Política · Vitória da Conquista · Eleições 2028
Por Padre Carlos
Na política, o diálogo é sempre bem-vindo. Mas existe uma diferença fundamental entre procurar entendimento e apresentar condições prévias como se a outra parte estivesse obrigada a aceitá-las. É justamente nessa contradição que parecem se encontrar as recentes declarações do deputado estadual Tiago Correia (PSDB) sobre uma possível reaproximação com a prefeita Sheila Lemos (União Brasil), depois dos conflitos que marcaram a disputa eleitoral em Vitória da Conquista.
O deputado afirma que, no momento oportuno, um dos dois procurará o outro para conversar, tendo em vista as eleições municipais de 2028. Até aqui, nada de extraordinário. A política exige diálogo, especialmente entre forças que já caminharam juntas e que podem voltar a compartilhar interesses. O problema começa quando essa disposição para conversar vem acompanhada de declarações que antecipam nomes, distribuem candidaturas e parecem estabelecer limites para a própria negociação.
Tiago Correia menciona Adriano Mendes e Edivaldo Ferreira Júnior como alternativas do PSDB, revela que o vereador Ivan Cordeiro, do PL, já conversou com ele sobre uma eventual candidatura com apoio dos tucanos e admite que ele próprio poderá entrar na disputa pela Prefeitura. Ora, se a intenção é reconstruir pontes com Sheila Lemos, não seria mais prudente começar reconhecendo o papel da prefeita na condução política do grupo que ela lidera?
Uma aliança não se constrói com exigências antecipadas
A questão não é negar ao deputado o direito de apresentar seu nome, defender seus aliados ou sonhar com a Prefeitura. Todos esses movimentos fazem parte do jogo democrático. A questão é compreender que uma aliança política não se constrói pela antecipação de exigências, muito menos pela tentativa de colocar a principal liderança do grupo diante de um cenário previamente desenhado por outros atores.
Sheila Lemos não é uma liderança periférica que precise receber autorização de terceiros para participar da discussão sobre o futuro político de Vitória da Conquista. É a prefeita reeleita, a principal referência do grupo governista municipal e a dirigente política que, pelas responsabilidades do cargo e pelo capital eleitoral acumulado, ocupa posição central na construção da sucessão de 2028.
Isso não significa que Sheila deva decidir tudo sozinha, ignorando os partidos, os vereadores, os deputados e as demais lideranças. Significa, antes, reconhecer a hierarquia política que a realidade municipal estabeleceu. Uma coisa é construir coletivamente a candidatura; outra, bem diferente, é tentar transformar a negociação em uma disputa antecipada para saber quem consegue impor seu nome.
Um teste de coerência política
A pergunta, portanto, é inevitável: Tiago Correia estará disposto a dialogar se o nome escolhido por Sheila Lemos não for aquele que ele considera ideal? E mais: aceitará participar de uma construção coletiva caso a prefeita entenda que a melhor alternativa para 2028 não seja ele próprio nem um dos nomes que hoje aparecem em suas declarações?
Essas perguntas não constituem uma acusação, mas um teste de coerência política. Afinal, a disposição para dialogar não pode ser medida apenas quando existe a possibilidade de vitória pessoal. Ela se revela, sobretudo, quando a decisão coletiva contraria nossas preferências individuais.
Quem deseja construir uma aliança precisa estar preparado para ouvir, ponderar, apresentar argumentos e, se necessário, rever posições. Se cada interlocutor chegar à mesa com o nome escolhido, os aliados previamente distribuídos e as condições já estabelecidas, não haverá propriamente diálogo. Haverá uma disputa por poder disfarçada de negociação.
Não haverá propriamente diálogo. Haverá uma disputa por poder disfarçada de negociação.
Pluralidade de pretendentes não é falta de liderança
A sucessão municipal de 2028 está distante o suficiente para que o grupo governista discuta alternativas com tranquilidade. Não há razão para transformar o processo em uma corrida precipitada, na qual cada liderança tenta demarcar território antes mesmo de se conhecerem as circunstâncias políticas e eleitorais que estarão presentes naquele momento.
Também chama a atenção a avaliação de Tiago Correia de que a disputa pela Prefeitura estaria totalmente aberta, acompanhada da ironia sobre a quantidade de interessados na sucessão de Sheila. O deputado chega a ironizar a possibilidade de que a disputa se transforme em uma espécie de “farofa” caso todos decidam lançar seus nomes.
É possível compreender a preocupação com a fragmentação do grupo governista. Entretanto, a multiplicidade de pretendentes não significa, necessariamente, ausência de liderança ou falta de organização. Pode representar, simplesmente, o interesse de diferentes atores em participar de uma disputa que ainda está em sua fase inicial. Cabe à liderança política conduzir esse processo, avaliar as alternativas e trabalhar para que a pluralidade não se converta em divisão.
E, nesse aspecto, Sheila Lemos tem uma responsabilidade que nenhum dos demais pretendentes pode substituir: a de preservar a unidade de seu campo político e conduzir, no momento adequado, a construção de uma candidatura competitiva. Não é razoável cobrar da prefeita que apresente imediatamente um sucessor enquanto outros agentes políticos se movimentam livremente para defender seus próprios projetos.
A escolha de um candidato não pode ser reduzida a uma competição entre ambições individuais. Deve considerar a capacidade administrativa, a identificação com o eleitorado, a experiência política, a possibilidade de ampliar alianças e, sobretudo, as condições de preservar o projeto que recebeu o respaldo das urnas.
A oposição não está isolada no deserto político
Mas há outro ponto nas declarações do deputado que merece uma análise mais cuidadosa: sua avaliação sobre a oposição.
Ao afirmar que o PT não dispõe de uma candidatura forte e que Quinho, do PSD, teria pouco espaço na disputa municipal, Tiago Correia parece olhar para o cenário eleitoral a partir de uma fotografia incompleta. A política não se resume aos nomes que estão disponíveis hoje, tampouco pode ser analisada exclusivamente pela força individual dos possíveis candidatos.
A oposição em Vitória da Conquista não está isolada no deserto político. O PT governa o país com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e integra o campo político que comanda o governo da Bahia, sob a liderança do governador Jerônimo Rodrigues. Essa presença institucional representa acesso a estruturas políticas, capacidade de articulação, interlocução com lideranças estaduais e nacionais e possibilidade de mobilizar diferentes segmentos do eleitorado.
Evidentemente, controlar os governos estadual e federal não garante vitória em uma eleição municipal. A gestão local, a avaliação dos candidatos, as alianças e a relação com a população continuam sendo fatores decisivos. Mas ignorar o peso dessas estruturas seria cometer um erro elementar de análise política.
O PT não precisa apresentar hoje um candidato eleitoralmente imbatível para continuar sendo uma força relevante em Vitória da Conquista. Uma candidatura pode ganhar densidade durante o processo eleitoral, especialmente quando conta com alianças, estrutura partidária e lideranças capazes de mobilizar diferentes setores da sociedade. A ausência de um nome consolidado neste momento não deve ser confundida com ausência de capacidade competitiva em 2028.
O mesmo raciocínio vale para Quinho, liderança política do PSD com trajetória regional e experiência administrativa como ex-prefeito de Belo Campo. Pode-se discutir seu potencial eleitoral, suas alianças e suas possibilidades de crescimento em Vitória da Conquista. O que não parece adequado é antecipar seu limite político sem uma análise consistente das condições que poderão favorecer ou dificultar sua candidatura.
Menos certezas antecipadas, mais atenção aos fatos
E aqui cabe uma pergunta objetiva: quantos votos Tiago Correia recebeu em Vitória da Conquista e quantos recebeu Quinho? A comparação é importante, mas precisa ser feita com os números oficiais das eleições para deputado estadual de 2026, considerando os votos de cada candidato especificamente no município. Sem essa conferência, qualquer afirmação categórica sobre quem demonstrou maior força eleitoral corre o risco de se transformar em impressão pessoal apresentada como fato.
O deputado tem todo o direito de avaliar o cenário e defender suas convicções. O que se espera de um agente político experiente, entretanto, é que suas conclusões sejam sustentadas por dados, pelo conhecimento das forças em disputa e pela compreensão de que a política está sempre sujeita a mudanças.
A história eleitoral brasileira está repleta de candidatos considerados fracos que cresceram durante uma campanha e de nomes tratados como favoritos que terminaram derrotados. Estruturas de governo ajudam, mas não substituem a capacidade de conquistar votos. Da mesma forma, uma liderança regional não pode ser descartada apenas porque ainda não demonstrou, em determinada cidade, toda a sua capacidade de mobilização.
A análise política exige menos certezas antecipadas e mais atenção aos fatos.
Reciprocidade e confiança
Para Sheila Lemos, o desafio será preservar a unidade de sua base, administrar as ambições dos aliados e escolher, no tempo apropriado, o nome que melhor represente a continuidade de seu projeto político. Para Tiago Correia, o desafio é demonstrar que a reaproximação que anuncia não está condicionada à satisfação de seus próprios interesses eleitorais.
Se pretende reconstruir a relação com a prefeita, o deputado precisa compreender que o diálogo pressupõe reciprocidade. Não basta declarar disposição para conversar enquanto se apresentam nomes, alianças e pretensões que podem estreitar o espaço da negociação antes mesmo de ela começar.
A política é feita de interesses, mas também de confiança. E a confiança não nasce da imposição de condições: nasce da capacidade de reconhecer o outro, respeitar seu espaço e compreender que uma construção coletiva exige concessões de todas as partes.
Em Vitória da Conquista, 2028 não será decidido apenas pelas ambições manifestadas em entrevistas. Será decidido pela capacidade de cada liderança interpretar a realidade, construir alianças, dialogar com a sociedade e compreender o funcionamento do jogo democrático.
Tiago Correia pode ser um interlocutor importante nesse processo. Pode defender seu nome, apresentar alternativas e participar ativamente da construção do futuro político do município. Mas, se deseja realmente conversar com Sheila Lemos, precisa estar preparado para aceitar que a decisão final sobre a candidatura do grupo não será determinada antecipadamente por suas preferências pessoais.
Em síntese
Quem quer dialogar não chega à mesa com a decisão pronta. Chega com argumentos, disposição para ouvir e coragem para aceitar o resultado de uma construção coletiva.
Tiago Correia
Sheila Lemos
Vitória da Conquista
Eleições 2028
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União Brasil
Política Municipal
Padre Carlos Josaphat — Colunista político — Política e Resenha





