Política e Resenha · Opinião

Vencemos. Mas o que está em jogo continua em jogo
A verdade que a esquerda precisa ouvir, dita na hora mais inconveniente — e por isso mesmo a mais necessária.
Há verdades que ninguém quer ouvir na hora da festa. Chegam inconvenientes, como o vizinho que desliga o som quando a música está boa. Mas são as mais necessárias, e é uma delas que a esquerda precisa ouvir agora.
Lembre-se de por que as multidões foram às ruas. Lembre-se do rosto de quem saiu de casa num domingo de sol ou de chuva, de quem vestiu a camisa vermelha escondido, de quem discutiu com o tio no almoço de família e saiu da mesa com o estômago embrulhado. Aquela gente não foi às ruas por uma sigla, por um programa de governo ou por um nome só. Foi por medo. Foi pela ameaça explícita, escancarada, do fascismo batendo à porta.
O povo não saiu de casa para aplaudir um projeto. Saiu para defender a própria vida, a própria dignidade, o direito de existir sem ser tratado como inimigo. Esse é o motor. Quando insistimos na luta antifascista, não é por teimosia nem por nostalgia de trincheira. É porque foi ela, e só ela, que juntou o que parecia impossível de juntar.
Lula é uma grande figura, e não desconheço o papel dos indivíduos na história. Mas a história ensina, com a crueldade de sempre, que ou a ação é coletiva ou o sujeito não vai a lugar nenhum. Nenhum líder carrega sozinho um povo nas costas. Quem tenta acaba esmagado, ou esmaga o povo que dizia representar.
Ou a ação é coletiva, ou o sujeito não vai a lugar nenhum.
O inimigo não é doido
Agora vem a parte difícil.
Há quem ache que o perigo passou porque o inimigo tropeçou nas próprias vaidades. Tem gente que vê Trump ou Bolsonaro e conclui: são doidos, são grotescos, vão se destruir sozinhos. Não são. Nunca foram. Tudo ali é mentalizado, calculado, planejado dentro de um projeto político. O surto de vaidade, o cabelo fora do lugar, o destempero de palanque servem de cortina de fumaça para um método frio.
E o método tem herdeiros. A aposta do lado de lá nos Estados Unidos é Marco Rubio, que não é a caricatura. É a racionalidade. É a juventude do fascismo, a modernidade do fascismo: sem os surtos que nos acostumamos a ridicularizar, sem o espetáculo pessoal que facilitava o riso. É ele, ou alguém como ele, que teremos de enfrentar. E ninguém derrota o que não consegue levar a sério.
Aqui no Brasil o roteiro se repete. Se Bolsonaro não tivesse tido a arrogância de impor à direita o filho como candidato, o nome seria Tarcísio, e a dificuldade para nós seria enorme. Essa dificuldade não desapareceu. Tarcísio, um homem que venceu duas vezes em São Paulo no primeiro turno, segue ali, paciente, com a cara de gestor, a fala mansa, o sorriso treinado. Entende o tamanho disso? Não é um adversário que se derrota com piada. É um adversário que se derrota com organização.
A doença antiga da idolatria
E é aqui que dói dizer o que precisa ser dito.
A esquerda tem uma doença antiga: a idolatria. Quando todo o movimento se resume a um nome, a linha política desaparece. O acúmulo de anos de luta, de base, de sindicato, de periferia, de assembleia, de gente que organizou o que ninguém via, evapora no culto à figura. E ninguém é eterno. Ninguém.
|
A escolha que temos pela frente Por isso não adianta pedir “Lula, escolha um sucessor”. Não é assim que se constrói futuro. Ou é um movimento coletivo, ou é a base constituindo as próprias alternativas, inclusive eleitorais, ou vamos entregar o ouro ao bandido. E é muito bandido, e bandido grande, com dinheiro, com mídia, com paciência e com projeto. |
Isso exige independência em relação ao governo. Dói, eu sei. Parece ingratidão, parece “fogo amigo”. Mas apoiar não é calar, e defender o governo não é abdicar do movimento. Um movimento que só repete o que o poder diz deixa de ser movimento e vira claque. A claque aplaude. O movimento cobra, pressiona, constrói, avisa quando o caminho está errado. É assim que se protege um governo de verdade: mantendo viva a força que o elegeu.
Passada a festa, a pergunta
Então comemoremos, sim. Comemoremos de peito aberto, abracemos quem ficou ao nosso lado, choremos o que for preciso chorar. Não foi fácil. Não foi pequeno. Foi fundamental. Houve quem perdeu amizade, quem perdeu paz em casa, quem perdeu o sono por meses. Tudo isso valeu.
Mas, passada a festa, olhemos para a mesa e para a pergunta que fica: e agora?
Porque o que estava em jogo continua em jogo. As tarefas antifascistas não passam com a eleição. Elas não terminam no dia da apuração, nem no dia da posse. Seguem em cada escola, em cada igreja, em cada bairro, em cada grupo de família, em cada conversa difícil que a gente teima em ter. O fascismo não acaba quando perde uma eleição. Ele muda de rosto, aprende, se moderniza e espera.
E nós, vamos esperar acomodados ou vamos construir?
A resposta não está num nome. Está em nós, no coletivo, na base, na gente que saiu de casa uma vez porque teve medo e precisa, agora, continuar na rua por esperança.
AntifascismoEsquerdaEleiçõesMovimento coletivoOpinião
Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha




