
Padre Carlos
A política baiana vive, neste momento, um de seus mais intrigantes movimentos de xadrez. Não se trata de discursos inflamados ou de confrontos diretos, mas de algo mais sofisticado — quase invisível ao olhar desatento: a construção de uma estratégia que tenta sobreviver no meio da polarização nacional sem ser engolida por ela.
O nome no centro dessa engrenagem é ACM Neto.
Ao sinalizar cautela na definição do palanque presidencial e admitir a possibilidade de uma terceira via, o grupo político que o cerca não está hesitando — está calculando. E talvez nunca tenha sido tão necessário calcular.
A Bahia não é um território neutro. É, historicamente, um dos principais redutos eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva, cuja popularidade atravessa classes sociais, regiões e gerações. Qualquer projeto estadual que se coloque frontalmente contra essa força corre o risco de ser rejeitado antes mesmo de ser compreendido.
É nesse ponto que surge o fenômeno político mais curioso dos últimos anos: o chamado “Luneto”.
Uma espécie de voto híbrido, onde o eleitor escolhe Lula para presidente e, ao mesmo tempo, deposita confiança em Neto para governar o estado. Não é incoerência. É maturidade eleitoral. É o cidadão separando o Brasil da Bahia, o nacional do regional, o ideológico do pragmático.
E o exemplo mais didático disso está em Vitória da Conquista.
Ali, o eleitor mostrou que não vota mais de forma automática ou ideológica. Ele escolhe. Ele compara. Ele decide de forma segmentada. Lula venceu para presidente, mas Neto foi preferido para governador. Esse comportamento revela uma tendência que pode definir 2026: o eleitor quer liberdade para não ser refém da polarização.
E é exatamente nisso que reside a genialidade — e o risco — da estratégia de ACM Neto.
Ao evitar um alinhamento explícito com o campo bolsonarista, representado por figuras como Flávio Bolsonaro, ele preserva sua capacidade de diálogo com o eleitorado lulista. Ao mesmo tempo, ao não abraçar o PT, mantém sua identidade de oposição.
Mas até quando essa corda pode ser esticada?
A política não tolera indefinições eternas. Em algum momento, será preciso escolher um lado — ou convencer o eleitor de que não escolher também é uma escolha legítima.
É nesse cenário que surge a hipótese da terceira via, com nomes como Ronaldo Caiado entrando no radar. Não como solução mágica, mas como tentativa de reorganizar o tabuleiro fora do eixo Lula versus Bolsonaro.
A pergunta que paira é inevitável: existe espaço real para uma terceira via no Brasil de hoje?
A resposta, embora incerta, passa necessariamente pela Bahia.
Se ACM Neto conseguir manter vivo o fenômeno do voto cruzado, ele não apenas amplia suas chances eleitorais — ele redefine a lógica da disputa. Ele transforma a eleição em um pleito sobre gestão, competência e identidade regional, e não sobre guerras ideológicas importadas de Brasília.
Mas há um perigo silencioso nesse caminho.
O excesso de cálculo pode ser interpretado como falta de posicionamento. A neutralidade, quando mal comunicada, pode soar como ambiguidade. E o eleitor, embora mais sofisticado, ainda exige clareza emocional — quer saber quem está de que lado, mesmo que escolha votar de forma independente.
O desafio de ACM Neto, portanto, não é apenas político. É narrativo.
Ele precisa sustentar uma história coerente que explique ao eleitor por que é possível apoiar Lula e, ao mesmo tempo, confiar nele. Precisa transformar o “Luneto” de fenômeno eleitoral em conceito político legítimo.
Se conseguir, poderá liderar uma nova forma de fazer política na Bahia — menos ideológica, mais pragmática, mais conectada com a realidade das pessoas.
Se falhar, corre o risco de ser esmagado pela força centrífuga da polarização.
2026 ainda não começou oficialmente.
Mas, nos bastidores, o jogo já está em curso.
E, desta vez, vencerá não quem gritar mais alto — mas quem souber equilibrar silêncio, estratégia e tempo.




