Política e Resenha

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Eu fiz parte desta história: domingo, talvez seja a última vez que minha geração vote em Lula

Opinião & Memória

Por Padre Carlos

Há momentos na vida em que o coração se recusa a aceitar a passagem do tempo. Olhamos para trás e parece que foi ontem. As ruas, as manifestações, os cartazes erguidos, as vozes que se misturavam nas assembleias, os sonhos que alimentavam nossas conversas madrugada adentro. Éramos jovens, tínhamos pressa de mudar o mundo e uma certeza que nos movia: o Brasil não precisava ser condenado à desigualdade, à fome e à indiferença. Podíamos construir um país diferente.

Eu fiz parte desta história.

Não fui apenas espectador dos acontecimentos que marcaram a vida política brasileira. Vivi um tempo em que a política era também esperança, militância, compromisso e disposição para enfrentar as injustiças. Um tempo em que acreditar na transformação social não era ingenuidade, mas uma escolha de vida. Aprendemos que a democracia não cai do céu, que os direitos não são presentes dos poderosos e que cada conquista carrega a memória de quem lutou para torná-la possível.

É por isso que este domingo tem um significado tão profundo para mim.

Um voto que carrega o tempo

Talvez estejamos diante de uma das últimas oportunidades de minha geração de votar em Luiz Inácio Lula da Silva. Não sei se teremos outra. O tempo não pede licença, a idade chega sem fazer barulho e os anos vão levando consigo companheiros, sonhos antigos e pedaços da nossa própria história. Aqueles que um dia marcharam ao nosso lado já não estão todos aqui. Alguns partiram; outros se afastaram; muitos envelheceram. Mas há uma coisa que o tempo não conseguiu apagar: a memória de quando acreditávamos que o Brasil podia pertencer a todos os brasileiros.

Votar em Lula, para mim, nunca foi apenas apertar um botão na urna eletrônica. É reencontrar uma parte da minha juventude. É lembrar dos trabalhadores que aprenderam a levantar a cabeça, das mulheres que lutaram por dignidade, dos homens e mulheres do campo que reivindicaram terra, dos estudantes que desafiaram o conformismo e dos brasileiros que não aceitavam mais ver a fome tratada como destino.

É lembrar de um Brasil que desejava deixar de ser o país de poucos para se tornar a pátria de muitos.

Lucidez, crítica e memória

Não ignoro os erros, as contradições e as decepções que atravessam a história política. Não acredito em salvadores da pátria, nem considero qualquer liderança acima das críticas. A democracia exige lucidez, fiscalização e liberdade para discordar. Mas também exige memória. E uma sociedade que perde a memória corre o risco de desprezar as próprias conquistas, como se tudo tivesse surgido espontaneamente, sem sacrifícios, sem conflitos e sem gente disposta a pagar o preço da esperança.

A história de Lula se confunde, em muitos aspectos, com a história de milhões de brasileiros que descobriram na política uma possibilidade de mudar o próprio destino. O operário que chegou à Presidência rompeu uma barreira simbólica que parecia intransponível. Sua trajetória representou, para muita gente, a ideia de que o lugar de nascimento, a origem social e a ausência de privilégios não deveriam determinar para sempre o tamanho dos nossos sonhos.

Para quem viveu aqueles anos, isso teve um significado que nenhuma estatística consegue traduzir inteiramente.

Lembro-me de quantas vezes a esperança pareceu distante. De quantas derrotas eleitorais foram necessárias até que a vitória chegasse. Lembro-me de que a democracia brasileira não nasceu pronta e de que as instituições precisam ser defendidas todos os dias. A Constituição, o voto popular, a liberdade de expressão e o direito de escolher nossos governantes não são detalhes burocráticos: são conquistas de uma sociedade que conhece, dolorosamente, o preço da falta de liberdade.

Há histórias que não cabem nos livros. Há lutas que não terminam com uma eleição. E há sonhos que continuam vivos mesmo quando seus sonhadores começam a se despedir.

O que levarei à urna

Por isso, neste domingo, quando eu me aproximar da urna, não estarei levando comigo apenas minhas convicções políticas. Levarei também as lembranças de uma geração inteira.

Levarei os rostos daqueles que acreditaram antes de nós. Levarei as conversas intermináveis, as divergências, as amizades construídas na militância e a convicção de que a política, apesar de tudo, ainda pode ser um instrumento de transformação. Levarei a lembrança dos que sonharam com um país em que nenhuma criança precisasse dormir com fome, nenhum trabalhador fosse tratado como descartável e nenhum brasileiro tivesse sua dignidade diminuída por causa da pobreza.

E levarei, sobretudo, a consciência de que estamos envelhecendo.

Essa talvez seja a parte mais dolorosa desta história. Durante muito tempo, imaginamos o futuro como um território que teríamos pela frente. Agora, começamos a compreender que também somos passado. Somos testemunhas de uma época que as novas gerações conhecerão pelos livros, pelas fotografias, pelos documentários e pelas narrativas daqueles que ainda podem contar o que viveram.

A juventude que fomos está guardada em algum lugar da memória. Às vezes, reaparece numa canção antiga, numa fotografia amarelada, no reencontro inesperado com um companheiro de caminhada. E, de repente, voltamos a ter vinte anos. Voltamos a acreditar que tudo era possível. Voltamos a ouvir as vozes de uma época em que o futuro parecia uma promessa ao alcance das mãos.

Mas o tempo passou. E nós continuamos aqui, com nossas cicatrizes, nossas contradições e nossas esperanças sobreviventes.

Talvez seja por isso que este voto tenha uma dimensão tão íntima. Não se trata apenas de escolher um presidente. Trata-se também de reconhecer quem fomos, o que defendemos e quais sonhos decidimos não abandonar. É uma maneira de dizer a nós mesmos que a passagem dos anos não nos obriga a renunciar àquilo que consideramos justo.

Aos mais jovens

Aos mais jovens, deixo uma mensagem: não desprezem a história de seus pais e avós. Vocês podem discordar de nossas escolhas, questionar nossas certezas e construir caminhos diferentes. É assim que a democracia permanece viva. Mas procurem compreender o mundo que recebemos e o país que tentamos transformar. Antes de julgar os sonhos de uma geração, conheçam as dificuldades que ela enfrentou, as derrotas que suportou e as esperanças que a mantiveram de pé.

Nenhuma geração tem o direito de imaginar que começou a história. Tampouco deve acreditar que será a última a transformá-la.

Se este domingo representar uma despedida, que seja uma despedida digna. Que possamos votar com a serenidade de quem sabe que a vida é passageira, mas os ideais podem sobreviver aos seus portadores. Que possamos olhar para trás sem vergonha de nossas lutas e para a frente sem exigir que os jovens repitam nossos passos.

Eu fiz parte desta história. E não me arrependo de ter acreditado que o Brasil poderia ser mais justo.

Talvez seja a última vez que minha geração tenha a oportunidade de votar em Lula. Talvez ainda haja outros domingos, outras eleições e outras escolhas. Não temos como saber. O que sabemos é que o tempo não volta e que algumas oportunidades, quando passam, tornam-se lembranças.

Por isso, no domingo, votarei também com a memória. Com a memória dos que vieram antes, dos que caminharam comigo e dos que já não podem estar presentes. Votarei consciente de que Lula não é dono dos nossos sonhos, mas faz parte de uma história que ajudamos a construir e que continuará a ser discutida muito depois de nós.

E, quando sair da seção eleitoral, levarei comigo uma emoção difícil de explicar: a sensação de ter reencontrado, por alguns instantes, aquele jovem que fui um dia e que, apesar de todas as desilusões da vida, nunca deixou inteiramente de acreditar.

Porque há histórias que não cabem nos livros. Há lutas que não terminam com uma eleição. E há sonhos que continuam vivos mesmo quando seus sonhadores começam a se despedir.

Eu fiz parte desta história. E, enquanto houver memória, uma parte dela continuará vivendo em mim.

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Padre Carlos

Testemunha de uma geração que acreditou que o Brasil podia ser mais justo.