
Lula reage, Flávio resiste: o que as pesquisas revelam sobre a disputa pelo Brasil
Um ponto percentual pode dominar as manchetes, mas os números dizem mais sobre uma sociedade dividida do que sobre um vencedor.
Por Padre Carlos Josaphat
Apolítica brasileira entrou em uma fase decisiva, na qual um ponto percentual pode dominar as manchetes, alimentar expectativas e provocar reações nos dois campos que disputam o comando do país. As pesquisas eleitorais divulgadas em outubro de 2026 mostram uma disputa acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Mais do que anunciar um possível vencedor, os números revelam uma sociedade dividida, uma eleição ainda indefinida e uma questão fundamental: qual dos dois candidatos conseguirá convencer os eleitores que permanecem resistentes, indecisos ou insatisfeitos com as alternativas disponíveis?
Um empate técnico, com Flávio numericamente à frente
Os dados da Quaest e do PoderData/Aya oferecem elementos importantes para compreender esse cenário. Na Quaest, divulgada em 21 de outubro, Flávio aparece com 45% das intenções de voto, contra 44% de Lula. O levantamento ouviu 2.154 pessoas entre os dias 17 e 20, com margem de erro de dois pontos percentuais. Já o PoderData/Aya apresenta 49% para Flávio e 48% para Lula, considerando os votos totais. Nesse caso, foram ouvidos 4.000 eleitores entre os dias 19 e 21 de outubro, com margem de erro de 1,6 ponto percentual.
Os dois levantamentos apontam diferenças pequenas, insuficientes para sustentar uma conclusão definitiva sobre quem vencerá. O que existe é um empate técnico, acompanhado de uma vantagem numérica de Flávio nos dois levantamentos citados.
| Gráfico 1 — Intenções de voto para presidente (2º turno) | ||
| Quaest · 17 a 20/out · 2.154 entrevistados · ±2 p.p. | ||
| Flávio Bolsonaro | 45% | |
| Lula | 44% | |
| PoderData/Aya · 19 a 21/out · 4.000 entrevistados · ±1,6 p.p. · votos totais | ||
| Flávio Bolsonaro | 49% | |
| Lula | 48% | |
Intenções de voto para presidente no segundo turno. Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula, mas a diferença está dentro da margem de erro dos dois levantamentos. Escala de 0 a 60%. Fontes: Quaest e PoderData/Aya, conforme os dados citados.
| Uma pesquisa não é uma previsão infalível, tampouco uma apuração antecipada. É um instrumento estatístico que procura medir as intenções de voto em determinado período. Destaque do texto |
Essa distinção é essencial para o jornalismo responsável. Uma pesquisa não é uma previsão infalível, tampouco uma apuração antecipada. É um instrumento estatístico que procura medir as intenções de voto em determinado período. A campanha pode mudar, os acontecimentos podem alterar percepções e o comportamento dos eleitores pode se modificar até o momento da votação. Portanto, tanto a comemoração antecipada de um lado quanto o anúncio de uma virada garantida pelo outro representam interpretações que ultrapassam aquilo que os dados efetivamente demonstram.
A rejeição e os limites do crescimento
A segunda dimensão da disputa está na rejeição. Na Quaest, 52% dos entrevistados afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro, enquanto 47% manifestam rejeição a Lula. Na comparação apresentada pelo vídeo, o PoderData registra 47% de rejeição a Lula e 45% a Flávio. Como os questionários e as datas de referência precisam ser considerados, esses resultados devem ser analisados separadamente, sem presumir que os institutos mediram exatamente a mesma realidade da mesma maneira.
A rejeição importa porque estabelece limites para o crescimento eleitoral. Em uma disputa polarizada, o candidato não precisa apenas convencer quem já concorda com suas ideias. Precisa também conquistar a confiança de eleitores que desconfiam de sua trajetória, de suas alianças ou de suas propostas. Um candidato pode possuir uma base eleitoral muito fiel e, ainda assim, enfrentar dificuldades para ampliar sua votação.
| Gráfico 2 — Rejeição declarada aos candidatos | ||
| Quaest · “não votaria de jeito nenhum” | ||
| Flávio Bolsonaro | 52% | |
| Lula | 47% | |
| PoderData/Aya · conforme transcrição citada | ||
| Flávio Bolsonaro | 45% | |
| Lula | 47% | |
Rejeição declarada aos candidatos. Na Quaest, Flávio Bolsonaro apresenta rejeição maior do que Lula; os dados do PoderData reproduzidos no gráfico são os informados na transcrição do vídeo. Escala de 0 a 60%. Fontes: Quaest e dados atribuídos ao PoderData/Aya.
O gráfico mostra que o desafio dos concorrentes é diferente, embora igualmente importante. Lula precisa demonstrar que seu governo é capaz de responder às insatisfações acumuladas e oferecer perspectivas concretas para o futuro. Flávio Bolsonaro precisa apresentar-se como uma alternativa de governo consistente, capaz de superar as resistências associadas à polarização política e ao legado da família Bolsonaro. Em ambos os casos, a capacidade de dialogar com eleitores que estão fora da militância será determinante.
Cuidado ao comparar pesquisas diferentes
Existe, entretanto, um cuidado necessário ao comparar pesquisas diferentes. Os resultados do PoderData e da Quaest não devem ser tratados como se fossem medições realizadas pelo mesmo instrumento. Os institutos podem utilizar procedimentos, questionários, amostras e formas de abordagem distintos. Além disso, uma variação entre duas pesquisas não comprova, por si só, uma tendência permanente de crescimento ou queda. Para identificar movimentos consistentes, é necessário observar uma série de levantamentos e verificar se as mudanças ultrapassam as oscilações estatísticas esperadas.
A avaliação do governo Lula
A avaliação do governo Lula constitui outra dimensão importante da disputa. Segundo os percentuais apresentados na transcrição do canal Politizando, a aprovação seria de 46%, enquanto a desaprovação alcançaria 47% na Quaest e 50% no PoderData. Esses números sugerem um governo que enfrenta dificuldades para conquistar uma maioria de avaliação positiva, embora a diferença entre aprovação e desaprovação tenha diminuído em relação aos levantamentos anteriores mencionados no vídeo.
É importante esclarecer que esses percentuais de avaliação do governo foram reproduzidos da transcrição fornecida e precisam ser conferidos nos relatórios originais antes de serem apresentados como dados oficialmente verificados.
| Gráfico 3 — Aprovação e desaprovação do governo Lula | ||
| Aprovação | 46% | |
| Desaprovação (Quaest) | 47% | |
| Desaprovação (PoderData) | 50% | |
Aprovação e desaprovação do governo Lula, segundo os números reproduzidos na análise do canal Politizando. Os percentuais devem ser conferidos nos relatórios originais dos institutos antes da publicação. Escala de 0 a 60%.
A interpretação política merece atenção. A avaliação de um presidente não se constrói apenas com anúncios de investimentos, indicadores macroeconômicos ou declarações oficiais. Ela depende da maneira como a população percebe as mudanças em sua própria vida. O preço dos alimentos, o custo do aluguel, o acesso a médicos, a qualidade da educação, a segurança pública e as oportunidades de trabalho influenciam a opinião do eleitor. O crescimento econômico pode ser uma notícia positiva para o governo, mas sua força eleitoral depende, em grande medida, de os cidadãos perceberem os benefícios em seu cotidiano.
É por isso que uma campanha presidencial não pode ser reduzida a uma disputa de slogans. O eleitor quer saber se sua renda será suficiente para sustentar a família, se encontrará emprego, se conseguirá pagar as contas e se terá acesso a serviços públicos de qualidade. Quando o governo não consegue responder satisfatoriamente a essas preocupações, abre espaço para a oposição. Quando apresenta resultados concretos e consegue explicá-los de maneira convincente, pode recuperar a confiança de parcelas do eleitorado.
O medo político e o voto defensivo
Outro aspecto mencionado na análise do Politizando é o temor em relação aos dois projetos políticos. Segundo a transcrição, 44% dos entrevistados pela Quaest temeriam mais a volta da família Bolsonaro ao poder, enquanto 42% temeriam mais um novo governo Lula. A diferença é pequena e deve ser interpretada com cautela, especialmente enquanto não se confere a formulação exata da pergunta no questionário original.
O dado, entretanto, levanta uma questão importante: em eleições altamente polarizadas, o voto pode ser motivado não apenas pela identificação com um candidato, mas também pelo receio de que o adversário represente riscos maiores.
| Gráfico 4 — Medo político (Quaest) | ||
| Teme mais a volta da família Bolsonaro | 44% | |
| Teme mais um novo governo Lula | 42% | |
Medo político, segundo os percentuais reproduzidos na transcrição do canal Politizando. A diferença é pequena e a formulação exata da pergunta deve ser conferida no questionário original. Escala de 0 a 60%.
O voto defensivo é um fenômeno conhecido nas democracias. Em determinadas circunstâncias, o eleitor escolhe não porque considera o candidato ideal, mas porque entende que a outra alternativa seria pior. Essa lógica pode mobilizar bases eleitorais, mas também revela as limitações de uma política sustentada exclusivamente pelo medo. Um projeto democrático consistente precisa apresentar propostas, resultados e perspectivas que ultrapassem a simples rejeição ao adversário.
Lula e Flávio Bolsonaro enfrentam, portanto, o desafio de transformar suas bases eleitorais em maiorias efetivas. O presidente precisa demonstrar que a continuidade de seu governo produzirá avanços concretos, sobretudo para os trabalhadores, os mais pobres e a classe média pressionada pelo custo de vida. Flávio precisa esclarecer como pretende governar, quais serão suas prioridades e como pretende lidar com as instituições democráticas, as desigualdades sociais e os problemas econômicos do país.
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O que os números mostram
Nas duas pesquisas, Flávio está numericamente à frente, por 1 ponto percentual, dentro da margem de erro: empate técnico. Na Quaest, a rejeição a Flávio (52%) supera a de Lula (47%). No PoderData, a relação se inverte (Lula 47%, Flávio 45%). A desaprovação do governo (47% a 50%) supera a aprovação (46%), mas por margem estreita. O medo do adversário é quase simétrico (44% a 42%). |
Juros, rentismo e investimento social
A disputa também coloca em evidência o debate sobre juros, rentismo e investimento social. A crítica à concentração de renda e ao peso das despesas financeiras no orçamento público é legítima e merece ser discutida com profundidade. Entretanto, é preciso distinguir os juros pagos pelo governo sobre a dívida pública dos juros cobrados pelas instituições financeiras em operações de crédito e dos rendimentos recebidos por investidores. São fenômenos relacionados, mas diferentes, e não podem ser somados ou tratados como uma única despesa.
Uma política econômica voltada à redução das desigualdades precisa considerar o custo do crédito, a sustentabilidade da dívida pública, a eficiência dos gastos, a arrecadação e a necessidade de investimentos produtivos. O país precisa ampliar sua capacidade de financiar saúde, educação, ciência, tecnologia e infraestrutura sem ignorar as consequências econômicas de suas escolhas. O debate sobre a política monetária e o rentismo não se resolve com a demonização genérica do mercado financeiro, mas tampouco deve ser encerrado pela ideia de que as decisões econômicas estão acima das necessidades sociais.
Se Lula conquistar um novo mandato, terá de demonstrar que é possível combinar estabilidade econômica, crescimento e distribuição de renda. Se Flávio Bolsonaro vencer, precisará apresentar uma estratégia capaz de responder às mesmas necessidades, com transparência e responsabilidade institucional. A disputa eleitoral não elimina os problemas estruturais do Brasil; apenas define quem receberá a responsabilidade de enfrentá-los.
Mais do que um ponto percentual
A eleição, afinal, não se resume a um ponto percentual. Os números revelam uma competição apertada, mas não respondem sozinhos à pergunta sobre o futuro do país. A diferença entre os candidatos pode mudar, a rejeição pode oscilar e a avaliação do governo pode melhorar ou piorar. O que não muda é a necessidade de avaliar propostas, verificar informações e cobrar compromissos concretos de quem pretende governar.
Em uma democracia, pesquisas eleitorais devem servir para informar o cidadão, não para substituir sua capacidade de julgamento. O jornalismo tem a responsabilidade de apresentar os dados, explicar suas limitações e separar fatos de interpretações. É justamente quando a disputa se torna mais acirrada que essa responsabilidade se torna indispensável.
A eleição permanece aberta, e o resultado não pode ser antecipado com base em diferenças mínimas. Mais importante do que anunciar uma vitória antes da hora é compreender o que os números revelam sobre o país: uma sociedade dividida, eleitores que exigem respostas e uma disputa em que a confiança, a credibilidade e a capacidade de governar podem pesar tanto quanto a fidelidade partidária.
No fim, a pergunta que deve orientar o eleitor não é apenas quem vencerá, mas qual projeto terá melhores condições de enfrentar a desigualdade, fortalecer as instituições, melhorar os serviços públicos e oferecer um futuro digno à população. É essa discussão que precisa ocupar o centro do debate eleitoral. Porque a democracia não se resume à contagem dos votos: ela também depende da qualidade das escolhas que fazemos e da responsabilidade que cobramos daqueles que elegemos.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




