POLÍTICA E RESENHA | ANÁLISE POLÍTICA
Por Padre Carlos
Há momentos na história em que uma eleição deixa de ser apenas um procedimento democrático para se transformar em um julgamento político sobre os rumos de uma nação. A votação desta terça-feira, 3 de novembro, nos Estados Unidos, tem exatamente esse significado. Mais do que renovar cadeiras no Congresso, escolher governadores e decidir disputas locais, os norte-americanos estarão diante de uma pergunta que ultrapassa as fronteiras de seu próprio país: até que ponto a sociedade está disposta a continuar entregando seu destino a um projeto político que confunde autoridade com poder absoluto?
O tamanho da disputa impressiona. São 435 cadeiras na Câmara dos Representantes, 35 no Senado, 36 governos estaduais, milhares de mandatos legislativos e municipais, além de propostas submetidas diretamente à decisão popular. Mas seria um erro enxergar essa eleição apenas pela dimensão de sua estrutura institucional. O verdadeiro significado está no recado político que sairá das urnas e na capacidade dos eleitores de estabelecer limites a um presidente que transformou a confrontação em método de governo.
Trump diante do espelho das urnas
Donald Trump construiu sua trajetória política alimentando uma narrativa de força, nacionalismo exacerbado e permanente confronto. Apresentou-se como o homem capaz de devolver aos Estados Unidos uma grandeza que, segundo seu discurso, teria sido roubada por adversários internos, governos anteriores e interesses estrangeiros. Sua promessa sempre foi a de um país poderoso, respeitado e obedecido.
Mas existe uma diferença fundamental entre governar uma nação e tentar submetê-la à vontade pessoal de um governante.
A democracia norte-americana, apesar de suas contradições históricas, de suas desigualdades sociais e de sua conhecida influência sobre os destinos do mundo, foi construída sobre um princípio institucional importante: nenhum presidente está acima dos mecanismos de controle. O Congresso não é uma extensão da Casa Branca, a Justiça não deve funcionar como instrumento de vingança política e a imprensa não pode ser obrigada a transformar propaganda governamental em verdade oficial.
É justamente esse equilíbrio que estará em disputa.
Trump apostou na polarização como combustível de sua liderança. Transformou adversários em inimigos, divergências em ameaças e críticas em supostas conspirações. Alimentou uma política de ressentimento que encontra terreno fértil em sociedades marcadas pelo desemprego, pela insegurança econômica, pelo medo e pela sensação de abandono.
Entretanto, a realidade não se deixa governar apenas por discursos.
O custo de vida, a inflação, os preços dos combustíveis, a situação dos trabalhadores e a preocupação com o futuro das famílias são questões que não desaparecem diante de slogans nacionalistas. O cidadão pode até se emocionar com a retórica de grandeza de um presidente, mas, quando chega ao supermercado, precisa enfrentar o preço dos alimentos. Quando abastece o automóvel, sente o peso das decisões econômicas. Quando procura segurança e estabilidade, espera resultados concretos, não apenas espetáculos políticos.
Os indicadores eleitorais dão dimensão desse desgaste. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 26 de outubro apontou aprovação de apenas 32% para Trump e vantagem democrata de 53% a 44% entre os eleitores considerados prováveis. O levantamento também identificou a preocupação com o custo de vida como um dos principais fatores da disputa.
“A democracia não se sustenta pela força de um governante, mas pela capacidade de uma sociedade de estabelecer limites ao poder.”
Isso não significa que a vitória democrata esteja garantida. Significa, porém, que existe um ambiente de insatisfação que pode se transformar em recado eleitoral contundente.
A política externa não é propriedade de um presidente
Há outro aspecto que merece atenção: a maneira como Trump trata a política internacional.
O mundo não pode ser administrado como uma propriedade particular da Casa Branca. A diplomacia exige responsabilidade, conhecimento histórico, respeito à soberania dos povos e compreensão de que decisões tomadas em Washington podem produzir consequências dramáticas em diferentes continentes.
Quando um presidente transforma tarifas comerciais em instrumentos permanentes de intimidação, ameaça territórios de outros países, alimenta conflitos e trata a força militar como resposta preferencial aos problemas internacionais, não está simplesmente defendendo os interesses de sua população. Está ampliando riscos para uma comunidade internacional que já convive com guerras, crises humanitárias e profundas desigualdades.
A ideia de anexar a Groenlândia, por exemplo, não pode ser tratada como uma excentricidade sem consequências. Territórios, povos e nações não são peças disponíveis em um tabuleiro particular de ambições presidenciais.
Da mesma forma, deportações em massa não devem ser discutidas apenas como demonstrações de autoridade. Por trás de cada decisão migratória existem seres humanos, famílias, trabalhadores e histórias de vida. Defender regras de imigração não exige abandonar a humanidade. Nenhum país precisa escolher entre soberania e dignidade humana.
E há algo ainda mais preocupante: enquanto problemas sociais e econômicos exigem soluções, o presidente parece encontrar espaço para projetos monumentais de autopromoção, como um salão dourado na Casa Branca e um gigantesco arco triunfal em Washington.
Não há problema em uma nação preservar sua arquitetura ou construir monumentos. O problema começa quando a grandiosidade cenográfica parece ocupar o lugar das prioridades públicas.
Um país não se torna grande pela altura de seus monumentos, pelo brilho de seus salões ou pela quantidade de adversários que seu presidente consegue intimidar. Torna-se grande pela qualidade de vida de sua população, pela força de suas instituições, pela proteção de seus direitos e pela capacidade de oferecer oportunidades às novas gerações.
Uma eventual derrota não encerra Trump, mas pode limitar seu poder
É importante compreender o significado institucional dessa eleição. Mesmo que os democratas conquistem a maioria na Câmara dos Representantes ou no Senado, Trump continuará presidente. Não haverá uma mudança automática de governo. O que poderá ocorrer é uma alteração significativa na correlação de forças em Washington.
Uma Câmara controlada pelos democratas poderá ampliar a fiscalização do Executivo, abrir investigações, convocar autoridades e dificultar a aprovação de iniciativas presidenciais. Se também conquistarem o Senado, os democratas terão instrumentos adicionais para influenciar votações e bloquear indicações importantes.
Portanto, uma derrota republicana poderá representar muito mais do que a perda de cadeiras parlamentares: poderá significar o enfraquecimento da autoridade política de Trump e o início de uma nova etapa de disputas dentro do próprio Partido Republicano.
Mas seria ingenuidade acreditar que a simples derrota eleitoral de Trump resolverá os problemas da democracia norte-americana.
A esquerda e os setores progressistas precisam compreender que não basta ser contra Trump. É necessário apresentar um projeto de sociedade. Um projeto que dialogue com os trabalhadores, enfrente a concentração de renda, defenda os serviços públicos, amplie o acesso à saúde, proteja os direitos das minorias e ofereça respostas concretas às angústias da população.
A democracia não se sustenta apenas pela rejeição aos seus adversários. Sustenta-se pela capacidade de oferecer esperança, justiça social e perspectivas reais de transformação.
Os democratas também precisam fazer sua autocrítica. Não podem imaginar que a insatisfação com Trump se converterá automaticamente em apoio popular às suas propostas. Existe uma parcela expressiva da sociedade norte-americana que se sente abandonada pelo sistema político tradicional. Ignorar esse sentimento significa deixar aberto o caminho para que lideranças autoritárias continuem explorando o ressentimento social.
A tarefa progressista, portanto, é dupla: conter os excessos do trumpismo e reconstruir uma alternativa política capaz de falar à maioria da população.
Não basta derrotar o autoritarismo nas urnas. É preciso oferecer à sociedade razões concretas para acreditar na democracia.
Uma reflexão sobre a responsabilidade histórica das forças progressistas.
O recado das urnas ultrapassa as fronteiras americanas
O resultado de terça-feira terá repercussões internacionais porque os Estados Unidos não são apenas mais uma nação. São uma potência econômica, militar, tecnológica e diplomática cujas decisões interferem diretamente na vida de bilhões de pessoas.
Uma vitória expressiva dos democratas poderá fortalecer aqueles que defendem uma política internacional baseada no diálogo, no multilateralismo e no respeito às instituições. Uma vitória republicana, por outro lado, poderá ser interpretada por Trump como autorização para aprofundar seu projeto político.
Não se deve, entretanto, confundir a derrota de um presidente com o desaparecimento das ideias que o sustentam. O trumpismo é também uma expressão de fenômenos sociais mais profundos: nacionalismo radical, ressentimento econômico, desinformação, intolerância e descrédito das instituições.
Essas forças não desaparecerão simplesmente porque alguns candidatos perderam uma eleição.
Por isso, o desafio democrático é muito maior do que derrotar um nome nas urnas. É reconstruir a confiança na política, demonstrar que a liberdade não pode ser privilégio de alguns e reafirmar que o Estado existe para servir à sociedade, não para satisfazer a vaidade de seus governantes.
A democracia precisa mostrar que ainda tem força
Há uma lição que merece ser observada por todos os países, inclusive pelo Brasil: instituições democráticas não podem depender da boa vontade de quem ocupa temporariamente o poder.
Presidentes passam. Congressos mudam. Governos terminam. Mas as instituições precisam permanecer.
O voto é uma das armas mais importantes de que dispõe uma sociedade para corrigir seus próprios rumos. Não resolve tudo, não elimina as desigualdades de uma hora para outra e não garante que os melhores candidatos serão eleitos. Mas permite que o cidadão manifeste sua insatisfação, estabeleça limites e cobre responsabilidades.
É por isso que a eleição norte-americana merece atenção especial.
Se Trump sofrer uma derrota expressiva, o recado será claro: nenhum presidente recebe um cheque em branco, nenhuma liderança está acima da democracia e nenhum projeto de poder pode se considerar dono permanente da vontade popular.
E, se os republicanos vencerem, a vigilância democrática precisará continuar ainda mais firme.
No fim das contas, não estamos falando apenas de Trump, dos democratas ou dos republicanos. Estamos falando de uma questão que atravessa gerações e fronteiras: quem deve estar a serviço de quem? O povo deve servir ao governante ou o governante deve servir ao povo?
A resposta deveria ser elementar em qualquer democracia: o poder pertence ao povo, e não ao homem que ocupa a cadeira presidencial.
Na terça-feira, os norte-americanos terão a oportunidade de reafirmar esse princípio. E o mundo inteiro estará observando.
Porque a democracia não exige governantes infalíveis. Exige governantes responsáveis, instituições independentes e cidadãos livres para dizer não.
Nenhum homem é maior do que a democracia. E nenhum projeto de poder é maior do que a vontade de um povo livre.
SOBRE O AUTOR
Padre Carlos
Articulista do Política e Resenha
TEMAS DESTA ANÁLISE
Donald Trump
Democracia
Esquerda Progressista
Política Internacional
Eleições Americanas
POLÍTICA E RESENHA
A gênese do poder é a verdade.





