Padre Carlos
Há uma diferença importante entre a Igreja participar do debate público e a Igreja transformar sua estrutura em instrumento de articulação político-partidária. A primeira é um dever moral. A segunda é uma deformação da missão eclesial.
A recente orientação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), proibindo padres e bispos de fazer campanha eleitoral, utilizar igrejas para propaganda política ou se filiar a partidos durante o período eleitoral, representa um passo importante para preservar a credibilidade da instituição. O problema, porém, não está apenas na norma. Está na sua aplicação.
Na Bahia, os fatos parecem caminhar em direção oposta ao espírito dessa orientação.
Recentemente, Vitória da Conquista foi palco de um encontro do Programa de Governo Participativo (PGP) do governo baiano. A divulgação oficial descreveu o evento como um momento destinado à construção do programa de governo que servirá de base para a campanha de reeleição do governador Jerônimo Rodrigues. Não se tratava, portanto, de uma simples audiência pública ou de um debate institucional. Era um encontro claramente voltado à elaboração das propostas políticas do grupo governista.
E onde esse encontro ocorreu?
Nas dependências da Paróquia Rainha da Paz.
É justamente aqui que surge a contradição.
Quando uma estrutura paroquial é colocada à disposição de um evento cujo objetivo é reunir lideranças partidárias, deputados, prefeitos, vereadores, militantes e bases políticas para construir um programa eleitoral, a fronteira entre atividade pastoral e atividade político-partidária torna-se extremamente tênue.
Alguns poderão argumentar que ainda não havia campanha oficial.
Do ponto de vista jurídico-eleitoral, talvez tenham razão.
Mas do ponto de vista ético e institucional, a situação é bem diferente.
O espírito da orientação da CNBB é impedir que templos e estruturas eclesiais sejam identificados com projetos partidários específicos. A preocupação não é apenas com o calendário eleitoral, mas com a preservação da neutralidade pastoral da Igreja diante de seus próprios fiéis, que possuem diferentes convicções políticas.
Uma paróquia não pertence a um partido.
Não pertence ao governo.
Não pertence à oposição.
Pertence à comunidade cristã.
Quando suas instalações passam a sediar reuniões voltadas à formulação de estratégias políticas de um grupo específico, inevitavelmente transmite-se uma mensagem simbólica de apoio institucional, ainda que ninguém declare isso explicitamente.
E símbolos, na política, têm enorme peso.
A Igreja Católica sempre ensinou que os leigos devem participar da política. Aliás, essa participação é desejável. A Doutrina Social da Igreja incentiva o compromisso com a vida pública, a justiça social e o bem comum.
O que ela nunca defendeu foi a instrumentalização da Igreja como extensão das estruturas partidárias.
Esse princípio vale para todos.
Vale quando o beneficiado é um partido de esquerda.
Vale quando é um partido de direita.
Vale quando favorece aliados do governo.
Vale quando beneficia adversários.
A coerência exige isonomia.
Se a CNBB entende que igrejas não devem ser utilizadas para campanhas eleitorais nem para promoção político-partidária, essa orientação precisa alcançar também os eventos que, embora travestidos de encontros participativos, têm finalidade evidente de construção de plataformas eleitorais e mobilização das bases de um projeto político.
Caso contrário, cria-se uma situação desconfortável.
No papel, a Igreja condena a utilização de suas estruturas para fins partidários.
Na prática, alguns espaços eclesiais continuam sendo utilizados para reuniões cujo conteúdo é essencialmente político.
A consequência é previsível: aumenta a percepção de seletividade, enfraquece-se a autoridade moral da própria orientação e alimenta-se a desconfiança de milhares de fiéis que esperam ver a Igreja acima das disputas eleitorais.
A credibilidade da Igreja nunca dependeu de sua proximidade com governos.
Dependeu justamente da sua independência.
Quanto maior a distância dos palanques, maior costuma ser sua autoridade para dialogar com toda a sociedade.
Talvez seja exatamente esse o desafio colocado pela nova orientação da CNBB: não apenas publicar normas, mas assegurar que elas sejam observadas com o mesmo rigor, independentemente de quem esteja ocupando o poder.
Porque, quando o púlpito se aproxima demais do palanque, quem perde não é apenas a política.
É também a própria Igreja.





