Política e Resenha

A carta que resgata a outra Argentina

Opinião  |  Relações Brasil–Argentina

A carta histórica da deputada Marcela Marina Pagano lembra que nem todo argentino se reconhece no desprezo pelo Brasil — e que há, do outro lado do rio, quem ainda acredite na integração do continente.

Padre Carlos

Publicado em 27 de julho de 2026

N
ão foi um comunicado de imprensa. Não foi uma nota oficial de gabinete, nem um daqueles gestos protocolares que os Estados fabricam para consumo diplomático. Foi uma carta — escrita à mão da consciência, ainda que digitada — em que uma deputada da Nação Argentina, Marcela Marina Pagano, decidiu fazer o que raramente se vê em tempos de trincheira ideológica: pedir desculpas em nome de um povo que ela sente traído pelas próprias palavras de seu presidente. A carta, endereçada a Luiz Inácio Lula da Silva, é um documento raro. E raro, aqui, não é elogio gratuito: é constatação. Em uma época em que a política vive de bravata, alguém escreveu para dizer que a Argentina é maior do que o momento que a envergonhou.

O gesto de Pagano interessa menos como fato diplomático do que como fato moral. Ele nos obriga a fazer, de novo, uma distinção que a política contemporânea insiste em apagar: a diferença entre um governo e um povo, entre um homem investido de poder e a nação que, um dia, lhe emprestou esse poder e pode, no dia seguinte, retomá-lo.

I. A distinção que os povos sempre souberam fazer

Um Estado não é um governo, e um governo não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos de quem por acaso as ocupa. É essa a premissa sobre a qual Pagano constrói toda a sua carta — e é essa a premissa que, convenhamos, temos abandonado com frequência perigosa em nosso continente.

A deputada não hesita em chamar as coisas pelo nome: lamenta, sem rodeios, o papel institucional desempenhado pelo presidente argentino no episódio que motivou sua carta, porque, escreve ela, a investidura presidencial não é propriedade de quem a exerce — é um empréstimo que o povo faz, e que exige moderação.

“Um país que se cala diante da ofensa feita em seu nome torna-se, com o tempo, autor dessa ofensa. Não é o meu caso, e não quero que seja o da Argentina.”

— Marcela Marina Pagano, Deputada da Nação Argentina

II. Duzentos anos para deixar de mirar as canhoneiras uma na outra

Talvez o trecho mais valioso da carta não seja o pedido de desculpas em si, mas a memória que ela recupera. Pagano percorre duas centúrias de história compartilhada: das disputas coloniais em torno do Prata à guerra que gerou, em 1828, um Estado-tampão entre os dois países; da corrida naval do início do século XX — dois países pobres empenhando fortunas em encouraçados apontados um para o outro — até o momento em que essa lógica finalmente se rompeu.

Ela lembra o Acordo Tripartite de 1979 sobre o aproveitamento do rio Paraná, que transformou um litígio hídrico em cooperação energética. Lembra, sobretudo, 1982: quando a Argentina rompeu relações com o Reino Unido durante a Guerra das Malvinas, foi o Brasil quem assumiu a representação dos interesses argentinos em Londres. Não com declarações — com fatos, escreve ela. E acrescenta algo que poucos dirigentes teriam a honestidade de admitir publicamente: há dívidas que um país nunca quita, e essa é uma delas.

O ponto alto dessa memória é 1985, quando Raúl Alfonsín e José Sarney se encontraram em Foz do Iguaçu, sobre a ponte que hoje leva o nome de Tancredo Neves, e assinaram a declaração que deu início ao processo de integração. Dali nasceriam o Programa de Integração e Cooperação Econômica, o Tratado de Integração de 1988, a Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares — a ABACC, criação sem paralelo no mundo, em que dois países com programas nucleares avançados escolheram, voluntariamente, abrir-se à inspeção recíproca — e, em 1991, o Tratado de Assunção, que fundou o Mercosul.

O que está em jogo

“Duzentos anos para passar dos encouraçados às inspeções nucleares recíprocas. Nenhuma frase pronunciada no calor de um momento pode ter autoridade para dilapidar esse patrimônio.”

III. O que os números não medem

Há uma passagem da carta que foge do registro diplomático e entra em território mais íntimo. Pagano fala de sobrenomes brasileiros em famílias argentinas e de sobrenomes argentinos em famílias brasileiras; de médicos formados nas universidades de um país atendendo pacientes no outro; de uma fronteira de mais de mil quilômetros onde a nacionalidade se dilui no cotidiano — o chimarrão que cruza em uma direção, o café que cruza na outra. Fala também da rivalidade futebolística, que chama, com acerto, de a forma mais honesta e mais alegre que dois povos encontraram para dizer que precisam um do outro.

É esse tecido — humano, cotidiano, feito de gente comum — que paga a conta quando as relações entre Estados se deterioram. A deputada nomeia essa gente com precisão: o operário da fábrica de autopeças, o produtor das missões fronteiriças, o estudante, o caminhoneiro que cruza a ponte ao amanhecer, o pequeno empresário dos dois lados do rio. Nenhum deles jamais disse uma palavra ofensiva contra ninguém. Nenhum deles deveria pagar pelo destempero de um único dia.

IV. Magnanimidade: a virtude política mais difícil

O pedido central da carta não é apenas o perdão — é o esquecimento estratégico. Pagano pede a Lula que “deixe passar”, e é honesta o suficiente para reconhecer o peso do que está pedindo: magnanimidade, escreve, é a mais difícil das virtudes políticas, porque exige que quem tem razão renuncie a cobrá-la. E arremata com uma frase que merece ficar registrada nos manuais de ciência política do continente: os governantes administram agravos; os estadistas administram séculos.

Não é pouca coisa uma parlamentar da oposição — ou de qualquer bancada — reconhecer publicamente que o adversário histórico de seu próprio governo, o Brasil, foi tratado com injustiça. É desse tipo de gesto, mais do que de comunicados oficiais, que se sustenta a confiança entre nações vizinhas.

V. A Argentina que a carta resgata

Vivemos um tempo em que é fácil — talvez confortável demais — reduzir países inteiros a uma caricatura de seus governantes mais estridentes. A carta de Marcela Pagano é útil justamente porque desfaz essa simplificação. Ela lembra que existe, na Argentina, uma tradição diplomática antiga e respeitada, um Congresso, universidades, províncias de fronteira, famílias que decidiram, há quarenta anos, que a segurança de seu país nunca mais dependeria da fraqueza do vizinho.

Essa Argentina — a de Foz do Iguaçu, a da ABACC, a que não esqueceu quem a representou em Londres em 1982 — não desapareceu. Continua ali, do outro lado do rio, mesmo quando os microfones amplificam apenas o oposto. E é bom, de tempos em tempos, ser lembrado disso: de que a maioria silenciosa de um país raramente é tão silenciosa quanto parece, e que ainda há, em meio ao ruído, quem escreva cartas pedindo desculpas em nome de uma nação inteira — sem que ninguém tenha pedido.

Se a ponte sobre o Iguaçu resistiu a duzentos anos de desconfiança até ser finalmente atravessada em 1985, é razoável apostar que resistirá também a um episódio isolado de destemperança. Depende, como escreve a própria deputada, de que as duas partes — governos e povos — decidam ficar do mesmo lado da ponte.

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Redação Editorial

Artigo de opinião sobre relações Brasil-Argentina