O padre que devolve nomes a quem a cidade tentou apagar

Uma reflexão sobre fé, gesto e o que significa, de fato, cuidar de quem ninguém quer ver
E
u assisti a um vídeo com o padre Júlio Lancellotti e confesso: me emocionei. Ele caminha pelas ruas do centro de São Paulo como quem recolhe pedaços de um mundo que insiste em se despedaçar. Não porque queira ser herói — ele mesmo rejeita esse rótulo sempre que alguém o oferece —, mas porque aprendeu, em mais de quatro décadas de trabalho com a população em situação de rua, que fé sem gesto é apenas discurso guardado numa gaveta.

Padre Júlio é vigário episcopal da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo, função que exerce desde os anos 1990. É também, desde 1986, o padre responsável pela paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, de onde nunca deixou de sair para ir ao encontro de quem a cidade prefere não enxergar. Não é uma figura de aparição eventual: é presença contínua, quase teimosa, num país que ainda trata a pobreza como incômodo estético a ser removido de vista, e não como ferida a ser tratada.
Dar comida é, sim, um gesto simples. Mas em um país que normaliza a fome, simplicidade é revolução.
Quando estende uma marmita a quem tem fome, o padre estende também algo mais difícil de nomear: um olhar que devolve humanidade a quem a burocracia e o abandono tentaram apagar. Quando cumprimenta mãos calejadas, toca também a ferida por trás delas. Abraça quem, muitas vezes, ninguém mais abraça. Nesse gesto pequeno, cotidiano, sem cerimônia, ele devolve ao país a chance de se olhar inteiro — inclusive nas partes que preferiria esconder.
A caridade que incomoda o poder

O Brasil assiste a essa trajetória de dois modos: uns com admiração, outros com desconforto. E não é coincidência. A pobreza denuncia; a fome expõe; e alimentar quem tem fome, de forma consistente e pública, é mais incômodo para certos discursos do que qualquer manifesto. Não à toa, o trabalho do padre Júlio já foi alvo de tentativas de investigação por parte de vereadores que o acusaram, sem provas que resistissem ao escrutínio, de coisas que sua história de décadas contradiz. A tentativa de Comissão Parlamentar de Inquérito contra ele, articulada por setores conservadores da Câmara Municipal de São Paulo, foi barrada antes de avançar — mas deixou clara a pressão que recai sobre quem escolhe ficar do lado errado do conforto alheio.
Em 2023, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, citou justamente o trabalho do padre Júlio no combate à aporofobia — a aversão social contra pessoas pobres — ao determinar que o poder público apresentasse um plano nacional para a população em situação de rua. Não é pequeno o fato de que uma vida dedicada ao cuidado tenha se tornado referência jurídica para pensar política pública.
Atravessa madrugadas, distribui cobertores, recolhe histórias de abandono, protege corpos vulneráveis quando tudo ao redor é indiferença institucional. Há algo de sagrado nessa teimosia: uma compaixão que não dorme, que não exige documento, que não pergunta de onde a pessoa veio antes de oferecer um prato de comida.
Nem consenso, nem unanimidade

É justo dizer que padre Júlio não é figura de consenso — e talvez seja exatamente por isso que seu trabalho importa tanto. Ele já foi chamado de “padre esquerdista” por opositores políticos, questionado sobre a gestão de recursos e alvo de campanhas que buscaram associá-lo a supostas irregularidades em organizações que atuam na região conhecida como Cracolândia. Discordar de sua abordagem, de sua leitura política ou de suas prioridades é parte legítima do debate público. O que não se sustenta, diante de décadas de rotina documentada nas ruas, é a acusação de que sua presença ali seja vazia ou performática.
Ele não espera o mundo melhorar de uma vez, por decreto ou por milagre. Ele melhora o mundo onde pode, um carrinho de supermercado cheio de marmitas por vez, uma madrugada de cada vez. E talvez seja essa a lição mais difícil de aceitar: a caridade que realmente transforma não é a que aparece nos discursos de gabinete, mas a que se ajoelha na calçada, todos os dias, sem plateia.
Direitos Humanos
População em Situação de Rua
Padre Júlio Lancellotti
Padre Carlos
— Coluna de opinião




