Fé, história e justiça · 30ª Romaria Nacional da Pastoral Afro-Brasileira
Por Padre Carlos Josaphat · Política e Resenha
Há momentos em que a fé ultrapassa os limites dos templos e se transforma em uma declaração de humanidade. Momentos em que a oração encontra a história, a espiritualidade abraça a resistência e a devoção se converte em compromisso com a justiça. É nesse horizonte que se inscreve a 30ª Romaria Nacional da Pastoral Afro-Brasileira, que reúne, no próximo dia 7 de novembro, no Santuário Nacional de Aparecida, comunidades negras de diferentes regiões do Brasil.
O tema escolhido para esta edição — “Dignidade inviolável, povo negro: imagem viva de Deus” — não é apenas uma frase religiosa. É uma afirmação teológica, histórica e política. É também uma resposta a séculos de escravidão, discriminação racial, exclusão social e tentativas de negar ao povo negro o reconhecimento de sua plena humanidade.
| Em resumo Evento: 30ª Romaria Nacional da Pastoral Afro-Brasileira Data: 7 de novembro Local: Santuário Nacional de Aparecida Tema: “Dignidade inviolável, povo negro: imagem viva de Deus” |
Uma Mãe Negra e a responsabilidade da fé
Nossa Senhora Aparecida, a Mãe Negra do Brasil, ocupa um lugar especial nessa história. Sua imagem, encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, tornou-se símbolo de devoção popular e de identificação profunda com os pobres, os humildes e os esquecidos. Há uma força simbólica extraordinária no fato de milhões de brasileiros encontrarem nessa imagem negra uma representação de sua fé, de sua esperança e de sua própria história.
Mas a devoção precisa produzir consequências. Não basta ajoelhar-se diante da imagem de uma Mãe Negra e permanecer indiferente às dores de seus filhos. Não basta proclamar o amor cristão e fechar os olhos para o racismo que ainda atravessa nossas relações sociais, nossas instituições e nossas oportunidades. A fé que contempla Maria precisa também reconhecer a dignidade daqueles que historicamente foram privados de direitos e de voz.
A palavra de Dom Zanoni
Em entrevista ao Política e Resenha, Dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana e bispo referencial da Pastoral Afro-Brasileira da CNBB, apresentou uma reflexão que merece ser ouvida com atenção. Para ele, a missão evangelizadora da Igreja passa necessariamente pelo anúncio da dignidade humana, especialmente da população afrodescendente. Recordando as palavras de Jesus, o arcebispo reafirma que a dignidade do povo negro não é uma concessão da sociedade, mas vontade de Deus.
“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância.”
Jesus · Evangelho segundo João, 10,10
Essa afirmação nos conduz ao próprio coração do Evangelho. A dignidade humana não depende da cor da pele, da origem social, da condição econômica ou do reconhecimento dos poderosos. O ser humano não precisa provar que merece respeito. Sua dignidade é anterior a qualquer distinção social e não pode ser negociada.
Dom Zanoni também recupera um marco importante da caminhada da Igreja no Brasil: a Campanha da Fraternidade de 1988, cujo tema foi “Ouvi o clamor deste povo”. Inspirada no livro do Êxodo, a campanha estabeleceu uma relação profunda entre a experiência bíblica da libertação e a realidade histórica da população negra brasileira.
A lembrança não é casual. No Êxodo, Deus escuta o sofrimento de um povo escravizado e chama Moisés para conduzir um processo de libertação. A mensagem é profundamente atual: a Palavra de Deus não pode permanecer confinada às páginas de um livro antigo. Ela precisa iluminar os dramas do presente. O clamor dos escravizados de ontem encontra correspondência no sofrimento daqueles que ainda enfrentam racismo, pobreza, violência e desigualdade.
Essa compreensão também dialoga com o espírito renovador do Concílio Vaticano II, que abriu novos caminhos para a presença da Igreja no mundo contemporâneo, reconhecendo a riqueza das diferentes culturas e a necessidade de uma evangelização comprometida com a realidade humana. Como recorda Dom Zanoni, não existe uma raça humana superior a outra. Existe uma única humanidade, expressa em diferentes culturas, histórias e identidades.
Protagonismo, não apenas participação
É nesse contexto que precisamos compreender a importância da Pastoral Afro-Brasileira. Seu papel não se limita à organização de celebrações religiosas ou à preservação de manifestações culturais. Ela representa uma caminhada de conscientização, reconhecimento e protagonismo. O cristão negro não pode ser visto apenas como destinatário da evangelização, mas como sujeito da Igreja, discípulo missionário, portador de sua própria história, espiritualidade e contribuição para a construção da sociedade.
Há uma diferença fundamental entre permitir que o povo negro participe da Igreja e reconhecer que ele também é protagonista de sua história e de sua missão. A segunda atitude exige mudanças de mentalidade, revisão de práticas e disposição para enfrentar preconceitos que, muitas vezes, permanecem escondidos até mesmo nos ambientes religiosos.
A memória de Dom Hélder Câmara também aparece nessa caminhada. Sua invocação de Maria como Mãezinha Mariama, Mãe de Deus e Mãe dos homens, revela uma espiritualidade profundamente comprometida com a causa dos pobres e com a luta do povo negro. Não se trata de uma devoção distante dos problemas humanos, mas de uma fé que encontra na ternura de Maria uma convocação à fraternidade e à transformação social.
A dimensão política da romaria
É impossível ignorar, nesse contexto, a dimensão política dessa romaria. E aqui é preciso compreender corretamente a palavra política: não estamos falando de disputa partidária, mas da organização da sociedade, da distribuição de oportunidades, do reconhecimento de direitos e do enfrentamento das estruturas que produzem desigualdade. A luta contra o racismo é também uma luta pela democracia, pela cidadania e pela efetivação dos direitos humanos.
A presença das comunidades negras em Aparecida, portanto, não é apenas uma manifestação de religiosidade popular. É também uma afirmação de pertencimento. É o povo negro dizendo que faz parte da história deste país, que ajudou a construí-lo com seu trabalho, sua cultura, sua inteligência, sua fé e sua resistência. Um povo que não aceita mais ocupar apenas as margens da história que também escreveu.
A romaria chega à sua trigésima edição com uma mensagem que precisa ultrapassar os limites do Santuário Nacional. A sociedade brasileira ainda tem uma dívida histórica com sua população negra. Reconhecer essa dívida não significa alimentar divisões, mas compreender que não existe verdadeira fraternidade onde persistem discriminação e desigualdade.
| Talvez a maior contradição de nossa história seja a de um país que aprendeu a rezar diante de uma imagem negra, mas ainda encontra dificuldades para reconhecer plenamente a dignidade dos homens e mulheres negros que caminham pelas suas ruas. |
Aos pés de Nossa Senhora Aparecida
No dia 7 de novembro, aos pés de Nossa Senhora Aparecida, milhares de vozes renovarão uma mensagem que não deveria precisar ser repetida: ninguém é superior a ninguém. Nenhuma cor de pele determina o valor de uma vida. Nenhuma origem autoriza a discriminação. Somos diferentes em nossas culturas e experiências, mas iguais em dignidade.
Que a Mãezinha Mariama continue inspirando a Igreja e a sociedade brasileira. E que nossa devoção não se limite às lágrimas diante de seu altar, mas se transforme em coragem para combater o racismo, defender os direitos humanos e construir um Brasil verdadeiramente fraterno.
Porque a fé que reconhece Maria como Mãe Negra precisa reconhecer também seus filhos como irmãos. E a dignidade humana, quando é verdadeiramente compreendida, não admite exceções.
Nossa Senhora Aparecida
Pastoral Afro-Brasileira
Dom Zanoni
Racismo
Dignidade Humana
Igreja e Sociedade
Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha





