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Há histórias que não podem morrer com seus protagonistas. Resgatar a memória de quem construiu o PT é também preservar a identidade de uma geração.
Por Padre Carlos
Meu amigo Edival, quando comecei a escrever este artigo, não tinha em mente apenas produzir um texto sobre a trajetória de um companheiro. Minha intenção era mais profunda: construir um memorial. Um memorial de vidas, de lutas, de compromissos e de uma história que não pode ser entregue ao esquecimento. Escrevo também para provocar uma reflexão necessária dentro da própria esquerda: por que temos tanta dificuldade de preservar a nossa memória? Como podemos reivindicar um futuro diferente quando, tantas vezes, demonstramos tão pouco cuidado com aqueles que ajudaram a construir o nosso passado?
Memorial é resgatar a memória. É trazer de volta um acontecimento, preservar uma data, recordar um compromisso e impedir que o tempo transforme em silêncio aquilo que um dia foi motivo de coragem, esperança e luta. Um aniversário de nascimento, uma data de casamento, uma celebração histórica: todos são gestos de resistência contra o esquecimento.
Como padre, encontro na própria celebração da Eucaristia uma das expressões mais profundas dessa ideia. A Missa é memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não se trata de uma simples lembrança de algo que aconteceu há dois mil anos. É a atualização de uma memória que atravessa os séculos e permanece viva na fé. A Igreja compreende que aquilo que não deve ser esquecido precisa ser celebrado, transmitido e testemunhado.
A humanidade também ergue memoriais para que as novas gerações não percam o contato com acontecimentos que marcaram sua existência. Monumentos, museus, arquivos, testemunhos e datas históricas cumprem essa missão. Não são apenas pedras, placas ou fotografias. São advertências contra a amnésia coletiva. São compromissos com a verdade.
A memória de uma geração que não pode desaparecer
Estima-se que, daqui a vinte anos, já não tenhamos entre nós muitos dos protagonistas que testemunharam a fundação e os primeiros passos do Partido dos Trabalhadores, tanto em âmbito nacional quanto estadual. O tempo é implacável. Os homens envelhecem, as vozes se calam, os documentos desaparecem e as lembranças, quando não são registradas, acabam se perdendo nas gavetas da história.
É justamente por isso que precisamos agir agora. Não podemos esperar que os últimos testemunhos desapareçam para descobrir que não preservamos quase nada da nossa própria trajetória. Temos uma responsabilidade histórica com aqueles que vieram antes de nós e com os jovens que precisam compreender de onde vieram as ideias, os sonhos e as lutas que deram origem ao partido.
Ao ler a mensagem de seu filho, fui transportado para um tempo que permanece vivo na minha memória. Nossa geração não conheceu esses acontecimentos apenas pelos livros. Nós estávamos lá. Fomos personagens de uma história que se escrevia nas ruas, nos sindicatos, nas reuniões, nas pequenas salas emprestadas e nos comitês improvisados. Éramos jovens, carregávamos convicções, enfrentávamos dificuldades e acreditávamos que a política poderia ser um instrumento de transformação da sociedade.
“A história de um partido não começa quando seus dirigentes chegam ao poder. Começa muito antes, quando homens e mulheres anônimos decidem que vale a pena lutar por um país diferente.”
Lembrei daquela convenção do PT em Feira de Santana, quando inicialmente saiu o nome de Nilson Bahia e, posteriormente, ficou definido o seu nome. Lembrei do comitê próximo ao Mosteiro de São Bento, em 1986. Lembrei de nossas caminhadas pelas ladeiras do Nordeste de Amaralina, subindo e descendo ruas, conversando com moradores, pedindo apoio, apresentando ideias e fazendo campanha por você.
Não havia glamour naquelas jornadas. Havia disposição, suor, esperança e, sobretudo, uma crença quase obstinada de que a política precisava estar do lado de quem historicamente teve pouca voz. Cada casa visitada, cada conversa na porta de um barraco, cada reunião e cada dificuldade enfrentada faziam parte de uma construção coletiva.
Naquele tempo, não tínhamos a estrutura, os recursos ou a visibilidade que a política institucional proporciona a alguns hoje. Tínhamos algo que não pode ser medido por pesquisas eleitorais ou cargos ocupados: a disposição de participar da construção de um projeto político quando ainda não havia garantia de vitória.
O pecado político de esquecer quem veio antes
Ao recordar tudo isso, confesso que também me veio uma espécie de tristeza. Talvez tenhamos cometido um erro que precisa ser reconhecido: não soubemos preservar adequadamente as nossas próprias memórias. Não registramos como deveríamos nossas conquistas, nossas derrotas, nossas divergências e os momentos difíceis que tivemos de atravessar.
A esquerda brasileira construiu uma trajetória que merece ser conhecida em sua complexidade. Houve coragem, generosidade, sacrifício e compromisso democrático. Houve também erros, contradições, disputas internas, decepções e escolhas que precisam ser examinadas criticamente. Preservar a memória não significa transformar o passado em santidade. Significa ter maturidade para contar a história inteira, sem esconder suas luzes e suas sombras.
O problema começa quando a história passa a ser contada apenas pelos vencedores de cada momento. Quando os antigos companheiros deixam de ser lembrados porque já não ocupam espaços de decisão. Quando a importância de alguém é medida pelo cargo que exerce, pelo mandato que possui ou pela proximidade com quem está no poder.
Um partido que esquece seus fundadores corre o risco de perder a compreensão de sua própria identidade. E uma geração que não conhece os sacrifícios da geração anterior pode confundir conquistas históricas com benefícios que sempre estiveram disponíveis.
A crise da memória e os perigos para a democracia
Há uma dimensão ainda mais preocupante nessa discussão. A fragilidade da memória coletiva não é apenas um problema interno dos partidos. Ela também representa um desafio para a própria democracia.
Quando as novas gerações encontram dificuldades para acessar informações confiáveis sobre a história política, quando os testemunhos desaparecem e quando os acontecimentos são reduzidos a versões simplificadas, abre-se espaço para a desinformação, para a manipulação do passado e para a banalização de conquistas democráticas.
A ascensão de movimentos de extrema-direita em diferentes países tornou ainda mais importante o debate sobre memória histórica. Há disputas em torno da interpretação de períodos autoritários, da legitimidade das instituições e do significado das liberdades democráticas. Em ambientes de desinformação, o desconhecimento histórico pode facilitar a circulação de versões que relativizam violações de direitos e enfraquecem a confiança na democracia.
Não basta, portanto, reclamar da falta de informação. É necessário construir instrumentos de formação política, preservar documentos, disponibilizar arquivos, ouvir os protagonistas e estimular o pensamento crítico. A democracia não se sustenta apenas com eleições. Precisa também de cidadãos capazes de compreender a história, reconhecer os riscos do autoritarismo e defender suas liberdades.
Uma democracia sem memória torna-se vulnerável à repetição dos seus próprios erros.
A liberdade não é uma herança que se recebe e se guarda sem esforço. É uma conquista histórica que precisa ser compreendida, protegida e transmitida. Quem desconhece o preço da liberdade pode não perceber quando ela começa a ser ameaçada.
Edival Passos: um nome, muitas histórias
Edival Passos é um nome. Mas, atrás dele, existem dezenas, centenas de outros nomes que percorreram caminhos semelhantes: da clandestinidade à legalidade, da utopia às desilusões, da fundação ao esquecimento. Homens e mulheres que acreditaram quando era difícil acreditar. Que se arriscaram quando era perigoso se arriscar. Que ajudaram a construir o chão sobre o qual outros, mais tarde, plantaram a bandeira e receberam os aplausos.
Cada um desses nomes carrega uma história. Alguns tiveram reconhecimento público. Outros permaneceram no anonimato. Muitos não chegaram a ocupar mandatos, não foram convidados para os grandes palanques e tampouco tiveram seus nomes registrados nos livros oficiais. Mas estavam presentes quando a história exigia presença.
É preciso compreender que a construção de um partido não é obra exclusiva de presidentes, parlamentares ou dirigentes. Ela é resultado de uma multidão de pessoas que dedicaram tempo, energia, recursos e, muitas vezes, a própria tranquilidade familiar a uma causa coletiva.
Por isso, meu amigo, quando falo de você, não estou falando apenas de uma biografia individual. Estou falando de uma geração inteira. Estou falando daqueles que abriram caminhos sem saber se um dia seriam reconhecidos. Estou falando de companheiros que envelheceram, de outros que já partiram e de tantos que ainda estão entre nós, esperando que alguém se lembre de perguntar como tudo começou.
Um memorial contra o esquecimento
Talvez seja essa a verdadeira finalidade deste artigo: fazer justiça à memória. Não uma justiça de tribunais, mas aquela que se realiza quando devolvemos às pessoas o direito de serem lembradas. Quando recuperamos suas histórias, reconhecemos suas contribuições e impedimos que o silêncio se transforme na versão definitiva dos acontecimentos.
O mínimo que devemos a essas pessoas é a memória. Não a memória decorativa dos discursos de Primeiro de Maio, nem aquela que aparece ocasionalmente em solenidades partidárias. Refiro-me à memória viva, que reconhece os protagonistas pelo nome, que registra os fatos como aconteceram e que não reescreve o passado para apagar aqueles que, por alguma razão, deixaram de ser convenientes ao presente.
É necessário criar memoriais, organizar arquivos, gravar depoimentos, reunir fotografias, preservar cartas, documentos, jornais e registros de campanhas. É preciso ouvir os mais velhos enquanto suas vozes ainda podem contar aquilo que os documentos não conseguiram registrar. Cada testemunho recuperado é uma parte da história que deixa de correr o risco de desaparecer.
E há algo que considero fundamental: os jovens precisam conhecer essa trajetória. Não para repetir mecanicamente os passos de quem veio antes, mas para compreender que nenhuma conquista política nasce do nada. A renovação não exige o apagamento dos antigos. Pelo contrário, uma renovação consistente começa quando reconhece a experiência acumulada, aprende com os erros e respeita os caminhos percorridos.
“Um partido pode mudar de direção, renovar suas lideranças e construir novos projetos. Mas não pode apagar as pegadas daqueles que caminharam primeiro.”
PADRE CARLOS
Meu amigo Edival, escrevo estas palavras porque acredito que ainda estamos em tempo de fazer esse resgate. Nossa geração tem uma responsabilidade que não pode ser transferida indefinidamente. Não podemos deixar para os historiadores do futuro a tarefa de reconstruir, a partir de fragmentos, aquilo que nós próprios temos condições de testemunhar.
O tempo passa. Os rostos mudam. As fotografias amarelecem. As vozes vão se calando. Mas uma história registrada, compartilhada e transmitida pode continuar falando muito depois que seus protagonistas partirem.
Que este artigo seja, portanto, mais do que uma homenagem. Que seja um chamado à consciência, um gesto de fraternidade e o primeiro passo de um compromisso coletivo com a preservação da nossa história.
Porque esquecer aqueles que construíram o caminho é também correr o risco de não compreender para onde estamos indo. E porque nenhuma organização política pode reivindicar um futuro digno se não tiver coragem de olhar com honestidade para o seu passado.
A história não pertence apenas a quem chegou ao poder. Pertence também, e sobretudo, àqueles que tiveram coragem de começar.
Que Edival Passos e tantos outros companheiros jamais sejam condenados ao esquecimento. Afinal, a memória é uma forma de gratidão. E, para quem acredita na justiça, lembrar também é um ato de responsabilidade.
Padre Carlos
Articulista | Política e Resenha
A gênese do poder é a verdade.
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