Análise Eleitoral • Bahia 2026
Por Padre Carlos
Confesso que, diante de tantas pesquisas eleitorais divulgadas em tão pouco tempo, começo a imaginar a confusão que deve estar se formando na cabeça do eleitor baiano. Afinal, quem está dizendo a verdade? ACM Neto está disparado na frente? Jerônimo Rodrigues está praticamente empatado? Ou a eleição para o Governo da Bahia está simplesmente aberta e nenhuma pesquisa, neste momento, consegue capturar com precisão o que está acontecendo nas ruas?
A pergunta é legítima e merece ser feita sem paixão partidária.
O que dizem as pesquisas mais recentes
A mais recente pesquisa do Instituto IDEIA, divulgada em agosto, apresenta um cenário de equilíbrio: ACM Neto aparece com 40% das intenções de voto, enquanto Jerônimo Rodrigues registra 38%. A diferença é de apenas dois pontos percentuais e, considerando a margem de erro de 2,5 pontos, estamos diante de um cenário de empate técnico. Na simulação de segundo turno, a situação fica ainda mais impressionante: os dois aparecem empatados em 41%.
Mas aí o eleitor olha para outra pesquisa, do Paraná Pesquisas, e encontra uma fotografia completamente diferente. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de agosto com 1.400 eleitores em 60 municípios, colocou ACM Neto com 48,9% contra 38,7% de Jerônimo no primeiro turno. São 10,2 pontos de diferença. No segundo turno, a distância também é significativa: 50,9% para Neto contra 40% para Jerônimo.
E então vem a pergunta inevitável: como duas pesquisas sérias podem apresentar cenários tão diferentes?
“Uma pesquisa não é uma profecia. Ela é uma fotografia de determinado momento, feita a partir de uma determinada metodologia, com uma determinada amostra e sob determinadas condições.”
Portanto, quando duas pesquisas apresentam números diferentes, isso não significa automaticamente que uma delas esteja mentindo. Pode significar que estão captando momentos, amostras ou comportamentos diferentes do eleitorado. E existe outro detalhe fundamental: não devemos olhar apenas para o número bruto de uma pesquisa, mas para o conjunto das pesquisas.
Antes do IDEIA, a Genial/Quaest havia encontrado ACM Neto com 39% e Jerônimo com 38%, também caracterizando empate técnico. Naquele levantamento, realizado entre 23 e 27 de julho com 1.200 eleitores, a margem de erro era de três pontos percentuais.
O retrato completo: pesquisas lado a lado
Quando colocamos as pesquisas mais recentes lado a lado, aparece uma informação talvez mais importante do que qualquer percentual isolado: a eleição está longe de estar decidida. Veja abaixo o retrato de cada instituto no cenário de primeiro turno:
Instituto IDEIA — agosto/2026
| ACM Neto — 40% |
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| Jerônimo — 38% |
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Genial/Quaest — 23 a 27 de julho/2026
| ACM Neto — 39% |
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| Jerônimo — 38% |
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Paraná Pesquisas — 31/jul a 2/ago/2026
| ACM Neto — 48,9% |
|
| Jerônimo — 38,7% |
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E no cenário de segundo turno, a distância entre os institutos aumenta:
Instituto IDEIA
| ACM Neto — 41% |
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| Jerônimo — 41% |
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Paraná Pesquisas
| ACM Neto — 50,9% |
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| Jerônimo — 40% |
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Futura/Apex — 24 a 25 de julho/2026
| ACM Neto — 54,1% |
|
| Jerônimo — 41,4% |
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Real Time Big Data
ACM Neto lidera numericamente por cerca de 1 ponto percentual — dentro da margem de erro, configurando empate técnico.
Fontes: Instituto IDEIA (ago/2026), Genial/Quaest (23–27 jul/2026), Paraná Pesquisas (31 jul–2 ago/2026), Futura/Apex (24–25 jul/2026) e Real Time Big Data (ago/2026). Consulte sempre a íntegra dos levantamentos e o registro no TSE.
Não é possível simplesmente escolher o resultado que mais agrada e ignorar os demais. O eleitor responsável precisa fazer exatamente o contrário: desconfiar de qualquer discurso que transforme uma pesquisa em certeza absoluta.
Aprovação não é o mesmo que voto
Há ainda uma questão muito importante. A pesquisa Paraná Pesquisas mostra que o governo Jerônimo tem aprovação de 55,2%. Ao mesmo tempo, o governador aparece com 38,7% das intenções de voto naquele levantamento. Isso demonstra que aprovação de governo e intenção de voto não são exatamente a mesma coisa. Um eleitor pode aprovar determinadas ações de uma administração e, ainda assim, não desejar votar no governador para um novo mandato.
Isso ajuda a explicar uma das grandes complexidades da eleição baiana. O eleitor não vota apenas olhando para uma obra, um programa de governo, uma avaliação administrativa ou uma preferência partidária. Ele vota também levando em consideração rejeição, liderança política, memória eleitoral, influência de prefeitos, deputados, lideranças locais, avaliação do governo federal, percepção econômica e, principalmente, aquilo que sente que pode acontecer no futuro.
A Bahia ainda não decidiu.
Há um eleitorado que demonstra preferência por ACM Neto. Há outro que permanece fiel a Jerônimo. E há uma parcela que ainda pode mudar de posição — a própria Quaest encontrou 44% dos entrevistados dizendo que ainda poderiam mudar o voto.
Isso significa que estamos diante de uma eleição em movimento. E uma eleição em movimento não pode ser analisada como se fosse uma corrida de 100 metros na qual alguém já cruzou a linha de chegada.
A lição de 2022
Existe, inclusive, uma lembrança importante de 2022. Naquela eleição, ACM Neto chegou ao segundo turno com uma vantagem expressiva sobre Jerônimo no primeiro turno, mas terminou derrotado no segundo. Jerônimo recebeu 52,79% dos votos válidos contra 47,21% de ACM Neto.
A história deveria servir como advertência para os dois lados.
Para quem está na frente nas pesquisas, a lição é: não confunda liderança com vitória.
Para quem está atrás, a lição é: não confunda desvantagem com derrota. O eleitor baiano já demonstrou que pode mudar de direção.
Como ler uma pesquisa com responsabilidade
Por isso, quando alguém me pergunta qual pesquisa merece mais confiança, minha resposta é diferente: não devemos procurar uma pesquisa para acreditar; devemos procurar um conjunto de pesquisas para compreender. Precisamos observar metodologia, data da coleta, tamanho da amostra, margem de erro, nível de confiança, cenário pesquisado e, sobretudo, a tendência apresentada por diferentes levantamentos.
“Pesquisa não deve servir para confirmar nossa preferência. Deve servir para nos provocar a pensar.”
Os institutos precisam explicar cada vez melhor suas metodologias. Os meios de comunicação precisam apresentar os números completos, e não apenas a manchete que produz impacto. E nós, eleitores, precisamos abandonar a ideia confortável de que pesquisa é confirmação daquilo que já pensamos.
É perfeitamente possível que ACM Neto esteja efetivamente liderando a corrida e que algumas pesquisas estejam captando uma disputa mais apertada. Também é possível que a eleição esteja muito mais equilibrada do que sugere o Paraná Pesquisas. O que os dados disponíveis permitem afirmar com segurança é que existe uma disputa competitiva e que os números ainda não autorizam ninguém a cantar vitória.
Talvez esta seja justamente a mensagem mais importante para o eleitor baiano: não acredite cegamente nem na pesquisa que o favorece nem naquela que o incomoda.
Leia. Compare. Pergunte quem realizou.
Veja quando os eleitores foram entrevistados. Observe a margem de erro.
Conheça a metodologia. E, principalmente, espere o debate político amadurecer.
Porque existe uma diferença enorme entre estar na frente de uma pesquisa e ter conquistado a confiança definitiva do eleitor.
A eleição para o Governo da Bahia ainda está sendo construída. ACM Neto tem motivos para acreditar que pode vencer. Jerônimo Rodrigues também tem razões para acreditar que pode reagir. E o eleitor, no fim das contas, é quem continua com a palavra.
As pesquisas podem tentar revelar para onde sopra o vento.
Mas quem decide para onde a Bahia vai caminhar é o eleitor.
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ANÁLISE
Escrito por Padre Carlos — artigo de análise e opinião sobre o cenário eleitoral baiano.





