Política e Resenha · Opinião

A grandeza de um líder está na capacidade de pacificar
Por Padre Carlos Josaphat
Em uma época em que a política brasileira parece viver permanentemente sob o barulho dos confrontos, das provocações e das disputas intermináveis, encontrar uma liderança disposta a construir pontes, em vez de aprofundar abismos, é uma virtude que merece ser reconhecida. O senador Otto Alencar (PSD-BA) demonstra, com sua posição em defesa de um entendimento sobre a anistia dos condenados pelos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, que a política também pode ser exercida com espírito de conciliação, responsabilidade e compromisso com o futuro do país.
A iniciativa de Otto merece atenção não apenas pelo conteúdo da proposta, mas sobretudo pelo significado político de sua atitude. Ao defender que se busque uma saída institucional para reduzir as tensões nacionais, o senador sinaliza que o Brasil não pode permanecer refém de uma disputa na qual cada lado parece interessado em manter viva a ferida. Há momentos em que a coragem de um homem público não está em levantar a voz, mas em ter a disposição de sentar à mesa, ouvir os adversários e procurar uma solução.
Pacificar não é esquecer
É preciso compreender que pacificar não significa esquecer a história, apagar responsabilidades ou desconsiderar as decisões da Justiça. Os acontecimentos de 8 de janeiro foram graves e representaram uma agressão às instituições democráticas. A responsabilização de quem participou de atos criminosos é uma exigência do Estado Democrático de Direito. Entretanto, também é legítimo discutir a proporcionalidade das penas, as circunstâncias individuais dos condenados e a possibilidade de mecanismos jurídicos que permitam superar um período de profunda divisão nacional.
Uma democracia madura não deve confundir justiça com desejo de vingança, assim como não pode confundir conciliação com impunidade. O desafio está justamente em encontrar o equilíbrio entre a necessária responsabilização e a construção de um ambiente político no qual as divergências possam ser resolvidas sem alimentar novos ressentimentos.
Um debate maior que um nome
É nesse contexto que a posição de Otto Alencar ganha relevância. Ao afirmar que a discussão não deve ser tratada como uma iniciativa exclusivamente destinada a Jair Bolsonaro, mas como uma reflexão sobre todos aqueles que respondem a processos relacionados ao 8 de janeiro, o senador procura ampliar o debate. Sua preocupação, pelo menos naquilo que declarou publicamente, é encontrar uma solução que não transforme a questão em mais um instrumento de guerra política.
Há uma virtude particularmente importante nessa postura: a capacidade de não enxergar a política apenas pela ótica dos próprios aliados. Um verdadeiro líder não governa sentimentos de revanche, não transforma adversários em inimigos permanentes e não utiliza o sofrimento coletivo como combustível para sua sobrevivência eleitoral. Sua responsabilidade é pensar no conjunto da sociedade, inclusive naqueles que não compartilham de suas posições.
Firmeza e sabedoria
O Brasil precisa de lideranças que compreendam que a democracia exige firmeza, mas também sabedoria. A firmeza para defender as instituições e a sabedoria para reconhecer que nenhuma sociedade consegue viver indefinidamente em estado de confronto. A política não pode ser reduzida a uma competição para saber quem humilha mais o adversário ou quem consegue manter sua militância mais mobilizada pelo ressentimento.
Naturalmente, qualquer proposta de anistia precisa respeitar os limites constitucionais, o princípio da igualdade perante a lei e as competências de cada instituição. Não cabe ao Congresso transformar a conciliação em instrumento de proteção de aliados, muito menos interferir indevidamente na independência do Poder Judiciário. O caminho precisa ser juridicamente consistente, transparente e capaz de produzir uma pacificação legítima.
Olhar para frente
Otto Alencar parece compreender uma questão fundamental: o país precisa olhar para frente. A disputa política continuará existindo, as diferenças ideológicas permanecerão e a oposição continuará exercendo seu papel. Isso faz parte da democracia. O que não podemos aceitar é que o Brasil continue aprisionado a uma atmosfera de hostilidade permanente, na qual qualquer gesto de aproximação seja interpretado como fraqueza ou traição.
A história costuma reservar um lugar especial para aqueles que conseguem construir entendimentos nos momentos mais difíceis. Não necessariamente para os que venceram todas as disputas, mas para os que tiveram grandeza suficiente para interromper ciclos de conflito.
O que o Brasil precisa
O Brasil não precisa de mais incendiários. Precisa de bombeiros da democracia. Precisa de homens públicos capazes de compreender que a autoridade política não se mede pelo tamanho dos inimigos que conseguem produzir, mas pela capacidade de encontrar soluções para os problemas da sociedade.
A grandeza do diálogo
A atitude de Otto Alencar merece reconhecimento justamente por colocar a pacificação nacional no centro do debate. Podemos concordar ou discordar dos instrumentos jurídicos propostos, discutir seus limites e cobrar garantias constitucionais. Mas não deveríamos desprezar a disposição de buscar um entendimento.
Afinal, pacificar não é capitular. É compreender que a democracia é maior do que qualquer partido, liderança ou eleição. E talvez essa seja uma das maiores virtudes de um verdadeiro líder: ter coragem para dialogar quando o ambiente exige confronto e sabedoria para construir a paz quando tantos insistem em alimentar a guerra.
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