O Voto é Livre, mas a Cidade Não Pode Ser Refém: Mudar de Lado Agora Soa como Boicote a Vitória da Conquista
O
plenário da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista se prepara para reviver um debate que, à primeira vista, parece técnico e burocrático, mas que carrega em suas entranhas o futuro imediato de milhares de cidadãos. A necessidade de adequação de um dispositivo legal exigido pela Caixa Econômica Federal para a continuidade do programa de financiamentos municipal — cujo teto global atinge os R$ 400 milhões — recoloca o Legislativo diante de uma escolha que vai muito além do regimento interno. Trata-se de um teste de coerência e de compromisso público.
É imperativo reconhecer, sob a luz do direito constitucional e das regras que regem a nossa República, que o voto de cada parlamentar é soberano, livre e estritamente protegido pelo mandato. A oposição tem o legítimo direito de questionar, fiscalizar e divergir. Essa é a beleza da democracia. No entanto, quando essa prerrogativa é utilizada para ensaiar um recuo estratégico em uma matéria que a própria oposição chancelou no passado, o cheiro de manobra eleitoreira começa a exalar dos corredores da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista.
O Cálculo Político e a Realidade das Periferias
Mudar de posicionamento neste momento, sob a justificativa de preciosismo técnico que pode ser sanado com uma simples correção de redação, é um movimento arriscado e transparente demais. Com as eleições municipais de 2028 já despontando de forma precoce no horizonte e movimentando os bastidores políticos, o eleitorado conquistense não assistirá a esse processo de olhos vendados.
“Para o morador do Leblon, do Recanto dos Pássaros, da Vila Elisa, do Conveima II ou do Renato Magalhães, a discussão não é sobre o ‘artigo 5º’ ou sobre ‘linhas de crédito do Finisa’. Para quem convive diariamente com a lama no inverno e a poeira no verão, a matemática é muito mais simples: o asfalto vai chegar ou não? A drenagem será feita ou a rua vai alagar novamente?”
A Contradição das Indicações Parlamentares
Outro ponto que os vereadores vão ter que explicar é sobre as Indicações da Câmara:
Compromisso Aprovado em Plenário
Os vereadores aprovaram uma indicação para que cerca de R$ 30 milhões do montante sejam direcionados especificamente para a construção de moradias populares, com menção de áreas que enfrentam carência de infraestrutura (como Alto Maron, Vila Elisa, Bruno Bacelar e a parte alta do bairro Nossa Senhora Aparecida), embora a palavra final caiba ao Executivo Municipal.
O que eles vão dizer aos bairros que eles mesmos destinaram estas melhorias?
Se a bancada de oposição decidir travar o avanço dessas operações de crédito apenas para impor uma derrota política ao Executivo, o gesto dificilmente será digerido como “zelo fiscal” ou “independência partidária”. A população que aguarda asfalto e dignidade na porta de casa vai encarar essa mudança de voto como um verdadeiro boicote às comunidades mais necessitadas. É punir o cidadão da periferia para tentar ferir a imagem da gestão.
A política madura exige que as disputas fiquem restritas aos palanques e aos debates de ideias, sem que o desenvolvimento urbano seja sequestrado por conveniências partidárias. O momento exige responsabilidade social. A máquina pública precisa caminhar, os investimentos precisam chegar na ponta e, acima de tudo, é preciso deixar quem foi eleito governar. Deixa a mulher trabalhar e que as urnas de 2028 julguem os resultados, não as manobras de plenário.





