Padre Carlos
As imagens da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia, despertam um debate que vai muito além da língua utilizada na celebração. Não se trata simplesmente de latim, de véus, de mantilhas ou de roupas formais. O que está em discussão é um projeto de Igreja.
A preservação da missa tridentina por grupos ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X representa, para muitos, a tentativa de recuperar um modelo de cristandade que o Concílio Vaticano II procurou superar. Não porque a tradição seja um problema, mas porque a tradição nunca pode ser confundida com imobilismo.
O Concílio Vaticano II foi um dos acontecimentos mais importantes da história do cristianismo moderno. Convocado por São João XXIII, ele compreendeu que a Igreja precisava abrir as janelas para dialogar com o mundo contemporâneo. A Constituição Sacrosanctum Concilium permitiu que a liturgia deixasse de ser um espetáculo assistido em silêncio para tornar-se uma celebração participativa, na língua do povo, permitindo que os fiéis compreendessem aquilo que rezavam.
Quando alguns grupos defendem exclusivamente o retorno ao rito anterior ao Concílio, frequentemente manifestam algo mais profundo: a nostalgia de uma Igreja fortemente clerical, centralizada na figura do sacerdote, distante da participação efetiva dos leigos e pouco aberta ao diálogo com a sociedade moderna.
Não deixa de chamar a atenção que muitos desses ambientes também preservem uma rígida divisão entre homens e mulheres. Véus obrigatórios, proibição do uso de calças femininas, forte separação de papéis sociais e uma estética religiosa marcada pela submissão feminina remetem a uma compreensão cultural que pertence muito mais à Europa do século XVI do que ao Evangelho proclamado por Jesus.
Cristo nunca mediu a santidade pelo comprimento de uma saia ou pelo tecido que cobria a cabeça das mulheres. Ao contrário, rompeu barreiras religiosas, conversou com samaritanas, acolheu pecadoras, colocou mulheres entre suas discípulas e fez delas as primeiras testemunhas da ressurreição.
O Vaticano II recuperou justamente essa dimensão evangélica ao apresentar a Igreja como “Povo de Deus”. Todos os batizados possuem igual dignidade. A autoridade existe para servir, não para estabelecer privilégios ou alimentar uma cultura de superioridade espiritual.
Também não é por acaso que muitos grupos tradicionalistas demonstram dificuldades em aceitar os avanços promovidos pelos últimos pontífices, especialmente Francisco. O Papa insiste numa Igreja em saída, misericordiosa, comprometida com os pobres, aberta ao diálogo ecumênico e capaz de escutar antes de condenar. Essa visão rompe com o modelo de cristandade em que a Igreja se apresenta como fortaleza cercada por muros.
O problema, portanto, não está no latim. O latim faz parte da riqueza histórica do catolicismo. O problema surge quando ele se transforma em símbolo de exclusão, superioridade religiosa ou rejeição às reformas que permitiram maior participação do povo de Deus na vida litúrgica.
A nostalgia pode ser um sentimento legítimo. Mas ela não pode conduzir a Igreja para trás. O Espírito Santo continua conduzindo a comunidade cristã na história. O Evangelho nunca foi um convite para reconstruir museus da fé, mas para anunciar a Boa Nova aos homens e mulheres de cada tempo.
A verdadeira fidelidade à tradição não consiste em repetir formas antigas, mas em manter viva a mesma fé capaz de responder aos desafios de cada geração.
O Concílio Vaticano II continua sendo um convite permanente para que a Igreja deixe de olhar apenas para dentro de si e volte seus olhos para o mundo, para os pobres, para os excluídos e para aqueles que esperam encontrar no cristianismo não uma religião do medo, mas uma comunidade de esperança.
Retroceder à lógica da cristandade é esquecer que a missão da Igreja não é preservar um passado idealizado, mas testemunhar o Reino de Deus no presente. É exatamente aí que reside a atualidade do Vaticano II: recordar que a tradição autêntica não é conservar cinzas, mas manter aceso o fogo do Evangelho.





