Análise Política • Eleições 2026

A Bahia no centro da eleição presidencial de 2026
Por Padre Carlos
H
á estados que entram numa eleição presidencial como território de disputa. A Bahia entra como um número que nenhum estrategista de campanha consegue ignorar. Em 2026, mais de 11,3 milhões de eleitores baianos estarão aptos a votar. É o quarto maior eleitorado do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e o maior colégio eleitoral do Nordeste.
Isso explica por que a Bahia ocupa um lugar tão particular no mapa político brasileiro. Não se trata apenas de tamanho territorial, população ou importância econômica. Trata-se de poder eleitoral. Em uma eleição presidencial decidida voto a voto, milhões de eleitores concentrados em um único estado podem alterar significativamente a matemática nacional.
A política, evidentemente, não é uma ciência exata. Eleição não funciona como uma simples soma de planilhas. Há emoção, rejeição, identidade política, avaliação de governo, circunstâncias econômicas, liderança, alianças e acontecimentos de última hora. Mas existe uma matemática eleitoral que não pode ser ignorada: quanto maior o colégio eleitoral, maior o potencial de impacto de uma determinada votação.
E a Bahia possui esse peso.
O precedente de 2022: um número que ultrapassa a margem nacional
Os números de 2022 ajudam a compreender a dimensão dessa força. No segundo turno daquele ano, Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 6.097.815 votos na Bahia, equivalentes a 72,12% dos votos válidos, enquanto Jair Bolsonaro obteve 2.357.028 votos, ou 27,88%. A diferença entre os dois candidatos ultrapassou 3,7 milhões de votos.
Bahia — 2º turno de 2022 (votos válidos)
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
| Lula (PT) |
|
6.097.815 (72,12%) | ||
| Bolsonaro (PL) |
|
2.357.028 (27,88%) |
Diferença na Bahia: mais de 3,74 milhões de votos
É um número extraordinário.
Para compreender sua dimensão, basta lembrar que Lula terminou o segundo turno nacional de 2022 com 60.345.999 votos, contra 58.206.354 de Bolsonaro — uma diferença nacional de pouco mais de 2,1 milhões de votos.
A Bahia, sozinha, produziu naquele segundo turno uma diferença favorável a Lula superior à margem final registrada no país.
Margem de vitória: Bahia vs. total nacional (2º turno 2022)
Diferença de votos entre Lula e Bolsonaro — Fonte: TSE
| Bahia |
|
≈ 3,74 milhões | ||
| Brasil |
|
≈ 2,14 milhões |
Isso não significa, naturalmente, que a Bahia tenha decidido sozinha a eleição presidencial de 2022. Não decidiu. O resultado de uma eleição nacional é consequência da soma dos votos de todos os estados e do Distrito Federal. Mas o exemplo revela uma coisa importante: uma vantagem expressiva em um grande colégio eleitoral pode ter peso nacional desproporcional.
É justamente por isso que a Bahia volta a ocupar lugar estratégico no cálculo das eleições de 2026.
O maior colégio eleitoral do Nordeste
Existe ainda outro aspecto que torna o estado particularmente relevante: sua condição de maior colégio eleitoral do Nordeste. O Nordeste, por sua vez, representa uma das regiões mais importantes da disputa presidencial brasileira. Portanto, a Bahia não é apenas um grande estado dentro da região; é o maior reservatório de votos nordestino.
Isso modifica o comportamento das campanhas.
Candidatos à Presidência precisam olhar para a Bahia não apenas como cenário de campanha, mas como parte da arquitetura eleitoral nacional. Uma visita a Salvador pode ter significado político nacional. Uma aliança com uma liderança baiana pode ultrapassar os limites estaduais. Uma mudança de percepção do eleitorado baiano pode ser acompanhada pelas campanhas como sinal de uma tendência regional.
É aí que entra um conceito importante da ciência política: capital político.
Um candidato não disputa apenas votos. Disputa também alianças, narrativas, apoios, presença territorial e capacidade de produzir confiança. Em estados eleitoralmente grandes, essas dimensões se tornam ainda mais relevantes.
Mas há uma armadilha nessa análise.
Não se pode imaginar que o eleitorado baiano seja um bloco homogêneo. A Bahia é politicamente diversa. Salvador possui características eleitorais próprias. O interior possui outras. O Recôncavo tem sua história política. O Oeste vive outra dinâmica econômica. O Sudoeste possui suas particularidades. O Semiárido apresenta questões sociais e econômicas específicas.
Não existe, portanto, um “voto da Bahia” como se os 11,3 milhões de eleitores formassem uma única vontade política.
O que existe é um enorme conjunto de eleitores, distribuídos por realidades sociais, econômicas, culturais e políticas diferentes.
Comportamento eleitoral, não apenas números
E justamente por isso a eleição presidencial na Bahia precisa ser observada também como um fenômeno de comportamento eleitoral.
O eleitor não vota apenas olhando para Brasília. Ele pode avaliar sua própria situação econômica, a atuação dos governos estadual e federal, programas sociais, emprego, segurança pública, saúde, educação, infraestrutura e até a percepção sobre a política local. O chamado voto retrospectivo — a avaliação que o eleitor faz do desempenho dos governos — pode se misturar com identidade partidária, rejeição e expectativas para o futuro.
É nessa combinação que as campanhas presidenciais terão de trabalhar.
O candidato que olhar para a Bahia apenas como um território onde precisa conseguir votos provavelmente estará enxergando apenas metade do problema. A outra metade é compreender o que está produzindo esses votos.
Em 2026, essa questão ganhará ainda mais importância porque o eleitorado baiano cresceu e ultrapassou a marca de 11 milhões de pessoas aptas a votar. O TSE registra exatamente 11.321.005 eleitores na Bahia, correspondentes a 7,13% do eleitorado brasileiro. São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro permanecem à frente, enquanto a Bahia aparece na quarta posição nacional.
Os quatro maiores colégios eleitorais do Brasil — 2026
Eleitores aptos a votar — Fonte: TSE (dados de julho de 2026)
| 1º São Paulo |
|
34.104.226 (21,48%) | ||
| 2º Minas Gerais |
|
16.377.659 (10,32%) | ||
| 3º Rio de Janeiro |
|
12.857.000 (8,10%) | ||
| 4º Bahia |
|
11.321.005 (7,13%) |
Juntos, os quatro estados concentram cerca de 47% de todo o eleitorado nacional.
Isso significa que aproximadamente um em cada quatorze eleitores brasileiros está na Bahia.
É muita gente.
O que uma mudança de comportamento pode provocar
E aqui está talvez a questão mais interessante: o peso da Bahia não está apenas na quantidade de votos que ela pode entregar, mas na diferença que uma mudança de comportamento eleitoral pode provocar.
Se milhões de eleitores mudam alguns pontos percentuais de uma eleição para outra, o impacto não permanece restrito às fronteiras do estado. Ele pode alterar a matemática nacional.
Foi o que os números de 2022 tornaram tão evidente.
Naquela eleição, a Bahia apresentou uma votação presidencial extremamente concentrada. Lula obteve mais de 6 milhões de votos no estado, enquanto Bolsonaro passou de 2,3 milhões. A pergunta que naturalmente se coloca para 2026 não é se a Bahia repetirá exatamente aquele comportamento — ninguém pode afirmar isso antecipadamente —, mas se haverá mudança na distribuição das preferências eleitorais e em que intensidade.
É aí que as pesquisas, quando metodologicamente bem realizadas, passam a ser acompanhadas com tanta atenção. Elas não determinam o resultado de uma eleição, mas ajudam a identificar movimentos, estabilidade, crescimento ou perda de apoio e mudanças no comportamento do eleitorado.
Campanhas presidenciais sabem disso.
Por essa razão, a Bahia tende a aparecer novamente no radar das principais candidaturas. Não porque seja possível tratar o estado como uma peça eleitoral previsível, mas justamente porque seu tamanho torna qualquer movimento relevante.
A política brasileira sempre teve uma relação especial com os grandes colégios eleitorais. São Paulo possui enorme peso econômico e eleitoral. Minas Gerais tem importância histórica e estratégica. O Rio de Janeiro reúne grande concentração populacional e forte visibilidade política. E a Bahia acrescenta a esse grupo uma característica própria: é o maior eleitorado do Nordeste e um estado cuja votação presidencial historicamente chama atenção nacional.
A eleição de 2026, portanto, terá uma dimensão baiana que não pode ser subestimada.
Mais que números: um eleitorado, não uma planilha
Mas existe uma conclusão ainda mais importante.
O eleitor baiano não deve ser visto apenas como número em uma planilha de campanha. São mais de 11 milhões de cidadãos, cada um carregando suas próprias expectativas, frustrações, experiências e esperanças. Transformar esse eleitorado em mera estatística seria cometer o mesmo erro que muitas campanhas cometem quando confundem pesquisa eleitoral com realidade social.
A Bahia terá peso na eleição presidencial porque possui milhões de votos. Mas terá também peso porque representa uma parte importante do Brasil que as candidaturas nacionais precisam compreender.
No fim das contas, a eleição presidencial é uma disputa nacional construída dentro de milhares de municípios, bairros, comunidades e famílias. A urna eletrônica apenas registra, em alguns segundos, uma decisão que foi sendo formada ao longo de meses — às vezes de anos.
E quando mais de 11 milhões de eleitores estão concentrados em um mesmo estado, cada movimento político ganha uma dimensão que ultrapassa as fronteiras estaduais.
A Bahia não decide sozinha uma eleição presidencial. Nenhum estado decide. Mas há uma diferença entre não decidir sozinho e não ser decisivo na matemática nacional.
Essa é a conta que qualquer campanha presidencial que pretenda chegar ao Palácio do Planalto terá de fazer em 2026: olhar para a Bahia não apenas para pedir votos, mas para entender o eleitor baiano.
Porque, quando mais de 11 milhões de eleitores entram na urna, o que parece uma disputa estadual pode acabar pesando na escolha do presidente de todo o Brasil.
Bahia
TSE
Análise Eleitoral
Presidencial
Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




