Política e Resenha

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A DIREITA BRASILEIRA ENTRE A HERANÇA DE BOLSONARO E A NECESSIDADE DE MUDAR

Análise política

O ESPELHO DO BOLSONARISMO:

A política brasileira tem dessas ironias: quem passou anos falando em patriotismo, defendendo a família e acusando os adversários de querer destruir o Brasil agora precisa explicar por que suas principais lideranças apostam tanto em estratégias que as afastam do próprio país. O bolsonarismo, que transformou o confronto em método e Jair Bolsonaro em símbolo de uma parcela expressiva do eleitorado, enfrenta hoje uma pergunta incômoda: como sobreviver sem continuar prisioneiro do próprio líder?

É preciso reconhecer uma coisa: o bolsonarismo não desapareceu. Seria um erro imaginar que milhões de brasileiros mudariam de opinião de uma hora para outra. Existe no país uma direita conservadora, um eleitorado antipetista e uma parcela da população insatisfeita com os rumos da política nacional. Esse sentimento é real e continuará fazendo parte da democracia brasileira. O problema é que uma coisa é representar esse eleitorado; outra, muito diferente, é convencê-lo de que a política deve girar eternamente em torno de uma única família.

“A direita brasileira tem diante de si uma escolha histórica: continuar girando em torno do destino político de Jair Bolsonaro ou construir um projeto que sobreviva a ele.”

O desgaste de um modelo personalista

O que estamos vendo é o desgaste de um modelo político que apostou demais na personalidade de Jair Bolsonaro e de menos na construção de um projeto capaz de sobreviver aos seus próprios conflitos. Durante anos, o ex-presidente conseguiu reunir grupos diferentes sob uma mesma bandeira: conservadores, liberais na economia, setores religiosos, militares, empresários e eleitores movidos pelo antipetismo. Mas reunir pessoas contra um adversário é muito mais fácil do que construir um projeto comum para governar o país.

Enquanto havia uma liderança forte, as divergências ficavam escondidas debaixo do mesmo teto. Agora, com Bolsonaro enfrentando restrições judiciais e seu campo político precisando reorganizar-se, as diferenças começam a aparecer. Quem será o sucessor? Quem terá o direito de falar em nome desse eleitorado? E, principalmente, quem estará disposto a construir uma direita capaz de disputar o poder sem transformar cada decisão judicial, cada eleição e cada derrota política em motivo para uma nova crise institucional?

A família Bolsonaro também enfrenta esse dilema. Durante muito tempo, seus integrantes funcionaram como peças de uma engrenagem política organizada em torno do ex-presidente. Mas uma coisa é herdar votos; outra é herdar a capacidade de liderar. A política não funciona como uma empresa familiar na qual o comando passa automaticamente de pai para filho. O eleitor pode demonstrar fidelidade durante anos e, ainda assim, procurar outra liderança quando percebe que os conflitos internos estão ocupando o lugar das propostas.

Entre a denúncia e a responsabilidade institucional

Quando uma liderança ou seus aliados buscam apoio no exterior, a estratégia pode até mobilizar os mais fiéis, especialmente quando acompanhada de um discurso de perseguição política. Entretanto, há uma diferença entre denunciar abusos, exigir respeito ao devido processo legal e transformar qualquer dificuldade judicial em prova de uma conspiração. Democracia exige instituições sujeitas à crítica, mas também exige que acusações sejam sustentadas por fatos e que decisões sejam contestadas pelos caminhos legais.

A direita brasileira precisa compreender que o eleitor conservador não pertence a Jair Bolsonaro, assim como o eleitor de esquerda não pertence ao PT. O voto é uma escolha política, não uma escritura de propriedade. Quem confunde liderança com posse do eleitorado acaba cometendo um erro grave: imagina que seus apoiadores jamais terão motivos para mudar de opinião.

Os possíveis herdeiros e seus desafios

É nesse cenário que surge o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Com um perfil mais administrativo e capacidade de dialogar com setores empresariais e políticos, ele pode representar uma tentativa de reorganização da direita. Mas existe uma condição: precisará demonstrar que tem projeto próprio e autonomia para tomar decisões, sem ficar permanentemente submetido às exigências de uma liderança que já não ocupa a Presidência da República.

Tarcísio terá de responder a uma questão decisiva: quer construir uma alternativa conservadora para o Brasil ou pretende apenas administrar a herança política de Bolsonaro? As duas coisas não são necessariamente incompatíveis, mas podem entrar em choque quando a fidelidade pessoal exigir atitudes que prejudiquem o próprio projeto de poder.

Michelle Bolsonaro, por sua vez, dispõe de uma relação importante com segmentos evangélicos e com eleitores que se identificam com suas posições conservadoras. Sua eventual participação em uma disputa nacional dependerá, porém, de mais do que popularidade e proximidade com o ex-presidente. Será necessário demonstrar capacidade de articulação, apresentar propostas e construir uma identidade política que não dependa exclusivamente do sobrenome Bolsonaro.

Já Nikolas Ferreira representa outra dimensão desse movimento: a política das redes sociais, da comunicação direta e do confronto permanente. É um estilo que consegue mobilizar apoiadores, dominar debates digitais e produzir grande repercussão. Mas existe uma diferença entre viralizar nas redes e governar um país. A indignação pode conquistar atenção; administrar a economia, negociar com o Congresso e respeitar os limites institucionais exige outras competências. Além disso, a possibilidade de disputar a Presidência depende dos requisitos constitucionais de elegibilidade, entre eles a idade mínima de 35 anos.

Religião, partidos e pragmatismo

O futuro da direita também passa pelas igrejas evangélicas. Seria injusto tratar esse segmento como um bloco uniforme ou imaginar que seus fiéis votam todos da mesma maneira. Há diferenças regionais, sociais e teológicas. Muitos encontram nas igrejas acolhimento, solidariedade e apoio que o poder público não consegue oferecer. Essa realidade merece respeito.

Entretanto, quando determinadas lideranças religiosas vinculam de maneira excessiva a fé a um projeto partidário, correm o risco de transformar o púlpito em extensão de um palanque. A consequência pode ser dolorosa: a mensagem religiosa passa a ser julgada pelos erros dos políticos que ajudou a eleger. A fé é maior do que qualquer partido, e nenhuma liderança política deveria ter o poder de sequestrar a consciência dos fiéis.

O mesmo vale para o PL e para os setores do chamado Centrão. Na política brasileira, alianças são construídas e desfeitas de acordo com interesses, perspectivas eleitorais e possibilidades de ocupar espaços de poder. A fidelidade absoluta é rara quando os custos políticos aumentam. Por isso, não surpreende que dirigentes partidários procurem alternativas para preservar suas bancadas, seus projetos e sua influência. O pragmatismo, que tantas vezes foi apresentado como habilidade política, pode acabar se voltando contra quem acreditava possuir aliados incondicionais.

Uma direita capaz de ir além

A questão central, contudo, vai além da disputa entre os herdeiros de Bolsonaro. O Brasil precisa de uma direita forte, assim como precisa de uma esquerda capaz de disputar democraticamente os rumos do país. Uma democracia saudável não depende da eliminação dos adversários, mas da existência de forças políticas que apresentem propostas, fiscalizem o governo e aceitem as regras do jogo.

Uma direita democrática pode defender a redução de impostos, o empreendedorismo, a segurança pública, valores conservadores e uma política econômica diferente daquela defendida pela esquerda. Pode criticar Lula, o PT, o Supremo Tribunal Federal e qualquer instituição pública, desde que o faça com argumentos, fatos e respeito à Constituição. O que não pode é confundir crítica com deslegitimação permanente, oposição com sabotagem institucional ou derrota eleitoral com autorização para desrespeitar a vontade popular.

É justamente aí que o bolsonarismo precisa olhar para o espelho. Se continuar acreditando que toda crítica é perseguição, toda derrota é fraude e toda liderança que não se submete à família é uma traidora, terá dificuldade para ampliar sua base. Poderá conservar um núcleo de apoiadores fiéis, mas corre o risco de afastar eleitores que desejam uma alternativa ao PT sem querer viver em permanente estado de conflito.

O desafio não é pequeno. Reinventar-se exige reconhecer erros, abandonar certas práticas e compreender que nenhum líder está acima das instituições. Exige também separar o conservadorismo legítimo da intolerância, o patriotismo do culto pessoal e a defesa da liberdade da tentativa de enfraquecer as regras democráticas.

A direita brasileira tem diante de si uma escolha histórica: continuar girando em torno do destino político de Jair Bolsonaro ou construir um projeto que sobreviva a ele. A primeira opção pode manter a chama acesa entre os mais radicalizados. A segunda oferece a possibilidade de disputar o futuro com propostas, alianças e responsabilidade institucional.

No fim das contas, o maior adversário do bolsonarismo talvez não esteja na esquerda, no Supremo ou no governo Lula. Pode estar dentro dele próprio: na dificuldade de aceitar limites, na resistência em reconhecer erros e na tentação de transformar uma corrente política em patrimônio de uma família.

A democracia brasileira não precisa de uma direita domesticada, muito menos de uma oposição silenciosa. Precisa de uma direita que saiba perder sem ameaçar as regras, vencer sem se julgar dona do país e governar sem confundir o Estado com os interesses de um grupo.

O verdadeiro teste da direita brasileira não será provar que consegue sobreviver a Bolsonaro. Será demonstrar que consegue ir além dele.

Bolsonarismo
Direita brasileira
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Política nacional

Por Padre Carlos