Falcão e a oposição que precisa mudar de método
Com votação em alta e trânsito entre partidos, o deputado do PCdoB reúne o que falta a um campo que há anos disputa Conquista dividido
Toda oposição chega a um ponto em que o problema deixa de ser o adversário e passa a ser ela mesma. Em Vitória da Conquista, esse ponto parece ter chegado. A pergunta de 2028 não é só quem pode vencer o grupo da prefeita Sheila Lemos. É quem consegue reunir, sem humilhar ninguém, um campo que vive de somar siglas e subtrair vaidades. A resposta mais consistente aponta para o deputado estadual Fabrício Falcão, do PCdoB.
O número que reorganiza a conversa
Fabrício saltou de 11.315 votos no município, em 2022, para 21.456 agora, um crescimento de quase 90%. Em eleição proporcional, crescer assim não acontece por inércia. Exige estrutura, presença e um eleitor que decidiu apostar. E o crescimento ocorre num momento em que a oposição precisa de um nome com fôlego, não de um herdeiro de derrotas. Esse é o primeiro argumento.
Fabrício Falcão, agora: 21.456 (crescimento de quase 90%)
Waldenor Pereira: 33.269
Lúcia Rocha: 12.159
Fabrício + Lúcia (soma simbólica): 33.615
O campo que perdeu em 2024 tinha como principal adversário da prefeita o então deputado federal Waldenor Pereira, do PT. Waldenor não conseguiu a reeleição este ano para a Câmara. Isso não apaga o peso dele, e a cidade lhe deu 33.269 votos, o maior número entre os nomes citados. Mas um projeto que insiste duas vezes no mesmo caminho, esperando resultado diferente, não está renovando nada.
Renovação não é certidão de nascimento
É preciso ser honesto sobre o que renovar significa aqui. Fabrício não é um rosto novo. Ele próprio resume sua trajetória em seis mandatos consecutivos, dois de vereador em Conquista e quatro de deputado estadual. Ao contrário do que sugere um certo marketing político, isso não é um defeito a esconder. É um ativo. A renovação que a oposição precisa não é de idade nem de biografia, é de método e de liderança.
Renovar, nesse sentido, é trocar a lógica do “meu partido primeiro” pela do “o campo primeiro”. É passar de uma oposição que se organiza em torno de um nome hegemônico para uma que se organiza em torno de um acordo. E é entregar a cabeça de chapa a quem cresceu agora, não a quem foi o centro da disputa passada. Nesse sentido, Fabrício representa a renovação possível: experiente o bastante para governar, recente o bastante nas urnas para não carregar o desgaste de uma derrota municipal.
A aglutinação como método
O segundo argumento é o que mais pesa. Fabrício já pratica a política de coalizão que a oposição precisa em escala municipal. Na campanha de 2026, ele exaltou o governador Jerônimo Rodrigues, defendeu Lula e selou uma dobradinha com a candidata a deputada federal Lúcia Rocha, do MDB, elogiando também a atuação da filha dela na Câmara Municipal. Um comunista que constrói ponte com o MDB, sem abrir mão da identidade, mostra o tipo de trânsito que uma chapa majoritária exige.
A aritmética, tomada como símbolo e não como previsão, ajuda. Lúcia Rocha teve 12.159 votos em Conquista. Somados aos 21.456 de Fabrício, chega-se a 33.615, número próximo ao de Waldenor, o mais votado da lista. Voto não se transfere por soma, e nenhum estrategista sério trabalha assim. Mas a conta indica o que uma aliança ampla pode representar e sugere que o caminho do crescimento passa por ela, não pelo isolamento.
“A oposição conquistense não precisa de um candidato perfeito. Precisa de um que todos aceitem.”
Quem aceita ser vice de quem?
Há uma razão prática, e pouco dita, para o nome do PCdoB. Candidaturas de partidos maiores tendem a gerar resistência dos demais aliados, que temem ver o campo capturado por uma sigla. Um partido menor na cabeça da chapa, com um candidato de votação expressiva, pode ser o ponto de equilíbrio: forte o bastante para liderar, pequeno o bastante para não ameaçar. Essa é uma hipótese, não uma certeza, mas ela explica por que o nome de Fabrício pode ser aceito por quem não aceitaria o de um rival direto.
Há ainda a combinação de experiência legislativa e musculatura institucional. Fabrício ocupou a função de quarto-secretário da Mesa da Assembleia Legislativa em 2025. Quem convive com a máquina da Assembleia conhece o caminho das decisões, e um prefeito que sabe abrir portas em Salvador tem vantagem num município que depende de investimentos estaduais. A análise local registra que, após o ciclo de 2026, os aliados de Jerônimo e Lula saem fortalecidos e já se movimentam para 2028. Se esse vento se mantiver, o deputado está no lado do vento.
O momento do adversário
Do outro lado, a situação é de reconstrução. Sheila não poderá disputar novamente em 2028, após dois mandatos consecutivos.
O articulista que defende uma tese deve a seus leitores o outro lado. Voto de deputado nem sempre vira voto de prefeito. A disputa por Conquista tem lógica própria, e o eleitor local nem sempre acompanha os resultados estaduais e nacionais. A oposição tem muitos nomes, entre eles, Waldenor, Zé Raimundo, Quinho, Lúcia Rocha, Marcos Adriano e o ex-prefeito Guilherme Menezes, e cada um terá argumentos próprios. Fabrício não lidera a lista de votos. E o PT, maior partido do campo, dificilmente abrirá mão do protagonismo sem negociar com firmeza.
A pergunta que sobra
Se a oposição quer apenas protestar, qualquer nome serve. Se quer governar, precisa de um candidato que some mais do que divida. Fabrício Falcão tem hoje o crescimento nas urnas, a experiência no parlamento e o hábito de construir pontes. Falta provar que consegue transformar esse capital em consenso. A oposição conquistense não precisa de um candidato perfeito. Precisa de um que todos aceitem. E esse talvez seja o maior argumento a favor do deputado.





