest de 21/9 (Terra, Estadão Conteúdo). *Dados de 14/10 conforme resumo publicado por veículos que cobriram a rodada; conferir no relatório do instituto. O reajuste de 15,02% foi anunciado em 17/9, durante o campo.

As duas apostas da reta final: STF e bets

Foi dito que a crise do STF “caiu no colo” do bolsonarismo. Procurei essa evidência e não a encontrei. O Datafolha de 18 de setembro mostrou 38% apontando a campanha de Lula como a mais prejudicada, contra 31% para a de Flávio, e 25% achando que a crise não prejudica nenhum dos dois. A AtlasIntel, de 23 de setembro, registrou 52,3% dizendo que o desgaste pesa mais sobre Lula. E, segundo o Datafolha de 12 de setembro, 85% dos entrevistados afirmavam que as acusações envolvendo o ministro Alexandre de Moraes não alteravam sua preferência. O mais prudente é tratar o episódio como um empate de desgastes.

GRÁFICO 5
Crise no STF: quem os eleitores veem como mais prejudicado
Datafolha de 15 a 17 de setembro, em %. A AtlasIntel (17 a 22/9) achou 52,3% apontando Lula como o mais atingido.
A campanha de Lula
38%
A campanha de Flávio
31%
Nenhuma das duas
25%
Fontes: Datafolha, via CartaCapital/Ground News (18/9); AtlasIntel/Bloomberg, via SBT News (23/9).

A segunda aposta foi a Medida Provisória 1.394/2026, assinada em 25 de setembro, nove dias antes do primeiro turno, que proíbe o funcionamento das bets. Há uma lógica social forte nela: o endividamento das famílias pelo jogo é um problema real e Lula o trata como questão de saúde pública.

“Isso é como um câncer.”
Lula, ao assinar a MP que proíbe as bets, em 25 de setembro (Metrópoles)

Mas é aposta, não certeza. Flávio chamou a medida de “hipócrita, eleitoreira e populista”; o setor foi ao STF; o Ministério Público junto ao TCU pediu que os efeitos só comecem em 31 de dezembro, apontando caráter eleitoreiro; e a MP perde a validade em março de 2027 se o Congresso não a converter em lei. Nenhuma pesquisa que encontrei isola o efeito da medida sobre o voto. O que se sabe é que, nove dias depois dela, a urna deu a primeira colocação a Flávio. A tese de que a MP das bets seria “o pacote final” que levaria Lula à vitória, até no primeiro turno, não se confirmou.

O retrato de hoje: um país no fio da navalha

Nos oito levantamentos divulgados entre 14 e 20 de outubro que reuni, Flávio aparece à frente nos votos válidos em sete, quase sempre por margem de menos de um a quatro pontos, ou seja, dentro ou no limite do erro. A média simples é de 50,8% para Flávio e 49,2% para Lula. A AtlasIntel, divulgada em 19 de outubro, traz Flávio com 49,8% e Lula com 47,6% nos votos totais. Um empate técnico com leve inclinação para o lado do senador, e nada além disso.

GRÁFICO 6
As pesquisas dos últimos dias: um país partido ao meio
Votos válidos no 2º turno, em %, nas divulgações de 14 a 20 de outubro. Média simples: Flávio 50,8%, Lula 49,2%.
Lula Flávio Bolsonaro
Quaest · 14/10
49 51
Datafolha · 15/10
49 51
CNT/MDA · 16/10
49,5 50,5
Veritá · 17/10
48,9 51,1
Ipespe/Abrapel · 17/10
48,8 51,2
Vox Brasil · 18/10
51 49
BTG/Nexus · 19/10
49,7 50,3
Real Time Big Data · 20/10
48 52
Fontes: levantamento comparativo do Litoral Mania (20/10); Brasil de Fato (20/10); Alfinetei (20/10). Cada instituto tem metodologia e margem de erro próprias.
GRÁFICO 7
Onde cada um é forte
Intenção de voto em segmentos, em %. Os blocos vêm de institutos diferentes; não comparar diretamente entre linhas.
Lula Flávio Bolsonaro
Evangélicos (Quaest 14/10)
28%
Evangélicos (Quaest 14/10)
60%
Beneficiários do Bolsa Família (Quaest 14/10)
60%
Beneficiários do Bolsa Família (Quaest 14/10)
31%
Nordeste (Datafolha 6-7/10)
61%
Nordeste (Datafolha 6-7/10)
35%
Sul (Datafolha 6-7/10)
35%
Sul (Datafolha 6-7/10)
58%
Fontes: Quaest (14/10), via resumo publicado por veículos; Datafolha de 6 e 7/10 (Tribuna de Jundiaí). Em cada par, a barra bordô é Lula e a escura é Flávio.

O outro lado dos números

Um bom artigo de opinião deve dar a melhor versão do argumento contrário. A de Flávio é a seguinte: ele venceu o primeiro turno, lidera a maioria das pesquisas desde então, domina entre evangélicos e no Sul, tem rejeição estatisticamente igual à de Lula e enfrenta um governo cuja aprovação continua abaixo da desaprovação. Seus aliados dirão ainda que o reajuste do Bolsa Família e a MP das bets, anunciados em plena campanha, têm cheiro de medida eleitoral, e há agentes públicos que dizem o mesmo. É uma narrativa consistente com os números, e só não a considera quem não quer ler o primeiro turno.

EM SÍNTESE
1. A força de Lula é resiliência, e não excedente: voto, aprovação e rejeição estão no mesmo patamar.
2. Suas reservas são reais: mulheres (44% a 37% na Quaest de 21/9), Bolsa Família (60% a 31%) e Nordeste.
3. As reservas de Flávio também: evangélicos (60% a 28%), Sul e a liderança numérica desde o primeiro turno.
4. STF e bets não decidiram nada até aqui. A eleição está dentro da margem de erro.

O que decide domingo

Se me perguntam, minha leitura é que não há favorito confortável, e quem disser o contrário está vendendo torcida. Lula tem as reservas certas, mas elas só viram voto se o medo do adversário se converter em comparecimento: mulheres que ainda não votaram nele, beneficiários que precisam ir à urna, nordestinos que não se abstenham. Flávio tem a vantagem de quem já chegou na frente e a de um eleitorado, o evangélico, que sabe muito bem a quem quer derrotar.

A pesquisa de setembro foi boa para Lula como termômetro das suas bases. Não foi, como se disse, a prova de que o jogo estava ganho. Em eleição apertada, o melhor serviço que a análise presta ao leitor é lembrar que a última pesquisa não vota. Quem vota é o eleitor, no domingo, 25 de outubro.

COMO LER ESTES DADOS
Pesquisas são retratos de um momento, não previsões. A Quaest de setembro ouviu 2.004 eleitores presencialmente, de 17 a 20/9 (registro BR-06004/2026, margem de 2 pontos). As de 14/10 e 17 a 20/10 ouviram 2.154 (BR-08729/2026 e BR-08535/2026). Dados de segmentos têm margem maior que a da amostra total. Onde os números vêm de resumos publicados por veículos e não do relatório do instituto, isso está sinalizado.
FONTES

Eleições 2026Pesquisa QuaestLulaFlávio BolsonaroBolsa FamíliaVoto feminino

Padre Carlos  — colunista político — Política e Resenha