Há momentos em que o futebol deixa de ser apenas um jogo e se transforma em um espelho da sociedade. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Nos últimos dias, ouvi críticas de amigos e familiares porque disse, sem constrangimento, que torceria pela Argentina. Para muitos, essa escolha parece incompreensível. Para mim, ela apenas revela uma verdade que insistimos em ignorar: o mundo não cabe em respostas simples.
Vivemos a era das sentenças instantâneas. Tudo precisa ser reduzido a um “sim” ou “não”, “certo” ou “errado”, “esquerda” ou “direita”. Perdemos a capacidade de habitar o espaço das contradições, justamente onde a vida acontece.
Quando se fala da Argentina hoje, a primeira imagem que surge é a dos episódios de racismo protagonizados por parte de sua torcida. Foram cenas revoltantes, inaceitáveis, que merecem todo repúdio. Mas a pergunta inevitável precisa ser feita: será que o racismo é um problema exclusivamente argentino?
Infelizmente, não.
O Brasil também convive diariamente com o racismo estrutural. Nossa história foi construída sobre essa ferida aberta. Nenhuma sociedade está imune a esse veneno. O combate precisa ser permanente, e começa pelo reconhecimento das nossas próprias falhas antes de apontarmos apenas para as dos outros.
Também é preciso compreender quem ocupa determinados espaços. A torcida argentina que apareceu nos Estados Unidos representa, em grande medida, uma parcela privilegiada da sociedade, capaz de pagar ingressos caríssimos e viajar para acompanhar a seleção. Não representa, sozinha, toda a Argentina.
Existe outra Argentina.
A Argentina dos movimentos camponeses que lutam pela terra.
A Argentina das mulheres que protagonizaram uma das maiores mobilizações feministas do mundo, conquistando direitos depois de anos de resistência.
A Argentina das Avós da Praça de Maio, talvez o mais emocionante movimento de memória e justiça já construído na América Latina, que transformou a dor de mães e avós em símbolo universal de resistência contra a ditadura.
Existe ainda a Argentina que, ao lado do Chile, impulsiona movimentos populares que questionam o endividamento, a desigualdade e a concentração de riqueza. Uma Argentina que também resiste.
Porque um país nunca é uma única fotografia.
Assim como o Brasil não é apenas aquilo que aparece nas manchetes, a Argentina também é feita de muitas vozes, muitas histórias e muitas disputas.
Foi pensando nisso que assisti aos jogos da Copa.
O que vi dentro de campo foi algo que ultrapassa a técnica. Vi um grupo que disputa cada bola como se fosse a última oportunidade da vida. Vi jogadores que recusam a desistência. Vi uma entrega que parece tocar algo profundamente humano.
Há quem chame isso de raça.
Talvez seja mais do que isso.
Talvez seja fé.
Não uma fé religiosa, necessariamente, mas aquela convicção absoluta de que vale a pena continuar lutando mesmo quando tudo parece perdido.
E então surgem as contradições.
Messi talvez seja o maior jogador de sua geração. Dentro das quatro linhas, sua genialidade parece inexplicável. Fora delas, porém, suas escolhas políticas, seus silêncios diante do racismo e sua proximidade com determinadas lideranças despertam críticas legítimas.
Como conciliar essas duas imagens?
A resposta talvez seja que não precisamos conciliá-las.
Precisamos apenas reconhecer que elas coexistem.
O mesmo vale para Maradona.
Foi um gênio do futebol, mas também um homem cheio de excessos, defeitos e acusações. Ao mesmo tempo em que defendia causas populares, enfrentava ditaduras e levantava a voz pela soberania latino-americana, carregava sombras profundas em sua vida pessoal.
Humanos nunca são apenas heróis ou vilões.
São ambos.
Durante a Copa, outro episódio chamou atenção. A seleção argentina exibiu uma faixa reafirmando que as Ilhas Malvinas pertencem à Argentina, mesmo diante das restrições da FIFA a manifestações políticas. Para os argentinos, aquele gesto não era apenas uma provocação diplomática. Era também memória nacional, identidade e reivindicação histórica.
Mais uma vez, política e futebol caminharam juntos.
Talvez caminhem desde sempre.
No fim das contas, percebi que minha torcida já não era apenas por uma camisa. Era pela capacidade de reconhecer beleza mesmo em meio às imperfeições.
Porque ninguém é feito apenas de acertos.
Nem pessoas.
Nem povos.
Nem seleções.
O futebol tem essa força rara de revelar aquilo que os discursos muitas vezes escondem. Ele mostra que emoção e razão convivem, que paixão e crítica podem ocupar o mesmo espaço e que admirar uma equipe não significa absolver seus erros.
Foi por isso que me rendi.
Não à Argentina como nação perfeita — porque ela está longe disso.
Mas à intensidade com que aquele time decidiu viver cada partida.
Talvez seja isso que Rogério Ceni tenha enxergado quando afirmou que o Bahia precisa incorporar o espírito argentino demonstrado na Copa do Mundo.
Não se trata de copiar um país.
Nem de importar uma ideologia.
Trata-se de aprender com a coragem de competir até o último segundo, de acreditar quando todos já desistiram e de transformar entrega em identidade.
No futebol, como na política e na vida, vencer nem sempre depende apenas de talento.
Muitas vezes depende da disposição de nunca abandonar a luta.
E talvez seja justamente aí que mora a maior lição.
As contradições não desaparecem.
Nós é que precisamos amadurecer o suficiente para conviver com elas.





