Opinião · Senado Federal · Governabilidade
O alerta do senador baiano ao governo não é pessimismo: é o retrato de uma Casa em que vencer a eleição será apenas o começo do trabalho.
Nem toda vitória nas urnas se converte, automaticamente, em capacidade de governar. A história republicana brasileira está cheia de presidentes que ganharam a eleição e perderam o Congresso — e, com ele, o ritmo, a agenda e, não raro, a autoridade. É esse o recado, dado em tom de alerta, que o senador baiano Otto Alencar (PSD) deixou ao governo Lula ao olhar para o Senado que toma posse em 2 de fevereiro.
Otto não fala de fora. É aliado do presidente, ex-presidente da CCJ, homem de plenário que conhece cada corredor da Casa e sabe contar votos como poucos. Quando um aliado com esse currículo diz que o próximo período “vai ser complicado”, o governo faria bem em ouvir antes de rebater.
A aritmética que não perdoa
O Partido Liberal elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e chegará a 2027 com a maior bancada da história recente do Senado. Somados aos que seguem com mandato até 2031, são 28 cadeiras entre 81. Otto fala em 29; as contagens divulgadas pela imprensa após a eleição apontam 28, e a diferença pouco altera o raciocínio. Um terço do plenário, vindo de um único partido, é um bloco que nenhum governo pode tratar como detalhe.
E o Senado não é só a Casa das leis. É a Casa que sabatina e aprova ministros de tribunais superiores, embaixadores e dirigentes de agências. Para aprovar uma autoridade, são necessários 41 votos — a maioria absoluta. O próprio Otto lembrou, como advertência, o caso de Jorge Messias: aprovado na CCJ, mas, pelo relato do senador, sem votos suficientes no plenário. Se isso aconteceu com a Casa que sai, o que esperar da que entra?
O tamanho do desafio
81 senadores compõem a Casa a partir de fevereiro.
41 votos são o piso para aprovar uma autoridade indicada pelo Executivo.
28 cadeiras serão do PL, a maior bancada da Casa.
5 será o tamanho da bancada do PSD de Otto, que já foi uma das maiores do Senado.
Diálogo não é fraqueza
Na avaliação de Otto, o fortalecimento de parlamentares ligados a Jair Bolsonaro exigirá do governo e de seus aliados uma capacidade de articulação muito maior do que a exigida até aqui. Ele resumiu a tarefa sem rodeios:
“Nós vamos ter que trabalhar muito para ajudar o presidente Lula.”
— Otto Alencar, senador (PSD-BA)
A frase é menos um lamento do que um programa. Governar com maioria apertada significa menos redes sociais e mais gabinete; menos discurso e mais interlocução; menos conversa com a própria bolha e mais telefonemas para quem não votou no governo. Em outras ocasiões, o próprio Otto já cobrou do Planalto mais atenção aos senadores. Se a lição ainda não foi aprendida, fevereiro será um professor severo.
O preço da pauta travada
Há quem trate o impasse legislativo como espetáculo de bastidor. Não é. Cada projeto parado e cada indicação barrada tem um custo concreto para quem depende de políticas públicas, de obras, de programas sociais e de um Estado que funcione. Regiões como o Nordeste, e estados como a Bahia, sentem primeiro quando a máquina emperra. A governabilidade, afinal, não é um luxo do Palácio do Planalto: é condição para que as promessas de campanha cheguem à vida real.
O desafio, portanto, é de duas ordens. Aprovar o que o governo propõe e evitar que o Senado se torne um território de veto sistemático às indicações do Executivo. Em ambos os casos, o caminho passa por construir pontes antes que as pontes sejam necessárias.
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Padre Carlos — Colunista político — Política e Resenha





