Análise · Política Nacional
A Esplanada não pode ser apenas um mapa de cargos
A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva de começar, na próxima semana, as conversas com dirigentes partidários para desenhar a composição da Esplanada revela uma escolha de método: o presidente não pretende montar o governo sob a pressão da urgência, nem oferecer ao mercado e à sociedade um gabinete de efeito imediato. Segundo as informações colhidas pelo Política e Resenha, Lula espera avançar na definição dos ministros ao longo de novembro e quer construir uma base legislativa consistente, não uma adesão meramente formal.
A cautela, nesse caso, não é necessariamente lentidão. Pode ser o reconhecimento de que o quarto mandato nascerá sob condições políticas mais difíceis que as anteriores. A composição do Senado a partir de 2027 já oferece um sinal eloquente: o PL passará a ter 28 senadores, enquanto o PT permanecerá com nove, segundo levantamento oficial do Senado Federal. Não se trata apenas de contar cadeiras. Trata-se de compreender que o governo enfrentará uma oposição mais organizada, mais numerosa e menos disposta a conceder ao Planalto o benefício da dúvida.
Ministério não é prêmio
É por isso que a escolha dos ministros não pode ser tratada como uma distribuição de prêmios entre aliados. Um ministério, em um regime presidencialista de coalizão, é simultaneamente um centro de formulação de políticas públicas, um ponto de comando da burocracia e uma ponte com o Congresso. Estudos sobre os governos brasileiros mostram que os ministros controlam informação especializada, dirigem estruturas administrativas e podem representar apoio partidário à agenda do Executivo no Legislativo. A pasta, portanto, não é apenas um espaço de visibilidade: é uma engrenagem de governo.
A promessa de Lula de não aceitar uma base “independente vez ou outra” deve ser levada a sério. Durante o terceiro mandato, o Planalto conviveu com partidos que ocupavam espaços no governo e, ao mesmo tempo, preservavam liberdade para votar contra suas prioridades. Esse arranjo pode produzir sobrevida parlamentar, mas não produz necessariamente governabilidade. O partido que participa do governo precisa responder por suas decisões. Se quer os benefícios da coalizão, deve também assumir seus custos.
Coalizão não é fisiologismo
Isso não significa exigir obediência cega. Uma base responsável não é uma plateia. Ela pode discordar, negociar e corrigir rumos. O que não pode é transformar cada votação em um leilão de última hora, no qual o governo descobre sua maioria apenas depois de oferecer mais uma concessão.
A diferença entre coalizão e fisiologismo está justamente aí: a primeira se organiza em torno de compromissos políticos; o segundo se limita à ocupação de espaços.
Duas tentações opostas
Lula terá de resistir a duas tentações opostas. A primeira é imaginar que a autoridade presidencial, reforçada pela vitória eleitoral, basta para organizar o novo ciclo. Não basta. A urna dá legitimidade ao presidente, mas não elimina a correlação de forças no Congresso. A segunda tentação é entregar o governo inteiro à lógica do varejo parlamentar. Também não serve. Um presidente que distribui ministérios sem preservar prioridades transforma a própria agenda em refém dos ocupantes das pastas.
O desafio real será combinar representação política com capacidade administrativa. É legítimo que partidos da base reivindiquem participação. É necessário, porém, que os nomes escolhidos tenham compromisso com metas, preparo técnico e disposição para defender publicamente as decisões do governo. Não há nada de moderno em separar o ministro de sua responsabilidade política: quem assume uma pasta deve responder por ela, e não apenas ocupar a fotografia oficial.
A escolha do núcleo de articulação será especialmente importante. Com um Congresso de perfil conservador e com o fortalecimento de partidos de oposição, a articulação política não poderá ser um serviço auxiliar do Palácio do Planalto. Terá de funcionar como uma estrutura permanente de negociação, leitura de cenário e prevenção de crises. A relação com deputados e senadores não pode começar na véspera da votação. Deve ser construída antes, com transparência sobre prioridades e limites.
Governar com a sociedade
Mas há um ponto que não pode ser esquecido: o governo não deve confundir maioria parlamentar com autorização para governar sem sociedade. Uma Esplanada montada exclusivamente para atender às bancadas pode até garantir votos no curto prazo, mas corre o risco de produzir distância em relação ao eleitorado que reelegeu Lula. A composição ministerial precisa refletir o Congresso sem perder de vista o país real: o trabalhador que espera emprego, a família que depende de serviços públicos, o pequeno empreendedor sufocado pelos custos e a população que exige segurança, saúde e educação.
A prudência anunciada pelo presidente será virtuosa se servir para escolher melhor. Será apenas procrastinação se for usada para adiar decisões difíceis. O Brasil não precisa de um governo improvisado, mas também não pode esperar indefinidamente enquanto problemas concretos se acumulam. O calendário político permite algumas semanas de negociação; não permite que a negociação se torne um fim em si mesma.
A pergunta decisiva
A pergunta decisiva, portanto, não é quem ficará com cada ministério. É qual contrato político Lula pretende oferecer ao país.
Um governo de coalizão pode ser uma soma de interesses ou uma reunião de responsabilidades. Pode distribuir cargos para sobreviver ou organizar forças para entregar resultados. Pode buscar uma base que apenas vote ou construir uma maioria que compreenda, defenda e fiscalize um programa.
O quarto mandato começará sob uma contradição: Lula terá a força simbólica de uma vitória histórica, mas encontrará um Congresso que exigirá dele mais negociação do que celebração. A nova Esplanada será o primeiro teste dessa contradição. Se for composta apenas para acomodar aliados, nascerá velha. Se combinar política, competência e compromisso público, poderá transformar uma maioria difícil em uma oportunidade de governar com mais clareza.
No fim, a questão não é acelerar ou retardar a montagem do ministério. É saber se o presidente usará o tempo para construir um governo ou apenas para repartir um governo que já imagina pronto. A diferença entre uma coisa e outra determinará a qualidade — e talvez a sobrevivência política — do novo mandato.
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Assinado por Padre Carlos
Redação Política e Resenha
Análise e opinião sobre o poder em Brasília





